Santa Carona

Afinal, o que é a Missa?

Com a perda e a relativização da religiosidade em nossa era, não me admiraria se alguém me fizesse essa pergunta como profundo desconhecedor do catolicismo. Entretanto, mistério é mistério e eu não me estarreceria se também um jovem católico, que nunca faltou um único domingo, desconhecesse o que aquele ritual composto por ações e símbolos de fato significa. Enfim, nenhum desconhecimento do que de fato seria a Santa Missa me surpreenderia, pois também não a compreendo. Entretanto, segue o pouco que sei.

A Santa Missa é uma ação litúrgica, um conjunto de acontecimentos que possuem uma carga histórica e cultural, mas mais do que mera representação cultural, na Missa o Sagrado é executado, e toda realidade espiritual se manifesta juntamente com os fiéis na nave e o sacerdote no presbitério.

A entrada, marcada por uma procissão litúrgica estabelece o início da celebração; não estar no seu lugar a partir desse momento já é estar atrasado. Aliás, um bom católico já estaria sentado em silêncio pelo menos dez minutos antes, preparando o espírito para o que irá acontecer.

Mas não nos divaguemos em correções catequéticas, a procissão é precedida por um “arauto” que leva o estandarte da cruz. Em toda guerra, um soldado ia a frente com a bandeira do reino para mostrar sob qual rei aquele exército marchava. Ora, marchamos sob a realeza de Cristo, rei do universo! Após o arauto, acompanhado de velas, seguem todos os que desempenharão alguma função e, por fim, o sacerdote, um Cristo em nosso meio que caminha ao altar do sacrifício para beijá-lo como Jesus abraçou a cruz. Nós, povo de Deus, cantamos e bendizemos a esse Cristo como Ele fora bendito enquanto entrava em Jerusalém no lombo de um burrinho.

Todos em seus lugares, invocamos o Deus uno e trino, pois é por ele que estamos ali. Ao invocá-lo, pedimos perdão por nossas faltas. Nesse momento, acho interessante fazer uma observação acerca do pecado. O pecado é uma gambiarra criada pelo demônio e que entre as suas muitas inutilidades, consegue estabelecer uma barreira entre a graça divina e nós, tal como um guarda-chuva velho comprado no camelô que nos impede de sermos tocados pelos gloriosos raios de sol que viaja anos-luz do astro rei até nossas pequenas cabeças.

Em alguns casos, o pecado é grave (mortal), e nos cega diante da bela paisagem que é a misericórdia de Deus. Em outros casos, são só sujeirinhas (veniais) que se comprazem em serem ignorados até que sejam muitas para nos derrubarem. Quem já assistiu ou jogou Yu-Gi-Oh sabe o que acontece quando você combina um patético Kuriboh e a carta mágica de multiplicação.

Devaneios a parte. Os demônios sabem da importância do pecado em seus planos de perdição das almas, e fazem questão de sabotar nossas confissões e nossos atos penitenciais. O pior deles é o demônio-mudo, que lhe enche de vergonha de confessar seus pecados. Um conselho prático seria: comece a confissão com o pior pecado e vá diminuindo até que o ultimo seja o mais leve, isso mata o demônio-mudo e garante a simplicidade de espírito. Outra dica é se apegar à oração, penitencia e mortificação para resistir a qualquer investida diabólica.

Feito um profundo ato de desprendimento dos pecados e pedindo perdão ao Pai que nos espera de braços abertos, estamos livres das pequenas faltas (pequenas pois, pecados mortais exigem confissão sacramental) e prontos para louvá-lo com um cântico novo. E juntos com os anjos e santos nós bendizemos e glorificamos a Deus.

Na liturgia da palavra, Deus nos fala abertamente por meio das Escrituras, o momento central é a proclamação do Evangelho, onde o próprio Cristo nos ensina. Se o coração for reto, desse momento saem bons propósitos de ementa. O sermão/homilia do sacerdote deve nos ajudar nisso.

Antes de apresentarmos nossos pedidos e agradecimentos a Deus professamos a nossa fé. Cada cristão deve provar sua dignidade para receber a herança que será dada aos filhos da promessa. Para prová-lo, cada um deve apresentar o símbolo. Na antiguidade, as pessoas provavam estar dentro do acordo apresentando as metades de um medalhão (symbolon), encaixando-as, viam-se como iguais. Ao recitar o Credo, cada fiel prova compartilhar da mesma fé que os demais, independente se ele é rei, sacerdote, servo, pobre, rico, ignorante ou sábio. Antigamente, os acólitos costumavam “expulsar” os não cristãos nesse momento, pois a pregação era para todos, mas o sacrifício só aos que se converteram. O símbolo era forma de provar seu catolicismo. Bom, provada a sua fé, dirigimo-nos ao Pai.

As preces, juntamente com o ofertório consistem um momento importantíssimo de entrega a Deus. Pois neste momento, colocamo-nos na condição de miseráveis pedintes, e sabemos bem como o Pai trata os miseráveis. Já no ofertório, entregamos tudo que temos e somos, toda luta e fadiga, toda vitória e derrota, toda alegria e tristeza, todo amigo e inimigo. Tudo é colocado aos pés do altar por amor de Deus. Se essa entrega vier acompanhada de uma doação material espontânea, para ajudar na manutenção da igreja, melhor ainda.

Quando o Senhor recebe, pelas mãos do padre, tudo que foi ofertado, começa-se a oração eucarística, momento crítico da celebração. Digo “crítico” pois aqui toda a Igreja está presente a fim de testemunhar esse acontecimento único e definitivo. Não cantamos o “sanctus” sozinhos, mas com todos os anjos e santos que se fazem presentes. Imagine as escadarias do presbitérios coberta de anjos ajoelhados, louvando ao Deus que se faz alimento para os homens, e com certeza não estará longe da realidade.

