Santa Carona

O hedonismo juvenil

Viver é se posicionar entre picos de felicidade em meio a um mar de catástrofes. Buscar pelo prazer, pela alegria e pela satisfação é o que movimenta o indivíduo. Desde a mais tenra idade é essa busca pela felicidade que faz as coisas andarem. E obviamente, saber que você não será feliz eternamente é a maneira de melhor compreender o espetáculo trágico da existência.

Há pessoas que tentam das mais diversas maneiras manter seu status de felicidade por tempos incontáveis. Pensar uma vida perpetuamente feliz é um tédio para a alma, que leva um indivíduo aos vários questionamentos sobre essa felicidade, se ela é realmente isso. Certamente essa postura de gozo eterno gera consequências na mesma proporção do esforço empreendido. Jovens são os que melhor se entregam ao hedonismo, e há nas artes meios de observar esse comportamento e quais suas consequências. O cinema é uma dessas formas de observação.

The Bling Ring e Spring Breakers são filmes de 2013, dirigidos por Sofia Coppola e por Harmony Korine, respectivamente, e podem ilustrar as proposições acima.

Vejamos. No primeiro caso, em os personagens são jovens de classe média alta, com família relativamente estruturada e, obviamente, problemas relativos à condição de adolescente. Um, Marc, é homossexual em uma casa na qual da pouco espaço para os pais; outra, Rebecca, patricinha filha de pais separados com mil e um privilégios; outras duas, Nick irmã adotiva de Sam, são criadas por uma mãe politicamente correta que acredita piamente na pseudofilosofia do livro O Segredo; ainda, Chloe, mais “vida louca” da turma. A relação familiar mostra que há espaços vazios não preenchidos na vida dos personagens. A necessidade de pertencerem a um grupo, de fazer parte de algo novo impulsiona esses jovens ao delito: eles passam a invadir casas de celebridades e realizarem furtos. Eles roubam o que de melhor há no guarda-roupas, joias, e reservas de dinheiro que eles deixam em casa. Passam a ostentar o dinheiro e as grifes que encontram na casa de Paris Hilton, Lindsay Lohan, Megan Fox e outros.

Além da ostentação das marcas, há também a venda de produtos e uso desregrado do dinheiro em baladas. Estas regadas a drogas (maconha e cocaína principalmente) e álcool do melhor que o dinheiro pode comprar. Um envolvimento com um intermediário de furtos também inicia-se, pois não é fácil vender uma caixa de relógios Rolex na esquina pelo preço que eles merecem. E nesse contexto o final é previsível: são pegos, condenados a penas diversas. Mas o que intriga no fim da carreira de invasões e furtos é como uma das garotas, Nick, utiliza do episódio. Ela abre um site para contar sua versão da história, baseando seu discurso em questões espiritualistas pós-modernas retiradas d’O Segredo.

O que eles fazem faz lembrar a fala do filósofo Olavo de Carvalho ao pensar o Imbecil Juvenil em um de seus artigos publicados no livro O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Eis uma parte:

me impressionaram muito fundo, na conduta de meus companheiros de geração, o espírito de rebanho, o temor do isolamento, a subserviência à voz corrente, a ânsia de sentir-se iguais e aceitos pela maioria cínica e autoritária, a disposição de tudo ceder, de tudo prostituir em troca de uma vaguinha de neófito no grupo dos sujeitos bacanas.

Ora, essas necessidades que o adolescente possui podem levá-lo a caminhos que fogem muito do simples fato das descobertas, ampliando e transformando as possibilidades de autoafirmação em autodestruição.

Já em Spring Breakers a situação inicia-se como uma simples viagem de férias de verão para a praia no qual um grupo de amigas, Faith, Candy, Brit, e Cotty que já não suportavam mais os dias na faculdade. Mas a pressão pela viagem de quebra de rotina inicia-se errado: para conseguir dinheiro elas roubam uma lanchonete. Ao ver o quanto de dinheiro isso dá comemoram com drogas e vão para a viagem.

O local para onde elas vão é uma espécie de reduto de jovens, especializado em agrupara os que buscam descanso e farra durante as férias. Elas entraram em festas nas quais entorpecentes de todas as qualidades transitam livremente, nudez e sexo são visíveis para todos os lados. Obviamente que a família não sabe que o lugar é assim, provavelmente pensam ser uma excursão. Faith, a menina religiosa do grupo, que se via muito cansada do que aconteceu antes das férias já não quer mais voltar. Pensa em desistir de tudo e ficar naquela vida para sempre. Um pensamento que visa perpetuar o gozo, imortalizar a felicidade.

Elas não conseguem perceber que há responsabilidades na vida e que está nem sempre é sinônimo de felicidade. Essa perpétua postura que pede por uma intensa vida feliz é semelhante aos brados revolucionários que visam uma sociedade perfeita, na qual todos serão felizes para sempre. É um pensamento pueril, que não admite a multiplicidade de elementos do ser humano e trata a vida com olhos de crianças, mimadas, que não querer crescer. Bom, pelo menos durante um tempo elas pensarão (e viverão) assim.

Em uma das festas elas e uma outra quantidade de pessoas são presas. A cadeia traz um novo amigo. Um rapper traficante que paga a fiança das quatro e leva para seu mundo. Mais drogas e sexo, mas com uma pitada de violência de gangues e armas. Vendo o que pode acontecer e vivendo os perigos que esse mundo guarda, Faith e Brit abandonam o barco. As que ficam levam a vida de gangster até o último ato.

Em ambos os filmes encontramos características constantes na juventude que não consegue se abster de atitudes de aceitação e de exasperação dos momentos de escape. O hedonismo e a necessidade de experimentar de tudo é o novo brasão da juventude de classe média alta, que pouco se importando com as consequências, vivem o aqui e o agora como uma constante festa, um coito eterno e um orgasmo prolongado. Se esquecendo que esse gozo pode ser junto a uma prostituta que lhe deixará com várias sequelas, umas tratáveis e temporárias, mas outras serão companhia para o resto da vida.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.