Santa Carona

A Profunda Teologia de Valesca Popozuda

Embora já tenha sido amenizada a discussão acerca da intelectualidade da pensadora contemporânea Valesca Popozuda, gostaria de voltar a louvá-la novamente. Dessa vez, como uma grande teóloga que muito conhece da Sagrada Escritura. Para isso, vou tentar fazer uma exegese de sua riquíssima e mais célebre composição, a música “Beijinho no Ombro”. Sua produção mais cara, e mais bem elaborada, afim de deixar em evidência a dignidade de tal canção, está carregada de grande influência bíblica. A música inicia com os seguintes versos:

Desejo a todas inimigas vida longa
Pra que elas vejam cada dia mais nossa vitória

Desejando uma longa vida a suas inimigas (Cf. Mateus 5, 44), o eu-lírico faz referência ao Salmo 85 (86). “O inimigo humilhado verá que me destes ajuda e consolo” (Sl 85, 17b). Desejando assim que Deus seja glorificado pelos seus inimigos (suas inimigas) ao verem eles (elas) como o Senhor opera maravilhas na vida daqueles que o temem e seguem suas leis. O desejo do eu-lírico é até de grande nobreza: deseja uma vida longa às inimigas para que essas glorifiquem a Deus por meio dele.

Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba
Aqui dois papos não se cria e não faz história

Se antes o eu-lírico desejava que as inimigas apenas vissem sua glória, agora os ameaça caso desejam enfrentá-lo. Ele não teme o embate dos inimigos, pois sabe que sua força está no Senhor. “Bendito seja o Senhor, meu rochedo, que treina minhas mãos para a batalha e meus dedos para a guerra”. (Salmo 144, 1). Caso o inimigo realmente se atreva a bater de frente, saberá ele que Deus “quebrou o arco, o escudo, a espada e as armas de guerra”. (Salmo 76, 4).

Acredito em Deus faço ele de escudo

Nesse trecho, Deus é invocado como escudo. São muitíssimas as passagens que fazem tal comparação. “Ele [Deus] é guarda para os retos a sensatez, é escudo para os que andam na integridade”. (Provérbios 2, 7); “O Senhor é minha força e meu escudo, é nele que meu coração confia”. (Salmo 28, 7). Além de muitas outras passagens (Deuteronômio 33, 29; II Samuel 22, 3; 22, 31; Salmos 3, 3; 5, 12; 18, 2; 18, 30; 33, 20; 59, 11; 84, 9; 91, 4; 115, 9-11; 119, 114; 144, 2; Provérbios 30, 5).

Como o defensor dos que nele creem, Deus também protege o eu-lírico de todos inimigos (ou todas as inimigas). É esse trecho o principal argumento pelo qual se dá a interpretação exegética da canção, pois é nesse verso o único momento em que o eu-lírico dá o porquê de não ter medo de suas inimigas.

Late mais alto que daqui eu não te escuto
Do camarote quase não dá pra te ver
Tá rachando a cara, tá querendo aparecer

Aqui, o eu-lírico se encontra em um camarote, do qual ele mal pode ver o(a) rival. Esse(a) precisa se fazer ouvida com mais altivez, pois a distância que os separa é grande. Cabe ao(à) rival a humilhação, “rachar a cara”. Pois o Senhor “depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou”. (Lucas 1, 52).

Não sou covarde, já tô pronta pro combate
Keep Calm e deixa de recalque

Mais uma vez, o eu-lírico demonstra a sua coragem e bravura por confiar no Senhor, sua força. Ele não foge à luta, mas, antes disso, já está preparado caso essa irromper. Pois como no livro do Apocalipse, vemos que os inimigos não podem contra o Cordeiro. “Estes combaterão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, porque é o Senhor dos senhores e Rei dos reis; vencerão os que estão com ele, chamados, e eleitos, e fiéis”. (Apocalipse, 17, 14). Entretanto, o eu-lírico não deseja guerra, embora esteja pronto para o combate, mas antes deseja que os (as) inimigos (as) se acalmem e deixem de sentir inveja.

O meu sensor de periguete explodiu
Pega sua Inveja e vai pra…

A última estrofe da música termina demonstrando o quanto o eu-lírico já se encontra farto de seu (sua) inimigo(a), e prefere que esse parta com sua maldade e seus pecados para… longe. Pois “eis que os ímpios perecerão, os inimigos do Senhor murcharão como a beleza dos prados, se desfarão em fumaça”. (Salmo 37, 20).

Beijinho no ombro pro recalque passar longe
Beijinho no ombro só pras invejosas de plantão
Beijinho no ombro só quem fecha com o bonde
Beijinho no ombro só quem tem disposição

O refrão da música contém a síntese do pensamento de ostentação que permeia a cultura do funk nos últimos anos. Onde o eu-lírico dá um “beijinho no ombro”, expressão essa que configura uma humilhação do inimigo pisoteado. A canção também exalta os amigos (as amigas) que “fecha com o bonde” e que “tem disposição”. A canção então se configura como uma ode a confiança em Deus, a derrota dos inimigos, e a aliança com os amigos (as amigas). Também na Sagrada Escritura podemos nos deparar com o pensamento do funk ostentação, ainda que não seja evocada a expressão contemporânea de “beijinho no ombro”.

“Não te alegres por minha causa, minha inimiga: se caí, levantar-me-ei; se habito nas trevas, o Senhor é minha luz. Devo carregar a ira do Senhor, porque pequei contra Ele, até que Ele julgue a minha causa e restabeleça o meu direito; Ele me fará sair à luz, e eu contemplarei a sua justiça. Minha inimiga verá, e a vergonha a cobrirá, a ela que dizia: ‘Onde está o Senhor teu Deus?’ Meus olhos a verão, quando for pisoteada como a lama das ruas”. (Miquéias 7, 8-10).

Aqui vemos novamente a confiança no Senhor que vai exaltar o autor, enquanto sua inimiga será pisoteada, porque praguejou (latiu?) contra ele, uma forma mais arcaica de dizer que vão sambar na cara dela.

Por meio dessa canção riquíssima, Valesca Popozuda traz toda a sua capacidade teológica e deixa todos os recalcados, que criticaram o seu reconhecimento entre os principais pensadores contemporâneos, de queixo caído com o seu vasto conhecimento da salmodia.

Também os preconceituosos que desprestigiam o funk são convidados a olhar novamente a sabedoria que essa manifestação cultural tem a nos oferecer.

Valesca Popozuda, com essa canção, propõe um novo olhar para o funk ostentação, onde a esperança dos oprimidos será saciada com as glórias do Senhor que banirá aqueles que lhe desejam o mal. Pois essa é a verdadeira ostentação, uma ostentação cristã. Bem como só é possível contemplar na Igreja Católica, onde se ostenta Jesus Eucarístico, nosso Deus, no ostensório. Ele é o nosso escudo que nos permitiu “sambar” por sobre todos os inimigos da Igreja ao longo destes dois mil anos. E a estes inimigos, dirigimos nosso “beijinho no ombro”.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. É seminarista da Diocese de Anápolis. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.