Santa Carona

Conectados

Nossa vida hoje é pautada quase que completamente pelo mundo virtual. Estamos sempre conectados em algum veículo de comunicação ligado à internet, utilizamos a todo momento algum recurso tecnológico e buscamos integração com o mundo todo a partir das informações que recebemos desse mundo digital. É, sem dúvida, uma excelente ferramenta que pode nos auxiliar em quase todas as nossas atividades. Para os mais antenados tudo hoje se resolve com o celular. Aos mais “tradicionais” sempre há o meio termo. Mas o inegável é que: vivemos em um mundo no qual estamos sempre conectados, sempre ligados. Como estamos fazendo agora.

O desafio sobre o que fazer com tantas possibilidades está ligado a todos. A procrastinação que uma “olhadinha” na internet pode gerar é comum. Abre um app ou uma aba do navegador, e quando você presta atenção tem música rodando, vídeo explicando a teoria das cordas, dez artigos “interessantes e indispensáveis” que estão lá esperando você para lê-los. Mas o que era o seu propósito antes de ter isso tudo aberto? Pois é. Há momentos que esquecemos. Então fazemos um esforço, retomamos do ponto que deixamos e tentamos continuar nosso trabalho.

E é claro, há outros problemas. Em tempos hiper-sexualizados como esses, uma olhadinha como essa pode oferecer muito mais que procrastinação. Ela é condição de encontrar aquela foto supersensual daquela pessoa e que vai te levar, no mínimo, a pensar alguma coisa. Ou seja, a sua visita a internet pode ser ocasião para pecados. E de forma mais comum do que podemos imaginar, pecados graves.

Mas com relação aos cristãos é interessante observar outras posturas que essa coisa do “mundo virtual” gerou. Se pensarmos bem, redes sociais são uma “nova identidade” que assumimos. A partir daquele perfil que temos podemos demonstrar o quão legais somos, o quanto somos antenados, e como somos mais católicos que o Papa até. Ser cristão na internet é muito fácil, ainda mais porque estamos escondidos pela tela e não temos que lidar de fato com alguma situação. Ficamos protegidos de resultados negativos. E sempre ficamos com a cara de “santinhos”, porque no meu perfil só tem coisas “de igreja”. Olhar algumas situações como essas, ou parecidas como essas fez pensar que há uma divisão na vida do cristão conectado. Divisão essa que não deveria existir. Há, no mínimo, três máscaras ou identidades que podemos encontrar. Vejamos:

1- O ser cristão digital: a pessoa posta sempre que pode alguma versículo bíblico, frase de santos (dos mais famosos e mais mal interpretados possíveis, na intenção de não machucar os sentimentos de ninguém). Faz questão de se dizer devoto de algum “santo pop” para pegar bem entre os amigos católicos, o que multiplica as citações referentes a esses santos. A pessoa faz questão de dizer que “ama todo mundo”, mas nem conhece “todo mundo” e se formos mais fundo, guarda raiva de muita gente. Por conta desse pseudo-amor (que na verdade podemos traduzir simplesmente por uma versão religiosa do politicamente correto) tem como uma arma retórica a frase “não julgueis!” (que como resposta deveríamos ter sempre Jo 7,24). E claro, tem o momento #PartiuMissa, ou seja, faz questão de mostrar suas boas ações como católico para o mundo todo ver. Mas há outra face…

2- o cristão sozinho: aqui nós vamos nos deparar com aquele que tem tanta coisa pra fazer que não tem tempo para fazer uma oração sequer (seja uma leitura da Bíblia, a leitura de um livro de doutrina ou história da Igreja, a história da vida de algum santo, o Catecismo, não reza o Terço, não vai à missa fora do domingo). E também a mesma pessoa que adora fazer alguma maratona no Netflix em casa (e deixemos para comentar o conteúdo das séries/filmes em outro momento). Em casa não se importa/propõe ajudar as demais pessoas que moram com ele. Negligencia seus afazeres, quaisquer que sejam. Mas ainda há outra condição…

