Santa Carona

Política e gnose

Em início de Semana Santa, momento de oração e reflexão, pensava trazer uma meditação sobre esse momento de sofrimento que leva até a Glória. Mas em vista de tentativas cada vez mais acaloradas (e estapafúrdias, diga-se de passagem) de defender o indefensável, achei mais apropriado trazer outro tipo de reflexão. Sobre elementos que estão imbuídos na política atual e que são facilmente visíveis a todo o momento. Então deixo as reflexões sobre o tempo da Semana Santa aos meus colegas de blog, que são bem mais capazes que eu, enquanto falo das anomalias políticas que vemos aos quatro cantos.

Entre a última postagem que fiz, somada ao texto do Hian que também estava vinculado diretamente ao tema, tivemos tantas reviravoltas nos acontecimentos políticos no país que foi um enredo digno do seriado House of Cards. A tentativa descarada de safar a grande alma do partido conferindo a esse um ministério; impedimentos para que ele não assumisse o ministério; novas manifestações espontâneas contrárias à nomeação; tivemos o #MortadelaDay, ou seja, manifestações desastrosas da militância pró-governo (que sempre paga os seus manifestantes uns R$30,00 e um pão com mortadela que nomeia o evento) que não se aproximaram da quantidade de pessoas que querem o fim dessa palhaçada; tivemos a divulgação de áudios claros que mostram desde a falta de compostura entre o homem que até hoje é chamado de presidente sendo que deixou o mandato há anos e várias pessoas ligadas ao governo e a atual presidente (entre processos e panelas tudo a família da alma mais honesta do país mandou que fossem enfiadas nos orifícios anais). Pois bem, é esse o nosso cenário e a cada novo passo das investigações são revelados novos motivos cabais que levarão, assim espero, toda a corja envolvida, tanto de esquerdistas azuis e de terno ou de vermelhos e mortadeleiros, para a cadeia. E que não saiam mais de lá.

Seria uma situação para que, no mínimo, as pessoas parassem de levantar apoio ao partido, à presidente e seus colegas e também ao homem que admite inquestionável honestidade. Mas o que se vê não chega próximo a isso. Pelo contrário. Vemos proliferar, acaloradamente, pseudodefesas a favor da inocência de todos! Há quem grite, brigue e exija como direito apoiar todos os erros de não ver neles a culpabilidade clara, em nome de benefícios que foram instalados pelo governo (benefícios esses que existiram, mas que simplesmente foram implantados à crédito, ou seja, o governo e os beneficiários aproveitaram bastante durante um tempo de bonanças, mas agora chegou a hora de pagar, porque não existe almoço grátis), em nome de uma história de “lutas” pelo qual passaram os nomes do alto escalão do partido (como se assaltos, guerrilha armada e envolvimentos com assassinatos fosse coisas boas, mas não há como esperar mais de pessoas que tem o disparate de ver em Che e Fidel “heróis”). Com base em estúpidas tentativas de defesas e uma histeria coletiva encontramos ainda defesas ao indefensável. Mas por que ainda temos isso? Qual seria o elemento motivador desse fanatismo político que nem mesmo a mentira, a zombaria, a tentativa de passar por cima da lei, de se fazer superior ao restante do povo do país não faz com que haja uma debanda em massa de pessoas desse partido de jararacas? O básico é pensar que: 1- são pessoas que ganham com isso; 2- são iludidos pela narrativa que sustenta o partido. Existem os dois níveis, sendo o primeiro o escalão daqueles que realmente ganham com a manutenção da política da forma como está (seja políticos, empreiteiros, possuidores de cargos de indicação, donos de ONG’s que vivem a mamar no Estado, a turma caviar da Lei Rouanet). E os demais são os idiotas úteis, que por ingenuidade não conseguem sair da armadilha narrativa e são acalorados defensores das mentiras inventadas por esse partido e tem essa defesa e manutenção como “sentido de vida”. Uns são claramente outros salafrários que pensam no próprio umbigo, outros são iludidos, idiotas mesmo, que não sabem de nada. Mas em ambos está a justificativa da manutenção dessa desgraça em que vivemos e eles acreditam nela. E há uma possível explicação para isso: a gnose na política.

