Vou precisar ir à Missa duas vezes esse fim de semana?

0
404
visualizações

Vivemos em uma era em que tudo é automático, e acabamos por nos tornar também automatistas, isso é, queremos o mais fácil e pronto possível, que não exija esforço. É por isso que nossos produtos estão cheios de descrições de suas facilidades na embalagem. Infelizmente, prezamos mais pela praticidade do que pela qualidade ou pelo valor. Cito um caso absurdo: cinco gominhos de uma tangerina descascada em uma bandejinha de isopor custam mais caro que duas tangerinas inteiras ainda na sua embalagem natural. Há que acredite que vale a pena, pois descascar uma tangerina parece algo muito difícil e que deixa mal cheiro nas mãos.

Com esse automatismo, cobramos respostas prontas de questões morais da Igreja. De uma forma que não precisamos exercer a nossa livre consciência, mas apenas seguir o mais prático. De uma forma que existem dois grupos de católicos que seguem de forma diferente, mas segundo o mesmo princípio: os maus católicos, que em vista do mais prático, preferem descordar dos ensinamentos da Igreja a fim de continuarem acomodados e os católicos bonzinhos, que com a melhor das intenções querem que o padre diga apenas se pode ou não pode, para que eles obedeçam comodamente sem se dar o trabalho de analisar a própria consciência.

Não vou nem me dar ao trabalho de discutir com os maus católicos, pois eles não chegaram nem no terceiro parágrafo, afinal, isso seria um esforço hercúleo para eles. Já os bonzinhos, tem até vontade de acertar, só estão mal acostumados com as facilidades de nossos tempos. Então, já declaro, se queria uma resposta pronta se pode ou não, está perdendo seu tempo, o que vou fazer é conduzir sua consciência para que você mesmo chegue à conclusão.

Esse ano haverá duas Missas de dia santo de guarda (dias em que é obrigatório ir à Missa, mesmo não sendo domingo) que cairão na segunda-feira: o Natal do Senhor (25 de Dezembro) e a solenidade de Santa Maria Mãe de Deus (01 de Janeiro), mas como é possível cumprir preceito indo na Missa das Vésperas, fica a pergunta: se eu for no domingo à noite, cumpro o preceito dominical e, no mesmo pacote, o preceito de segunda-feira. Vamos pensar bem na mentalidade que pode estar por trás disso: busca-se praticidade de viver a vida comodamente ou não se tem outra forma de ser?

Ao contrário do que afirmam os ateus militantes, a Igreja não é uma madrasta má que quer criar novas formas de se pecar e se ir para o quinto dos infernos, antes disso, ela quer que todos se salvem (afinal, ela reza “levai as almas todas para o céu”, ora pombas!). E é isso que a Igreja tinha como intenção quando criou as vésperas, isto é, a possibilidade de cumprir o preceito um dia antes. Pense bem: a Igreja sabia que era instituição divina a celebração do mistério pascal de Cristo (conhecido como Missa) no dia de domingo, e a fim de que todos cumprissem com esse preceito divino, ela possibilitou um dia anterior, assim, aqueles que não pudessem ter uma Missa no domingo, poderiam ir no sábado e não pecar, mas ao contrário, participar do mistério principal da fé católica: viver a prática mais autêntica do catolicismo.

Acontece que isso acabou por gerar um problemão, pois existem pessoas que preferem ir à Missa no sábado à noite para dormir até mais tarde ou não deixar que o mistério da fé atrapalhe seu domingo de festejos. O que antes era para pessoas que não podem ir à Missa por motivos de trabalho, de distância, de falta de sacerdotes, de saúde et similia, passou a ser pretexto para folgado. Mas a Igreja é mãe e não liga se você é desses que tem preguiça de fazer o dever e que deixa a toalha molhada na cama, não, ela não condena sua consciência e deixa você descansar em paz.

