Santa Carona

A santidade é pra mim?

No último domingo celebramos a solenidade de todos os santos. Em muitas paróquias do Brasil inteiro –e do mundo- ouviu-se que buscar a santidade é dever de todo cristão. Mas será que estou mesmo convencido de que ela é para mim? Ou tenho me contentado com uma vivência da fé baseada em obrigações, em cumprir o mínimo necessário para alcançar a salvação?

Aqui em minha diocese, naquele parágrafo introdutório que lemos antes da Santa Missa começar, estava escrito que a santidade não é fruto do esforço humano, ainda que este seja heroico. É puro dom de Deus, e cresce conforme a nossa correspondência. Quem já caminha há certo tempo, sabe muito bem disso: todo o bem que existe em nós vem de Deus. Por nós mesmos, somos incapazes do bem. Mas, dispondo de seus talentos, oferecendo os nossos esforços, podemos render cem por um, sessenta por um, trinta por um [cf. Mt 13, 8].

Às vezes, olhamos para os grandes santos, como São Pio de Pietrelcina, ou para os grandes místicos, como Santa Teresa D’Ávila, ou ainda para os grandes doutores, como Santo Agostinho, e a santidade parece tão distante, tão inacessível… Mas a verdade é que sim, Deus nos chamou a todos para o seu encontro, pensou em cada um antes da criação do mundo, e quis a cada um de nós.  E, apesar de termos exemplos a imitar, sendo o principal deles o próprio Jesus, o caminho que cada um deve trilhar é muito particular, é um caminho pessoal e único, assim como cada um tem a sua própria digital, ou seu próprio DNA. E mais, temos todos os meios disponíveis para cumprir a nossa missão, sendo que, se sabemos reconhecer humildemente, até nossas quedas podem nos aproximar do Senhor.

O livre arbítrio é, para mim, uma das maiores provas do amor de Deus, apesar de em certas ocasiões olharmos para Deus como um inquisitor, que quer encher a nossa vida de regras e limites. Ele poderia ter-nos criado como marionetes, ainda mais prevendo que escolheríamos uma vida sem Ele, uma vida ‘independente’. Mas é aí que está o sentido da coisa: Se vivemos para dar glória a Deus, e nós, anjos e homens, servimo-lo através da nossa liberdade, então não faz sentido que Ele não nos faça livres! Somente quem é livre é capaz de amar, e nisso consiste a santidade: no amor.

Michel Esparza, em seu livro, A autoestima do cristão, explica que “Liberdade é a capacidade de autodeterminação para o bem, não por uma obrigação imperiosa, mas por amor. A pessoa verdadeiramente livre não se guia por um obsessivo sentido do dever –entendido erradamente como uma espécie de coação auto imposta (preciso fazer isto, tenho de fazer aquilo), mas pela interiorização da virtude.”

Do contrário, se vemos a vida espiritual e a nossa relação com Deus como um jogo de placar, em que temos que alcançar certo número de pontos para passar ao próximo nível, ou como uma troca de favores, mesmo tendo esforços heroicos e por vezes sobre-humanos, ainda não seremos santos. “Todos os santos são heroicos, mas nem todos os heróis são santos.” Se pensamos que a nossa relação com Deus consiste no cumprimento de regras e mais regras, ainda não será genuína santidade. O teste para saber se há virtude é a alegria. As pessoas que vivem por obrigação longe de serem alegres, são aborrecidas e aborrecem os outros. O santo não, ele é alegre e contagiante.

Gosto muito de recordar exemplos como o da beata Chiara Luce. Ela era uma jovem como eu e como muitos outros caroneiros e caroneiras. Tinha sonhos para o futuro, gostava de nadar, esquiar. Tinha uma melhor amiga com quem compartilhava os seus dramas e alegrias, Chicca Coriasco, que diz: “Ela tinha um grande preparo humano. Gostava de vestir-se bem, de pentear-se com cuidado, e às vezes, de se maquiar, mas sempre de forma discreta”.[1] Ela até bombou no ensino médio (Acho esse comentário oportuno na semana após o Enem: a santidade também é pra você que se deu mal hehe)! Entretanto, apesar disso e de sua pouca idade, soube viver, no seu cotidiano, na sua vida concreta, o ideal cristão. Soube deixar-se amar por Cristo e o procurou, e correspondeu ao seu amor. Soube acolher a vontade de Deus em sua breve existência.

Há também outras histórias, como a de Montse Grases. Ela era uma jovem comum, que gostava de esportes, de percorrer trilhas, da música, das danças populares de sua terra e de atuar em obras teatrais. [2] Assim como Chiara, possuía uma personalidade forte, que conformando-se ao Senhor, não foi um empecilho, mas antes uma ajuda no seu caminho de perfeição. Foi diagnosticada com uma doença incurável, e soube sofrer com Cristo. Aproveitou a doença para crescer na amizade com Jesus e pedir pela Igreja, pelas pessoas próximas a si, e por tantas outras intenções. Olhando para a sua vida, com uma maturidade espiritual tão grande sem nem mesmo ter completado 18 anos, com uma alegria apostólica em meio à dor, com gostos tão ordinários, como uma juventude tão próxima da minha e da sua, podemos nos questionar: Se ela pode, porque eu também não posso ser santa (o)?

[A santidade] não consiste numa perfeição sem mais, mas numa perfeição de amor, num empenho eficaz por contentar o Senhor, que leva tanto ao esforço heroico por melhorar, como à humildade de deixar-se amar no meio das insuficiências próprias. ESPARZA, Michel; A autoestima do cristão; pág. 33.

[1] Para saber mais sobre Chiara: http://www.focolare.org/pt/news/2012/10/29/beata-chiara-luce-badano

[2] http://opusdei.org.br/pt-br/article/decreto-sobre-as-virtudes-heroicas-de-montse/

 

Gabriela Letícia

Concurseira militar, ama ler, escrever e fotografar. Chegada de Nossa Senhora de Lourdes e apaixonada por Jesus.