Poderia discorrer sobre ideologia, mas ficará para outra situação, porque nesse momento acredito que pensar na nova onda gnóstica que se encarna na política moderna será mais específico para nosso contexto. Primeiramente, vamos a esclarecimentos. Grosso modo podemos sintetizar assim: gnose quer dizer “conhecimento”, então o gnóstico é aquele que conhece. Surge no contexto da Antiguidade e se propaga com elementos iniciação em várias associações e seitas de cunho hermético e grupos com elementos religiosos dualistas. Sua entrada no terreno do cristianismo veio a ganhar um combate feito por Santo Irineu em seu Adversus haereses. Entre as características mais marcantes do gnosticismo encontramos a linguagem dualista: “é dualista ao postular uma oposição irredutível entre Deus e o mundo, como é ao ligar a salvação do homem ao reconhecimento da sua natureza puramente espiritual”[1]. A gnose, além de dualista possui uma condenação clara à matéria e uma postura irracionalista (veja como os elementos da pós-modernidade se enquadra nessa descrição). A forma mais comum de vermos elementos do gnosticismo seria nas expressões espiritualistas modernas. As várias crias da new age, como movimento hippie, xamanismos, orientalismos e todo esse movimento que surge após a dessacralização do mundo e da necessidade de encontrar elementos espirituais que sustentem a necessidade metafísica. Mas ao invés de partirem para as religiões universais tradicionais, criou-se um misto de elementos de religiões e seitas orientais (meditações, universalismos, yoga, etc.) somados a elementos à la carte do cristianismo que fazem com que possa ser feito “novas descobertas” sobre antigos temas. Descobertas essas que não são senão novas roupagens de antigas heresias já refutadas, mas que o desespero metafísico fez com que fossem recuperadas. O mais interessante é o caráter obscuro que elas adquirem, o que traz mais e mais adeptos para essas seitas gnósticas. Veja, por exemplo, a quantidade de pessoas que atualmente são “espiritualizadas”, mas negam possuir religião. São “entendidas” em assuntos espirituais, mas entenderam por revelação própria, subjetiva, após práticas transcendentais exóticas que fizeram deixar os elementos inibidores desse mundo. Agora ela conhece aquilo que a maioria não consegue saber. Ela está além do mundo material. É uma pessoa gnóstica.

Esse tipo de exposição é entendido de maneira mais fácil quando entramos no espaço das explanações políticas e intelectuais. Vejamos: um “ungido intelectual” é contra um discurso, ou contra a ideologia de uma determinada classe. Assim ele fará o seguinte para desconstruir tudo que foi criado: criará outro discurso ou outra ideologia. Mas você pode interroga-lo perguntando porque, se o discurso/ideologia era algo ruim e não refletia a realidade de fato, por que a nova expressão da mesma coisa que ele combate é boa? A questão é simples: porque ele a criou. Assim, iluminado por uma reflexão própria, o que ele produziu, nos mesmos moldes do que ele combate é bom, e o que difere do discurso/ideologia dele, nova e relegada a poucos, é errado e opressor. Coloque nesse mesmo barco qualquer intelectual que baseia suas análises em discursos e ideologias não admitindo a realidade concreta como verdade, ou seja, relativiza a verdade, mas a verdade dele é a certa. Vejamos como podemos entender melhor: o problema que o gnosticismo tentava dar uma explicação aos problemas do mundo segundo a matéria, ao mundo criado por um Demiurgo, e “atualmente, a culpa de tudo é do sistema. Um exemplo muito claro é o pensamento marxista, eminentemente gnóstico. As injustiças do mundo são explicadas por ele por meio da ideologia (um sistema de ideias confeccionado para alienar as pessoas, fazendo com que elas não enxerguem o mundo de verdade e fiquem aprisionadas no sistema de pensamento). A libertação se dá quando a pessoa conhece a teoria crítica do marxismo, nesse momento ela se livra das amarras do sistema. Típico esquema gnóstico”[2].  Aqui temos a apresentação da gnose na política atual.

Faça um esforço, mas blindado contra as possibilidades de desenvolver um câncer frente às abominações que vai ver/ler, e tente entender o “argumento” daqueles que defendem, com unhas e dentes, a sua posição como conhecedor do “bom partido”. Ora, eles não procuram conhecer as provas contrárias ao seu pensamento. Para eles não há nenhuma prova que seja válida para derrubar a blindagem contra o líder da patota e nem mesmo ao seu fantoche na presidência. Eles são imaculados, porque nem mesmo a voz de ambos armando para um safar o outro, ou os xingamentos visíveis e audíveis que eles espalham (e que se fossem outros seriam processados por todos os imbecis úteis), ou as mentiras de campanhas, ou o rombo que há nas estatais, ou o crescente aumento em tudo que se compra devido aos impostos que todos estamos pagando para encher os cofres públicos que o partido e suas linhas auxiliares arrombaram para manter o poder em suas mãos podem ser provas da falta de caráter, da vergonhosa podridão na qual eles nadam. Não. O que vale é a convicção adquirida de que ser da esquerda é a libertação e a ação correta da humanidade. Independente deles possuírem as maiores montanhas de cadáveres debaixo de seus pés. Ser da esquerda, ou ser do partido no poder, é atestado de bondade, de verdade e nada nem ninguém pode mudar isso, porque quem não é da esquerda não pode conhecer e só saberá como essas coisas funcionam quando chegar a esse nível. Temos aqui o exemplo da auto iluminação, do conhecimento adquirido por ter acesso a verdades que mais ninguém tem e que desmontam toda a realidade.

