Santa Carona

Testemunho do sorriso

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É realmente encantador quando convivemos com uma pessoa sorridente, de bem com a vida. Não é uma alegria espalhafatosa e superficial, mas procede de uma paz muito interior, como num lago profundo e sereno.

Às vezes eu fico observando essas pessoas que vivem de uma “euforia de redes sociais”. Estão sempre pulando nas festas, postando snaps com um copo de bebida na mão e vários amigos em volta cantando uma música meio descompassados. Toda semana uma foto nova no Instagram em um lugar badalado, com aquele gato\gata dos sonhos. Mas basta uma conversa um pouco mais íntima para perceber que por trás de todo aquele alarde, existe uma pessoa perdida e triste.

Gosto de pensar na alma como esse lago. Por vezes, está agitado, turbulento, confuso. Então o mestre chega, repreende o vento e diz: Silêncio! Cala-te! E cessou o vento e seguiu-se grande bonança [cf. Mc 4, 39]. Não sei com vocês, mas Ele faz assim comigo. Deixa a minha alma agitada, parece dormir. E no momento certo, levanta-se e tudo se desfaz, e a paz volta a reinar. Vai preenchendo tudo com uma alegria cada dia mais profunda e verdadeira, mergulha fundo no lago da minha alma.

Pode não parecer tão importante, mas permita-me explicar. Existem quatro tipos básicos de personalidade segundo a psicologia: os sanguíneos, coléricos, melancólicos e fleumáticos. A minha é predominantemente melancólica, o que significa que eu, por natureza, sou uma pessoa introvertida, que costuma isolar-se e tem tendência à tristeza mórbida (pelo menos eu costumo pensar assim). Porém, à medida que Jesus foi tomando conta da minha vida, do meu lago, Ele me deu o dom da alegria. Cristo me ensinou a ser alegre!

Este é o diferencial do cristão. Num mundo cheio de grosseria, de violência, individualismo, com doutrinas estranhas dizendo ser o cosmos um monte de matéria sem fim último, que diz ser a nossa própria vida algo sem sentido, e por consequência sem valor, ali está o cristão alegre, para ser um oásis em meio a uma guerra desumana –declarada ou não.

Por outro lado, como é vergonhoso ver um cristão mal-humorado, reclamão e rabugento! Onde está a alegria de saber que a nossa existência não é produto do acaso? Cadê a esperança de uma vida eterna, onde se enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição [cf. Ap 21, 4]? Como cumprir o último pedido do Senhor, de anunciar o evangelho a todas as nações, se estamos fechados em nossa casquinha como bichos do mato, desconfiados e ranzinzas?

Certa vez, um jornalista incrédulo foi até Lourdes entrevistar a vidente Bernadette. Perguntou-lhe, para pegá-la na “mentira”, se a Virgem realmente lhe sorrira. A menina disse a ele que sim, a Virgem havia sorrido, mas não poderia repetir o sorriso, pois para isso devia ser ‘gente do céu’. Mas o homem insiste e diz que não crê nas aparições, e diante disso Bernadette aceita o pedido. A menina ergueu-se lentamente, juntou as mãos e um reflexo celeste iluminou o seu rosto. Um sorriso divino, que jamais vi em lábios mortais, encantou os meus olhos… Sorria ainda, quando caí de joelhos, vencido pelo sorriso da Imaculada nos lábios da ditosa Vidente.

 Desde aquele dia nunca mais se me apagou da imaginação aquele sorriso divino. Passaram-se muitos anos, mas a sua recordação enxugou-me muitas lágrimas ao perder minha esposa e minhas duas filhas… Parece-me estar só no mundo e vivo no sorriso da Virgem.

O sorriso que vêm de Deus, da certeza de que Ele nos quer bem e de uma confiança profunda e filial, tem o poder de converter até os corações mais duros. Ele nasce de um coração grato e generoso, que dá a Deus tudo, sem guardar reservas mesquinhas para si, que tem coragem de confiar nesse Deus invisível que se mostra a nós com uma doçura incansável. Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de mim e por causa do Evangelho que não receba, já neste século, cem vezes mais […]. Neste cêntuplo a mais também se encontra a felicidade tão almejada por cada ser humano, de uma vida cheia de sentido e de caridade. Que saibamos sorrir sempre: de nós, para Deus, para o nosso próximo e para o não tão próximo, e para o que queríamos longe…

 

Gabriela Letícia

Concurseira militar, ama ler, escrever e fotografar. Chegada de Nossa Senhora de Lourdes e apaixonada por Jesus.

2 comments

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  • Certa vez, um discípulo de Santo Agostinho, se eu não me engano São Fulgêncio, em uma homilia disse que Jesus ao nascer trouxe a essência da caridade como mais um presente para nós. Se o verdadeiro amor para nós (cristãos) é a própria caridade, logo, convém fazê-la bem. E por que não usar o sorriso como acompanhante da caridade? Não é ele uma consequência da verdadeira paz e alegria? É algo tão simples, por vezes difícil, mas tão bonito e encantador, não é mesmo?! Imagino que o nosso Senhor nos quer sempre sorrindo (Temos que refletir).

    Muito bom o texto.