Com a epíclese, ou seja, o envio do Espírito Santo, a paixão, morte e ressurreição de Jesus é atualizada. Digo atualizada, não no sentido que os computadores e celulares acabaram dando, que é o de trocar por um mais novo, mas no sentido de que é trazida para atualidade. Imagine que a missa é uma grande máquina do tempo, seja uma TARDIS ou um Delorean, com a qual você sempre retorna àquele inesquecível fim de semana de dois mil anos atrás. Ou melhor, é aquele momento único no espaço-tempo que vem até você sempre que você for a Missa.

Nesse momento único, seria interessante colocarmo-nos de joelhos. Ora, os céus se abrem, o tempo se contorce, Deus se faz presente e você não tem a decência de se ajoelhar? Oras, que se dane toda sujeira do chão ou dores do joelho. Cristo não se importa com as dores da cruz e a sujeira da humanidade.

Aproveite a oração eucarística para rezar as almas para rezar pelos seus amigos e familiares (momento vivere) pois como disse, toda a Igreja está unida ali. Mas não deixe de rezar pelas benditas almas do purgatório que, embora já tenham a certeza do céu, precisam de nossa ajuda (momento mori).

A oração eucarística conclui-se com a presença da Santíssima Trindade. E nós, diante do Pai que nos salva por Cristo, de Jesus que nos redime consigo e do Espírito Santo que nos salva e molda em Deus. O momento do “Per Christum” é o momento de vermos Deus face a face e conquistarmos inúmeras graças. Simplesmente peça o que o seu coração mais deseja.

Na oração do Pai-Nosso, percebemos que todos somos irmãos. Se, como o filho pródigo, formos a Deus como miseráveis (como fomos nas preces e no ofertório), Ele vem ao nosso encontro (consagração) como o Pai amoroso e nos faz filhos que podemos chamá-lo de Pai… Pai-Nosso, pois somos irmãos.

Enquanto nos distraímos em nossa irmandade, também o sacerdote a vive, pois é momento da comunhão (comunio, comer com). Ele parte o pão e se separa uma fatia para o bispo, pois é com o bispo que comemos, é com o bispo que se dá a comunhão, todos estamos unidos porque estamos ligados a esse sucessor dos apóstolos, ele é nossa união. Em comunhão com o bispo, entramos em comunhão com o Papa e com a Igreja. Estamos a mesa com esse anfitrião que nos permite participar do banquete eucarístico. Rezemos pelo nosso bispo!

Eu dizia que o sacerdote separa uma fatia para o bispo, pois de fato ele o fazia. E um encarregado ficava de levar aquela hóstia ao epíscopo. Mas como algumas igrejas são distantes e o caminho perigoso, passou-se a colocar esse pequeno pedaço dentro do cálice, banhado no vinho. Nesse gesto, somos convivas dos apóstolos de Jesus.

É chegado o momento da comunhão e, se estivermos verdadeiramente preparados, podemos participar desse banquete. Repare: a missa é sacrifício e banquete, luto e festa. Devo tomar a devida referência, sem palminhas ou dancinhas, mas também não devo cair no pietismo. É festa! Alegrai-Vos!

Comungando do Corpo do Senhor, estamos unidos um ao outro e somos um. Naquele momento, nada mais importa, você poderá retornar ao seu lugar e desfrutar desse momento íntimo com Deus. Conte-Lhe tudo, ainda que Ele já o saiba. Amigos conversam, contam tudo um para o outro. Não deixe de ouvir o que Ele tem para dizer. Santo Tomás de Aquino, Santa Teresa de Jesus, São Pedro Julião Eymard e outros santos disseram que uma única comunhão é o suficiente para unir-se completamente a Deus e ser santo. Se passadas tantas comunhões ainda não somos, é porque não estamos comungando direito.

Não deixe a música, nem as pessoas, nem nada te atrapalhar, reze intensamente e profundamente. Encerrando a missa, o sacerdote nos envia para espalharmos essa luz que recebemos para mundo. É uma religião, não um chapéu. Você não pode tirar seu catolicismo como se fosse um acessório e viver normalmente sem ele até que seja conveniente voltar a usá-lo. A missa tem que mudar sua vida a aponto de que todos que te encontrem no decorrer da semana possa comentar. “Esse viu Deus face a face!” (Cf. Caminho, 02).

Acabou a missa. O corpo litúrgico se retirou. Já podemos sair. Mas não saia antes disso. Lembre-se de que judas também saiu antes da missa terminar. Que o padre não tenha que gritar “Ide em paz, e que o Senhor vos alcance”. Entretanto, se você ficar até o fim, arrisco-me a cobrar: e porque não ficar um pouco mais?

Todos somos bem vindos à Casa do Pai. Fique o tempo que quiser. Jesus continuará unido a você enquanto desejar. Faça uma frutuosa ação de graças, mas, se não quiser, não fique tagarelando na Igreja, “minha casa é casa de oração”. (Cf. Jo 2, 13-16).

Assim, eu responderia o que é a Santa Missa para alguém que me perguntasse do que se trata o ritual central da vida cristã. Entretanto, se ele ou ela achasse uma resposta por demasiada complicada, eu (embora acredite ter sido muito simples e sucinta diante da complexidade do que é a Santa Missa) diria então apenas que se trata de um milagre. Vou à Igreja para ver um milagre e pedir para que esse milagre dê frutos em minha vida.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.