Os adoradores do partido escolhem por revelação que possuíram que o lado que eles estão (veja aqui o dualismo) é o correto e nada pode mudar isso. Eles escolheram e pronto. A vontade deles supera a realidade, os fatos e as várias provas. E se alguém disser algo que contrarie isso são membros da oposição, e tem que perguntar sobre outros políticos que também são culpados. A divisão aqui é a tentativa de estabeleces os sujeitos dialéticos, os elementos duais que compõem a gama do bem e mal da gnose. Sempre acharão que o partido deles, vermelho e esquerdista é correto porque o outro azul (e também de esquerda, mas que usa terno) é errado. Isso talvez justifique a nova roubalheira. O que é uma mentira deslavada, já ensinada por Chesterton quando fala que “O certo é certo, mesmo que ninguém o faça. O errado é errado, mesmo que todos se enganem sobre ele”[3].

Há outro fato que pode ser exemplificado por conta do pensamento gnóstico em seu viés moderno é o irracionalismo. Frente as acusações com base e fundamento, frente a delações e a fatos que saem da boca do indivíduo, os conhecedores manipulam a realidade de tal forma que buscam criar novos caminhos dos mais ilógicos possíveis mesmo vendo que não há forma alguma de encaixá-lo no que aconteceu. Fica desconexo, insultante até, mas eles o colocam em resposta e ai de você se não aceitar, seu coxinha, racista, misógino, patriarcal, papista, facista… Poderíamos aqui tratar também da paralaxe cognitiva, mas vamos deixá-lo para outra oportunidade.

E claro, como eles sabem do elemento de salvação da sociedade, também conhecem quem incorpora esse fator divino e luta para que ele continue a sua jornada como benfeitor nacional. É simples a conotação da transformação da figura do partido, líder ou o que quer que seja em elemento de transcendência e que completa o vazio desses pobres coitados. Na falta de uma religião que faça isso, o seu conhecimento subjetivo e transcendente ao mundo real vislumbrado de forma errada por meros mortais, encontrou uma figura que consegue suprimir a necessidade da figura divina, ele é o guru, o líder, o ídolo que traz consigo os elementos para o conhecimento necessário para a transcendência. É ele que ensina aquilo que é obscuro e que pode romper com as ilusões da realidade. Há o afastamento de uma ordem religiosa de fato para assumir um esvaziamento do sagrado no qual “o deus foi substituído por uma ideologia da história, agora representada pelo governo investido de sua função revolucionária”[4]. Como a gnose sempre foi vista como um problema para a Igreja, uma heresia, ela tem por natureza querer derrubar uma ordem religiosa e impor outra forma escatológica no lugar. Eis mais uma amostra.

Não há nada de novo na presença desse pensamento em nossa época. Já falamos como erros do passado são idolatrados como novidades esclarecedoras, mas que na verdade só causam estragos. E podemos reforçar com a observação de Otto Maria Carpeaux que ao refletir sobre o anseio religioso que se viu crescer no séc. XX destacou sabiamente que “onde os novos mitos se encontram com o anseio religioso da época, pululam do solo como cogumelos as seitas que requentam todos os desacertos gnósticos dos antigos heréticos”[5]. Ou seja, “não há nada de novo debaixo do sol”.

Em resumo, enquanto não houver uma compreensão de como essa mentalidade partidária de cunho nitidamente gnóstico não é conhecimento de fato, de como ela deturpa a realidade com irracionalidades, dualismos e subjetivismos, não há esperança de fazer pessoa compreenderem que remover um governante por meio de investigações legais não é golpe. Até lá veremos idiotas úteis a louvar a figura do ex e a justificar os seus “mal feitos” e tudo pelo poderosíssimo argumento do “eu escolhi”, do “eu sei o que é ser do partido e ele é honesto”, do “o outro também roubou”, da “ele fez muito pelo país”. E enquanto despejam essas obras primas da retórica e lógica, fecham os olhos para a realidade esperando transcender para o mundo revelado pelos ensinamentos do partido.

 

 

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[1] ALMEIDA, Dimas de. A questão gnóstica e o enigma do quarto evangelho. In: Communio. Ano XIV-1997, nº 6 Nov/Dez, Lisboa.

[2] Aula 6 do curso de História da Igreja Antiga, “A heresia gnóstica nos dias atuais”, Pe. Paulo Ricardo.

[3] Chesterton. Considerando Todas as Coisas. Campinas: Ecclesiae, 2013.

[4] Eric Voegelin. Reflexões Autobiográficas. São Paulo: É Realizações, 2007.

[5] Otto Maria Carpeaux. Caminhos para Roma. Campinas: Vide Editorial, 2014.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.