3- o cristão junto aos amigos: talvez seja onde a situação fica mais problemática porque tudo parece ser mais escancarado. Junto aos amigos ele “toca o terror”, pega tudo que tem pelo caminho. Também está entre os que “chapam o coco”, não sabendo um meio termo virtuoso com relação ao  álcool, embriaga-se sempre quando pode e de formas exageradas. Em um ambiente como esse temos que lembrar que a pessoa ainda está imersa em conversas de baixíssimo nível (é só fazer um esforço e se lembrar do que já escutou em rodinhas de homens ou de mulheres e entenderá do que falo). E é claro que aquilo tudo que posta na internet é esquecido nesse momento, porque nunca sobra um tempo para ir à missa durante a semana, e quando vai aos domingos, logo na porta ele esquece tudo que escutou lá dentro.

O resultado disso é que não estamos sendo pessoas completas, não somos cristãos de verdade. Esse fenômeno de termos “máscaras” não é novo, mas se agravou com o advento do mundo virtual. E pela facilidade causada pela distância entre as pessoas do mundo virtual, você tem uma facilidade muito grande de assumir inúmeras “identidades” e se esquecer da principal: ser cristão, que é a busca da santidade.

Para evitar tamanha fragmentação e buscar uma unidade pessoal é importante buscarmos algumas medidas que nos ajudaram na luta cotidiana. Podemos destacar como meios para isso: 1) temos que ser sempre e em todo lugar cristãos, o que quer dizer dar testemunho com as ações e as palavras, o que não quer dizer que devemos ser os chatos puritanos carolas que em qualquer sombra vê erro e pecado. Temos que saber aproveitar o que há no mundo, pois vivemos nele, e também temos que saber como evitar o que é errado, já que não pertencemos ao mundo. É uma constante luta para sabermos dar uso ao que temos em nosso alcance e, com nossas ações e caráter unitário, realizar um apostolado com os que estão ao nosso redor. O ponto 2) é estarmos cientes de que no mundo digital há muitos benefícios, que nos ajuda a crescer no conhecimento da Fé da Igreja, que nos ajuda a estudar e trabalhar e nos mantem informados. Mas devemos vigiar mesmo assim nos pontos: 2.1) não cair em armadilhas do pecado que estão ligadas a facilidade de falarmos/fazermos algo nocivo ao nosso estado de graça acreditando em um pseudo-anonimato; 2.2) para não cairmos em campanhas midiáticas que são em essência o mais escancarado anticristianismo (coisas como movimentos políticos ligados a partidos abertamente progressistas, movimentos de minorias, questões pró-aborto, e tudo mais que é feito para ferrar com a mentalidade cristã que já está praticamente destruída em nosso meio); 2.3) tomar bastante cuidado com a sedução das modas, a beleza, a participação em um grupo para ser visto como “antenado”, “do bem”, “descolado” pode levar a perdermos nosso foco e debandarmos em meios muito sedutores, mas podres e vazios espiritualmente.

Temos que levar o “ser cristão” a qualquer lugar, do trabalho ao lazer, fazendo o que quer que seja, com quem quer que seja, não por alguns “likes”, mas porque a intenção inicial e final é agradar ao Senhor, sermos bons servos e sermos caminhos para que outros encontrem a Cristo a partir do que estamos mostrando. Seja no mundo virtual, seja na nossa intimidade mais solitária ou seja em nossos momentos de lazer e trabalho. Devemos procurar a nossa unidade, devemos nos mostrar por completo, e não retiramos nossa fé e nossa postura de cristão para nos apresentarmos nos vários lugares. Ela deve ser parte nossa como qualquer outra coisa que nos constitui e por isso deve estar presente sempre e em todo o lugar.

Lembremos que não precisamos odiar o mundo para vencê-lo, não precisamos (a não ser por uma questão vocacional, que é outra história) abandonar o convívio com outras pessoas. Pelo contrário, devemos “amar o mundo apaixonadamente”. Aqui é nossa casa, passageira, e devemos saber dar uso a tudo que ela nos fornece. E devemos ser inteiros ao viver e nos mostrar nessa nossa casa. Porque é de forma inteira que seremos vistos quando a deixarmos.

[Texto base para uma palestra no evento JJPiri, em Pirenópolis, Goiás, no dia 11/02/2017]

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.