Santa Carona

Materialismo cristão

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Sempre que se tentou separar corpo e alma no pensamento cristão, algo saiu errado –Graças a Deus. Um bom exemplo disso está ali na Idade Média, com a heresia dos cátaros. Deturpando a fé cristã, eles acreditavam que toda a matéria é ruim, que somente o mundo espiritual é bom e puro. Mas isso contraria a lógica!

Lá no livro do Gênesis, quando é narrada a criação do mundo dia por dia, a conclusão a que Deus chega é que tudo é não apenas bom, mas muito bom [cf. Gn 1, 31]. Nada de mal vêm de Deus, o Bem Absoluto. O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente (Gn 2, 7). Ou seja, esse barro da terra, elemento material que forma nosso corpo, não é apenas a casinha da minha alma, mas faz parte do meu ‘ser’, do meu ‘eu’. Não estou no meu corpo, eu sou o meu corpo.

Nós não somos anjos, seres puramente espirituais. Somos diferentes deles, de acordo com o desejo do Criador, dentro de toda a riqueza e diversidade da criação. Não desprezamos o nosso corpo, educamos a sua natureza ferida (não corrompida, como alguns acreditam) para o amor, para estar com Deus. Nada melhor do que a Encarnação para ilustrar isso. O próprio Deus tem um corpo, com o qual está na glória eterna. A Virgem Maria, com seu corpo Imaculado, acompanha o seu filho Jesus.

Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes:

Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles?

Entretanto, vós o fizestes quase igual aos anjos, de glória e honra o coroastes. (Sl 8, 4-6)

Quando Jesus se encarnou, e quando ressuscitou e subiu aos céus com seu corpo glorificado, elevou ao máximo a nossa dignidade. Ele é como nós, e somos como Ele. Contemplar Maria Santíssima assunta é descobrir o valor corporal, que participará da ressurreição final e é templo do Espírito Santo.

Mas, mais além do nosso eu, também existe bondade. Todo o mundo material – as florestas, o mar, as estrelas, os animais, as flores– está ali para ser uma constante recordação de quem é Deus, da vida eterna que nos espera e da Beleza. A própria liturgia da Igreja nos leva a orar com o corpo, e envolve todos os nossos sentidos, seja com a música; o incenso; o ato de levantar, sentar ou ajoelhar-se.

E isso nos leva a consequências práticas. O mundo material não é mal, pois foi feito por Deus. E se foi criado, deve glorificá-lo. Cabe a nós levar o mundo; as coisas; o trabalho; as realidades humanas: cultura, política, economia; a Deus. Não precisamos nos separar do mundo, levando assim uma vida dupla, um coração dividido. Devemos elevar o mundo às realidades divinas. Assim como um balão a gás, devemos fazer subir essas realidades terrenas, para que encontrem o céu.

As coisas que fazemos todos os dias, mesmo as mais triviais, devem ser motivo de encontro com Cristo. São Josemaria Escrivá disse, em sua homilia proferida a 8 de outubro de 1967 na Universidade de Navarra: Na linha do horizonte, meus filhos, parecem unir-se o céu e a terra. Mas não: onde de verdade se juntam é no coração, quando se vive santamente a vida diária…

Devemos encher-nos do espírito dos primeiros cristãos, que sabiam ser cidadãos, comerciantes, soldados, como quaisquer outros de sua época. Sabiam fazer unir a linha do horizonte em seus corações e santificar o trabalho.

“Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua e costumes […]. Vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham contudo um modo de vida único e admirável […]. Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo.” (Carta a Diogneto, nn. 5 e 6)

Gabriela Letícia

Concurseira militar, ama ler, escrever e fotografar. Chegada de Nossa Senhora de Lourdes e apaixonada por Jesus.

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