Santa Carona

Dona Flora: um ensaio sobre a velhice

Quem vai a um dos asilos da pacata cidade de Corumbá de Goiás, encontra no primeiro leito da casa uma senhorinha de pele alva e escassos cabelos na cabeça que atende por Flora. Ela provavelmente estará sentada contemplando o vazio, como um filósofo medieval, e sua cabecinha estará repassando alguma fórmula que aprendeu ao longo da vida e que a fez ser tão sábia.

Se você, como eu, passar no asilo com a intenção de dar atenção a todos os velhinhos, com certeza irá parar naquele primeiro leito e ficará o resto do tempo exatamente ali, enquanto Dona Flora, com seus trejeitos de princesa ou embaixatriz dá uma aula de conhecimento geral. Não sei se os demais internos se sentem enciumados ou já se acostumaram, mas um deles vai te dar uma cadeira para se sentar e outro dirá que ela é uma tagarela.

Dona Flora jura que nunca foi à escola e que jamais recebeu qualquer tipo de formação ao longo da vida. Tudo que sabe foi fruto de um ávido desejo de conhecer e de pilhas e pilhas de livros lidos.

Foram longas horas de conversa. Passei tanto tempo ali que meu nariz deixou de se sentir incomodado com aquele antigo cheiro de casa de avó. Entre as longas horas de conversa, Dona Flora contou-me toda sua vida e demonstrou todo seu saber.

Quando me aproximei do seu leito, ela já estava dando uma aula sobre a Inconfidência Mineira e de toda importância política e literária desse acontecimento. Juntei-me rapidamente entre os matriculados e fiquei atento até que ela perdeu o fio da meada. A idade havia chegado e sua memória lhe traía constantemente. Ela juntou os dedos e os levou ao queixo enquanto dizia que rapidamente ia se lembrar, pois tudo aquilo estava armazenado no seu subconsciente. Então começou a explicar uma teoria freudiana para justificar o fato de que, mesmo se esquecendo, ela possuía aquele conhecimento em algum lugar.

Então começou a falar de Castro Alves, como se não estivesse falando de outra coisa anteriormente. Até que um amigo, também professor de português, decidiu testar aquela velhinha. Perguntou quem era Castro Alves, ao que ela respondeu “o poeta dos negros, autor de Navio Negreiro… achei interessante você perguntar, porque um tempo atrás eu estive na casa dele…”. Com essa carteirada, Dona Flora quebrou qualquer preconceito de que era uma velhinha gagá que não sabia o que estava dizendo. Logo, logo ela voltou a falar dos mineiros inconfidentes. Como uma mágica ilusionista, distraiu nossa atenção enquanto revirava seu subconsciente atrás da informação procurava. Castro Alves era apenas uma forma de manter os holofotes sobre si até que o espetáculo da Inconfidência recomeçasse.

Dona Flora sabia bastante sobre literatura e para professores de língua portuguesa, como eu e meu amigo, que citei anteriormente, aquilo era um show único. E entre o assunto de poesia, novo tópico da conversa, ela começou a falar sobre uma tal de Dona Cora, grande amiga sua. Até que ela decidiu recitar alguns poemas dessa sua grande amiga, e, para nosso espanto, vimos que sua amiga era ninguém menos que a própria Cora Coralina.

Há um quê poético até mesmo na hora de combinar o nome dessas duas sábias anciãs: Flora e Cora, esses dois nomes não rimam atoa, são nomes repletos de cores que representam senhorinhas cheias de cores ainda mais belas e que seus nomes tentaram exprimir parvamente. Flora e Cora são poetizas, uma esquecida na vida e outra resguardada na morte.

Entretanto, nossa querida Flora fez questão de se impor e mostrou não concordar com alguns poemas de sua amiga, por não refletirem perfeitamente (ao seu ver) a bravura da história de Goiás. Se houve bravura ou não, Dona Flora responde com seu próprio poema, nunca publicado, mas decorado em sua cabecinha senil. Um poema que cairá no esquecimento quando ela der seu último suspiro.

Fora as discussões poéticas, as poetizas pareciam ter uma boa amizade, pois Dona Flora deseja fazer uma última viagem antes de partir dessa vida. Ir até o cemitério da velha Cidade de Goiás e deixar um ramo de trigo na sepultura de sua colega. Não sei se ela conseguirá realizar seu desejo, nem o que esse presente quer dizer. Talvez alguma leitura de um de seus poemas, ou alguma piada interna entre as duas amigas.

Quando ela falou sobre seu desejo de voltar à Cidade de Goiás, seus olhinhos brilharam como quem via um filme, e ela fez questão de narrar esse filme, descrevendo cada rua e contando a história de cada prédio. Na velha igreja, Flora se lembra de assistir Missas em latim, ainda no rito tridentino. Aliás, ela fez questão de comentar sobre as mudanças trazidas pelo Concílio Vaticano II à liturgia, e até gastou seu latim comigo rezando juntos o Credo.

