Santa Carona

Não jogue xadrez com pombos

 

Veja bem, não perca seu precioso tempo discutindo o resultado dos processos políticos atuais com apoiadores do governo (nem mesmo com os insentões). Não adianta, eles não querem saber da verdade. Nem mesmo se o Molusco se acusasse e se entregasse eles não acreditariam e forjariam uma situação na qual acabaria por colocá-lo como algum mártir que se entrega pelo bem da luta.

O que é feito por eles é negar, negar e negar. Usar uns sofismas que passam longe da lógica e ainda os combinam com pura paralaxe cognitiva. Utilizam ainda provocações gratuitas, que por estarem defendidos pela distância da internet, não poderão ser responsabilizados. No campo da guerra política, eles estão procurando visibilidade a todo o custo. Isso para tentar, cada vez mais, mostrar para todos a sua “visão dos fatos” e tentar convencer a maior quantidade de pessoas possíveis que há um “golpe” e que o país será transformado para pior caso o governo caia. Cabe até uma pergunta: como ficar pior do que já está?

A diferença entre os papagaios do golpe e pessoas normais é a compreensão da situação que vivem. Pessoas comuns, aquelas que trabalham diariamente, que precisam ir ao mercado com dinheiro contado, os que pagam os impostos e que não tem possibilidade de fazer arranjos com o Estado, estão sentindo na pele o desgoverno. A situação parece um túnel do tempo. Inflação, moeda fraca, governo sendo pressionado e até o impeachment aberto. E há quem diga que está tudo bem. Ou seja, um governo que se elegeu com base em mentiras homéricas durante uma campanha baixa, dizendo que tudo que aconteceu em seu governo era o que aconteceria caso o adversário vencesse. Não venceu. E as desgraças anunciadas para o outro são do atual governo. A incapacidade é o que reina hoje.

Mas diga, por que, mesmo sobre tais situações, ainda há defensores tão fieis quanto uma seita religiosa que estão dispostos a grandes absurdos em defesa desse tipo de ação? Isso já foi comentado anteriormente, quando exposto sobre o laço que essa situação possui e a gnose e a formação de um construto ideológico impenetrável que está pronto para sempre repetir ad infinitum o “é golpe! democracia! a luta! o social!” e todos os outros espantalhos que se criam para justificar o injustificável.

O mais incrível dessa história é que eles conseguem criar uma situação em que conseguem atenção. As suas falas são um enquadramento ideológico que conseguem ter uma simplicidade atingível a todos. A forma como eles lidam com as informações é a mais direcionada possível para o sentimentalismo, para o convencimento sofista (longe da complexidade da realidade) e até mesmo para as situações mais infantis possível. E, com essas ações, acabam conseguindo a visibilidade. E é nessas que, com discursos de divisão dentro das categorias mais sensíveis como ricos x pobres, mulheres x homens, homossexuais x não homossexuais, colocam um lado sob a bandeira do partido, bandeira essa que assume toda a causa progressista e a mantêm financeiramente.

Na tentativa de manter uma discussão com pertencentes ao grupo do golpe, sejam isentões ou militantes (aprendemos que, seja em votação ou em ações, a isenção é voto para o partido do governo), sempre vamos deparar com táticas de tomada de espaços para enfraquecer o adversário. Como eles fazem isso? Bom, as opções mais comuns são: argumentos baseados no sentimento; argumentos de autoridade; ad hominem; espantalhos; falso escocês; premissas erradas que conseguem pelo erro inicial chegar a uma conclusão lógica errada, etc. Poderíamos aqui lembrar dos estratagemas da dialética erística de Schopenhauer, ou mesmo detalhar os elementos da Guerra Política que foi exposto por David Horowitz, mas seria demasiado longo.

Deixarei apenas algumas observações sobre como são elementos importantes para pensar o combate político e virtual que se vê atualmente.

Por Schopenhauer podemos lembrar o seguinte estratagema:

Homonímia sutil

A homonímia é usada para estender a afirmação apresentada também àquilo que, fora a identidade de nome, pouco ou nada tem em comum com a coisa de que se fala, além da identidade do nome; para depois refutar veementemente esta última afirmação, e assim trata: depois refutar com ênfase esta afirmação e dar a impressão de ter refutado a primeira.

Uma nota de rodapé que o Olavo de Carvalho adiciona para melhor absorção do conceito diz o seguinte:

Nas polêmicas da imprensa cultural brasileira, observa-se frequentemente este estratagema. Usado às vezes menos por esperteza do que por legítima incapacidade de apreender o sentido figurado.

Em Horowitz o que nos ajuda a entender a guerra política é:

Política é guerra conduzida por outros meios

Na guerra política você não luta somente para fazer seu argumento prevalecer, mas para destruir a habilidade de combate de seu inimigo. Os Republicanos geralmente tratam os combates políticos como se estivessem indo debater na União Política de Oxford, como se a vitória dependesse de argumentos racionais e princípios cuidadosamente articulados no decorrer do discurso. Mas a audiência da política não é feita de fidalgos de Oxford, e as regras são completamente diferentes.

