Santa Carona

Politizado

O filósofo italiano Michele Federico Sciacca faz um interessante comentário dizendo que quando as ações e discursos fogem da realidade, passam a atuar (e ser) apenas discurso político. Essa ação de fuga da realidade é um dos elementos que está vinculado à filodoxia, ou seja, o abandono da procura pelo saber, pela verdade e a adoção das opiniões e sensações como referencial de atuação. A filodoxia – que nos afastando cada vez mais da realidade e nos fazendo reféns aprisionados por um exército de inúmeras opiniões discrepantes – está impregnada na ordem de pensamento atual, que segue todos os elementos do mundo “líquido pós/hiper-moderno” de fluidez, velocidade, subjetividade, sentimentalismo, esoterismo, etc. Nessa condição, o pensamento acaba por se distanciar cada vez mais da Verdade (e do Ser), o que faz todas as discussões serem motivos para formulação de alguma questão política, Tudo deve ser “politizado”. Das pessoas, a todas as instituições, a sua fé, seu sexo, suas vontades. Tudo.

É claro que esses elementos políticos, longe de querer resolver os reais problemas que estão sendo expostos em nosso meio, social ou particular, ou seja, longe de tentar encontrar a Verdade, tornam-se oratória vazia que divaga entre pragmatismos, utilitarismos, prazeres e gostos subjetivos. Nada pode ser contemplado em plenitude, tudo é apenas e unicamente sensitivo à vontade particular, que deve pautar qualquer condição. A questão política acaba por utilizar de tais exposições, e assim os grupos políticos que estão na disputa pela hegemonia buscam as pautas que estão disponíveis a seu favor. Sem verdade, qualquer elemento político minimamente apresentável e sedutor, pode ser o depositório das vontades chegando a um domínio completo de todas as categorias de opiniões que são visíveis em praça pública.

O que podemos notar mais precisamente em todo esse contexto é que tudo está pautado na solução imediata das questões propostas. Tudo deve ser realizado, agora, conforme eu quero. Algo como um esforço que, devido a soma de opiniões que são cooptadas e aparelhadas pela ideologia política, pretende realizar todos os prazeres, alegrias e criar um estado de bem-estar total aos seus seguidores. Basicamente, voltamos a ver pessoas que querem transformar o mundo em um lugar perfeito, trazer um paraíso para a Terra. Mas se formos espertos lembraremos que todas as tentativas colocadas em prática para esse tipo de resultado acabaram por criar uma série de infernos na Terra. Mas mesmo com todo um histórico completamente desfavorável a uma mentalidade assim, os esforços para a realização da série de sonhos políticos contemporâneos nunca são suficientes. São utilizados hoje uma cobrança contínua por direitos, que no final acabam se mostrando como benefícios para categoria X ou Y da população. Nunca são esforços suficientes, o que fazem as soluções utilizadas hoje, os apelos para “empoderamento” (sic) e “pagamento da dívida histórica” (sic) sejam descartadas, pois seu resultado funcionou ontem, hoje já são necessárias novas opiniões, novas “problematizações” (sic) e tudo que foi utilizado para construir o paraíso ontem já não serve. O céu desabou e há a necessidade de atender as demandas dos novos prazeres.

Um dos elementos que temos para que isso funcione é a quantidade de grupos diferentes que estão sendo manipulados. As demandas de grupos, as chamadas minorias, são ferramentas utilizadas no cenário político desde que os pensadores da esquerda viram uma das primeiras falhas práticas do pensamento de luta de classes. Já que a noção de burguês versus proletário não funcionou, é necessário criar novos contrapontos, novos sujeitos dialéticos, e com isso manter sempre o conflito que poderá, assim, gerar a síntese perfeita da sociedade progressista. Por isso que atualmente tudo está sendo jogado no campo da política. A forma como os pais cuidam dos filhos é vigiada pelo Estado que tem como desejo reter as crianças cada vez mais tempo em seus cuidados, criando uma oposição criança/jovem X pais; os constantes embates que são criados entre mulheres e homens, que distante de procurar uma concórdia que está expressa na própria complementariedade que há entre eles salienta cada vez mais que “o futuro é feminino” e demais palavras de ordem que são para denegrir a imagem masculina alegando que tudo que o homem faz é “sexismo” e devem brincar de bonecas e vestir saias, ou seja, jogam homem X mulher para estabelecer elementos revolucionários. O mais interessante nesse contexto aconteceu recentemente, em virtude do evento da posse do presidente dos EUA D. J. Trump. Vários grupos fizeram manifestações no dia da posse, mas outra manifestação maior foi organizada para o dia após a posse. Basicamente uma amostra da criação do “povo e antipovo”, ou seja, quem é favorável ao novo governo é contra o povo, contra a democracia, contra o progresso, é “medieval”, retrógrado, enquanto o oposto pertence ao povo, àqueles que apoiaram a outra candidata. Não é só lá que vemos uma atitude assim, pois aqui em nossas terras também temos amostras de que as decisões com base no sistema eleitoral só valem para os esquerdistas. Mas prosseguindo, o resultado é a amostra da acumulação de opiniões, um oceano de filodoxia, chegando em um caso prático de paralaxe cognitiva quando uma das pessoas que organizou a “marcha das mulheres” contrária ao Trump ser uma muçulmana que defende a implantação da sharia (lei islâmica que qualquer pessoa minimamente informada sabe que nada tem de proximidade com as ideias daquelas feministas todas reunidas).

Essa adesão em massa das pessoas dos grandes centros a todo esse conjunto de opiniões sedutoras mostra que: é importante se engajar em algum grupo político para poder se sentir como alguém que não está estacionado e que é “politizado” e também que, o válido, é apenas aquelas pautas e opiniões que são ligadas ao politicamente correto, que nada mais é que a vulgarização desse projeto político todo para uma grande escala – principalmente para aqueles que não se importam muito com política, mas que adquirem os elementos do politicamente correto por causa da sua pulverização no nosso dia a dia (eu sei, é difícil pensar que coisas tão vulgares possam ser vulgarizadas ainda mais, mas é fato que há uma produção de opiniões oficiais sobre esses temas, e que o pensamento politicamente correto é a forma mais fácil de fazer com que tudo ganhe maior proporção).

O fato é que enquanto não abandonarmos a postura de apenas lançar opiniões vazias e procurar que estas sejam aceitas como mais uma entre tantas verdades, ficaremos perdidos. Teremos que nos adequar ao padrão politizado progressista, opinando sobre tudo sem saber ou refletir sobre nada, tendo apenas a ideologia política como guia e a solução imediata custe o que custar dos problemas. Acreditando que isso tudo não passa de mais uma amostra de discurso ideológico que mostra como nosso tempo é dominado por aqueles que idolatram a opinião e não a Verdade, quem discorda de tais posturas tem por obrigação não cooperar com essas ações. Basta não comprar o discurso da mídia e estudar um pouco. Pronto. Será um filodoxo politizado a menos no mundo. A sanidade agradece.

 

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.