Ela me contou que tinha o hábito de ir sempre à Missa e, curiosa como só ela, se esforçou para aprender o latim e as orações cristãs. Adorava o canto gregoriano como quem desfruta algo monumental e belo, pois é isso que esse gênero musical é, e ainda que não sejam católicos, todos são obrigados a reconhecer.

Ainda falando sobre religião, Dona Flora também mostrou suas revoltas, discutindo o que achava sobre a Igreja. Para ela, Cristo não é um messias ou um deus, mas um líder político, e explicou citando o primeiro capítulo do Evangelho segundo São Mateus. Ora, Cristo é da descendência de Davi, portanto um rei como seu antepassado. Um rei de um povo e não um deus de outro povo, que nada tinha a ver com a história. O argumento é fraco, mas deixei ela continuar sua exposição até que ela entrou nas polêmicas de bioética. Ela disse que achava uma pena a proibição da eutanásia, pois (apontando para um velho já insano pela idade) aquilo não era vida.

Para ela, vida era ter racionalidade e não simplesmente viver. Talvez era por isso que ela se apegava tanto ao seu saber, para ter certeza de que estava viva. Quando via seus companheiros internos perderem a noção da realidade temia que o mesmo acontecesse, porque via isso como um esvaziamento de tudo que ela era. Flora acredita ser sua inteligência, e só isso. E esse pensamento a faz se apegar por completo à sua razão. E se algum dia, por ventura, sua razão passasse, preferiria ela morrer.

Quando jovem, Flora deveria ser uma mulher cheia de encantos. Pois dizia ter namorado alguns senadores da antiga capital, que ela conhece como a palma da mão. Com certeza era bonita e vaidosa, e isso juntado a sua inteligência e disposição a aprender devem tê-la feito ter o mundo aos seus pés. E de fato o tinha, andou por todo Brasil e aprendeu italiano, inglês e árabe. Ela até provou, cantando algumas músicas em italiano, conjugando alguns verbos na língua de Maomé e submetendo-se a um teste de vocabulário e conversação em inglês que eu mesmo apliquei.

Acontece que a juventude passa e a morte vem com a velhice, e é necessário abraça-la como bons e velhos amigos (tal como o irmão caçula que recebeu a última relíquia da Morte no conto de J. K. Rownling). Porém, Flora é teimosa e quer continuar viva, aprendendo e viajando. Quer ir à Cidade de Goiás, quer reler a Bíblia, quer voltar a andar.

Esse último desejo é curioso. Fez questão de mostrar que, sem a ajuda e estímulo dos médicos, consegue levantar, caminhar sem o andador e sentar-se em outro lugar. Segundo os outros internos, ela faz esse exercício todos os dias. Caminha poucas distâncias e com dificuldade. Um amigo, ao ver que ela progredia o exercício comentou “Se Deus quiser, a senhora volta a andar”. Ao que Flora respondeu determinada “Mesmo que Ele não queira”. Alguns acham blasfemo, eu vejo uma profunda convicção de continuar viva.

Dona Flora confidenciou-me que não tem dinheiro, os administradores do asilo recebem sua aposentadoria e compram as coisas de que ela precisa. É um método padrão com todos os internos, mas ela vê como um complô contra sua liberdade. Ela quer ter dinheiro, nem que seja apenas para se afirmar. Ela quer sair, voltar a namorar senadores em Cadillac pelas avenidas beira-mar do Rio de Janeiro. Mas o tempo passou, e daquela época não há mais nada. A própria capital foi-se embora para Goiás, e agora está velha e cansada tal como Flora naquele asilo.

Flora também confidenciou-me ter tido um prazer na velhice. Um médico, espantado com sua sabedoria, levou-a a um congresso, onde ela pode se exibir na frente de ministros e outros engravatados. Ela contou com os olhos brilhando como foi bom ter todos aqueles homens elegantes a aplaudindo e beijando sua mão, como se emocionou ao receber flores e ter uma plateia. Foi exatamente nesse momento que minha admiração e espanto por tamanha capacidade intelectual passou para a pena e compaixão que me motivou a escrever esse relato. Flora foi em busca de conhecimento, prazer e vaidades, mas se esqueceu do que lera no primeiro capítulo de Eclesiastes, e se perdeu em autoafirmações vazias.

Ao olhar para Flora, vi uma remota projeção do meu eu no futuro, e estremeci. De que me adianta tantos livros, tantas emoções, tantas vaidades acadêmicas? Para quê? Apenas uma coisa é necessária em minha vida, entregar-me como criança aos braços de meu Pai Celeste, o resto é trivial e/ou acidental. Assim, se algum dia caírem sobre mim males tão horríveis como os que caíram sobre Jó, eu poderei manter minha paz e, se vier a morte, espremido como uma laranja, poderei enfim repousar. Espero que Dona Flora compreenda isso antes do tempo se acabar. Saudei-a com um beijo na mão, tal como seus cavalheiros engravatados e prometi rezar por ela. Ela, por sua vez, corrigiu um pequeno gesto do giro da mão que fiz errado e prometeu ainda voltar a viajar pelo país. Que ela o faça em Jerusalém, nossa pátria!

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.