Posição é definida por medo e esperança

As emoções gêmeas da política são medo e esperança. Aqueles que fornecem esperança ao povo tornam-se seus amigos; aqueles que inspiram medo se tornam inimigos. Dos dois, esperança é a melhor escolha. Ao oferecer ao povo esperança e a si próprio como o fornecedor desta esperança, você mostra o seu melhor lado e maximiza seu potencial apoio.

Mas o medo é uma ferramenta poderosa e indispensável. Se o seu oponente o define de forma negativa o suficiente, ele irá diminuir sua habilidade de oferecer esperança. Este é o motivo pelo qual os Democratas são tão determinados em pintar os Republicanos como elitistas e hostis às minorias, à classe média e aos pobres.

Conseguimos ver como o uso das palavras é uma armar usada com frequência. Um vocabulário que não tem firmeza, onde as palavras não têm valor em si, é uma Torre de Babel na qual ninguém se comunica. É impossível chegar a um acordo, mas para a militância é isso que importa, como eles querem vencer inescrupulosamente uma discussão, o que eles acham que falaram, manipulando as palavras e tentando incapacitar a organização da argumentação dos interlocutores. As expressões utilizadas no debate público são na sua grande maioria criadas, ou então interpretadas, segundo o que eles querem que elas digam. E para uma boa compreensão do que falo veja o quanto são vazios os termos. Podem dizer tudo, mas tudo o que eles querem que diga, sendo uma manipulação que visa reinar na consciência das pessoas, de maneira a afastá-las do que eles realmente defendem que é a manutenção da elite deles no poder. Impera uma dificuldade muito grande em manter um diálogo, de forma que, toda vez que falamos com eles, ao ser colocado em jogo o termo “social”, não temos a menor noção do que eles querem dizer com isso, e se pedimos explicações, somos lançados a uma miríade de conceitos sem a menor noção. É uma guerra de narrativas.

Como vimos o que há de mais implícito nas discussões levantadas pelos papagaios do golpe, então tomo o título do texto como continuação da peça. Não jogue xadrez com pombos. O resultado sempre é um tabuleiro em extrema bagunça e, em muitos casos, com sujeira que passa até para você. As discussões por internet sempre são levadas para um campo da emotividade. Chegar a essa conclusão é difícil, porque você tem que tentar muito para depois ver que as pessoas não conseguem ter a mínima coerência, o resultado de tanto pensamento pós-moderno sendo jorrado a todos os lados. E como um bom pombo não consegue perceber as inumeráveis nuances do ser humano, que ele não é monolítico como se pensa, que ele não é um objeto de sua classe por excelência, mas que tem suas motivações pessoais e entre elas ele é um sujeito complexo, algo que uma leitura atenta de Dostoiévski resolveria. Assim sempre será uma argumentação que falará de golpe para dividir, de luta para levantar militâncias, de conflitos para fomentar grupos antagônicos. A situação econômica do país, as mentiras abjetas que foram criadas para manter o governo, o leilão de cargos e ministérios em busca de apoio, a incapacidade da presidente em administrar o país e o medo que fez uma pessoa correr para um ministério recém-criado apenas para protege-lo nunca é concebido como afronta a nada. E mais uma vez a gnose, a formação ideológica, vence.

Mas então não devemos nos levantar contra eles? Veja, entre as provocações vazias que são sua principal arma, o que mais vale é o riso. Se eles estão abrindo a boca para provocações vazias, trate-os de forma tão vazia quanto. Rir das provocações, deixar sem alimento as suas provocações é uma boa resposta. Mas proponho algo ainda melhor. Caso o provocador seja seu conhecido, more próximo, ou até mesmo, seja uma pessoa com quem você converse e veja com certa frequência, chamá-lo para uma conversa ao vivo é o melhor. Porque de frente você consegue derrubar os sofismas antes que eles façam efeito. De frente ele não tem tempo para elaborar nenhuma mentira, ou sair e consultar o blog do Sakamoto, ver o que o Wyllys postou em suas redes sociais, ou mesmo se comunicar com aquele coleguinha de alguma faculdade de humanas para poder aprender, com outras palavras mais difíceis e não menos vazias, outra forma de falar que é gole. Ou seja, se você está um mínimo informado sobre as questões levantadas, então frente a frente a conversa muda. E olha que com alguns militantes/isentões se você tiver uma boa paciência, assim como Jó, poderá até sair uma boa conversa. Milagres acontecem.

Finalizando, sei o quanto o campo da política é um terreno chato. A grande maioria das pessoas se isenta desse meio por pura apatia e não suportam ouvir falar do assunto. Outras já mergulham de cabeça no assunto. Eu prefiro ficar entocado no quarto aproveitando dos livros, quadrinhos, filmes/séries, café e até mesmo um exemplar de cerveja artesanal. Mas como a vida não é o que queremos, há momentos que se torna necessário entrar no campo da política. E nesse caso a minha preferência é a conversa frente a frente, porque ultimamente não está tendo forma de deixar os assuntos políticos passarem em branco, da mesma forma que está insuportável passear nas redes sociais. Então, se quiser conversar, conheço uma ótima choperia.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.