Mas voltando às duas próximas semanas, ora, os dias santos de guarda tem como finalidade celebrar os principais mistérios da fé, a Igreja decidiu instituí-los para que as pessoas não se esquecessem dos fatos mais espetaculares da sua fé: o Deus menino, a criatura mãe de Deus criador, a Virgem preservada do pecado, o Deus e homem que trinfa sobre a morte, o Deus infinito que se faz um simples pedaço de pão… enfim, a Igreja nos relembra de todas essas maravilhas que o Deus de amor realizou por nós. Mas mesmo obrigando, ela não quer que pequemos e, como no domingo, dá a possibilidade de irmos às vésperas do dia anterior.

Os liturgistas que me processem, mas não se trata de uma questão de rito. Se eu fosse um morador rural, que foi na única Missa possível nas proximidades no domingo e, chegando lá, deparo-me com um rito de exéquias na Missa. Em primeiro lugar, se eu fosse esse morador rural, não teria ideia do que é liturgia de exéquias e liturgia do tempo comum, só saberia que o padre rezou a Missa e que a novidade era que tinha um defunto. Fora isso, retorno para minha casa na tranquilidade de ter cumprido o preceito que por mais complexo que seja, eu entendo a gravidade, “sine domenico, non possumus”.

É mais uma questão moral: existe uma exigência divina de ir à Missa no domingo e existe uma exigência eclesial, e nem por isso menos divina, de ir à Missa de Natal. Duas exigências que devem ser cumpridas a seu tempo, sem pacotões promocionais.

Porém, a partir do que foi posto, fica o questionamento: você, um caro católico instruído, tem essa dúvida exatamente porque sabe a diferença entre rito do Natal e rito do quarto domingo do advento, entre rito do tempo do Natal e rito da solenidade da Teótoco. Então, em primeiro lugar: parabéns por ser instruído e buscar acertar, isso faz de você um católico bonzinho, e não malzinho; e, em segundo lugar: se você sabe a importância do domingo e sabe a importância da festa, porque está querendo dar um bolo na sua fé só para encher a cara de leitoa esquentada e sidra de maçã?

Não é uma questão de pode ou não, é uma questão de dialogar com a própria consciência. Será recesso, o Estado já vai me dispensar do trabalho servil para cumprir com o preceito da minha fé, fé esta de suma importância para a história desse mesmo Estado. O que me impede de viver o preceito dominical e ver acender-se a quarta vela do advento, preparando meu coração para a chegada do Deus menino e no outro dia ir à Missa de Natal? O que me impede de viver o preceito dominical do curto tempo do Natal e depois voltar para celebrar com alegria as maravilhas do Senhor que se dignou nascer de uma criatura para nossa salvação?

Agora, se você realmente quer uma resposta a fim de ser motivado pela obrigação do preceito. Então fica a declaração: você deve ir as duas Missas, pois dois preceitos não se cumprem de uma única forma. Dois preceitos exigem dois cumprimentos. Mas fique tranquilo, isso não voltará a acontecer novamente até 2023, quando o Natal tornará a cair na segunda-feira.

Por fim, fica um apelo para que não apenas queríamos saber se pode ou não pode, ou procure brincar com a Lei de Deus, no sentido de que “até aqui posso ser livre sem pecar”. Esse é um pensamento muito estupido da fé e que o próprio Jesus e seus discípulos muito combateram: “pois a letra mata, mas o Espírito vivifica”. (2Cor III, 6). Exorto para que busque conhecer bem sua fé e a viva por amor e coerência com o que acredita, e não mero cumprimento de normas, que são apenas para orientar a vida livre de cada filho de Deus.

Desejo a todos os carneiros que este fim de ano seja repleto de muitas bênçãos celestes, sobretudo na celebração dessas quatro Missas, a melhor forma possível de se encerrar um ciclo e começar um novo.

DEIXAR UMA RESPOSTA

Enter Captcha Here : *

Reload Image