Santa Carona

Observações sobre a vida intelectual

A vida intelectual em si chama muita atenção. É admirável encontrar com alguém que você percebe como pessoa que vive essa busca real pelo conhecimento, que procura um crescimento pessoal, no intelecto e no espírito. Horas de conversa com pessoas assim passam rapidamente, os assuntos sempre são atualizados e a abordagem completamente diferente do que estamos acostumados a ver na mídia como um todo. Aqueles que se entregam de corpo e alma para essa busca são notoriamente dignos de admiração.

Essa admiração pode tornar-se também um impulso. Muitos que observam essa vida acabam sendo chamados para esse tipo de atividade e passam a procurar uma vida pautada pela busca de conhecimento e crescimento como meta. Entregar-se a horas e horas de leitura e reflexão; debruçar-se sobre autores desconhecidos e extrair deles o máximo possível. Frequentar cursos e falar de professores que poucos conhecem. Tudo isso ganha uma perspectiva nova. Esta sensação é de estar mergulhando nos abismos oceânicos e de lá retirando pulsão de vida e meios de continuar sua própria existência (isso, claro, se você realmente entender que essa vida intelectual é realmente sua vocação, aquilo que dá sentido para sua vida).

No caso brasileiro isso é complicado, pois o mais próximo que uma parcela considerável da população pode conseguir chegar da vida intelectual é na vida acadêmica, que pode ser vista de forma completamente diferente. Para se ter noção dessa diferença é só ver que um acadêmico de sucesso não precisa ser necessariamente um intelectual, um erudito. Um bom acadêmico deve fazer projetos, entregar relatórios, escrever artigos (e que sejamos sinceros, poucas pessoas leem e menos ainda são influenciadas por eles), alimentar frequentemente o monstro virtual chamado Currículo Lattes. Sem contar que um acadêmico padrão[1] de sucesso garantido deve acompanhar frequentemente as modas[2] que povoam o ambiente das universidades, normalmente identificando-se com alguma ideologia e fazendo parte de uma grande massa que pouco discute, vive de “masturbação mental” entre si: escrevendo apenas para seus pares e completamente distantes da realidade na qual está inserida a humanidade. Pessoas comuns podem ser boas acadêmicas, mas poucos podem ser grandes eruditos e dedicados de fato a uma vida intelectual.

Tendo como luz a obra do padre A.D Sertillanges, que tem um trabalho excepcional sobre a vida intelectual, vamos deixar aqui a definição de “vida intelectual” como: o trabalho voltado aos estudos. Não apenas o fato de estudar, mas de organizar a própria a vida, de ter como meta existencial ser um estudante, ser um contemplador das ciências.

Ora, em nosso contexto brasileiro, onde cada vez mais pedagogias ineficazes são impostas por via estatal e que tornou, por muito tempo, cada vez mais difícil a formação de intelectuais em nosso país, como poderíamos sair de tal marasmo? O fato é que, com a internet e a perda do monopólio de informações que muitos estavam submetidos, saídas estão sendo vislumbradas. A difusão de livros, antes ocultos e negligenciados pelos nossos “intelectuais oficiais”, vem mostrando novas possibilidades “contra acadêmicas” e fora do esquema ideológico estruturado pelas cátedras universitárias. Editoras que, cada vez mais, especializam-se justamente nesse tipo de publicações, distantes do que vem a ser a pedida da academia, mas sim uma demanda pelo que é oposto a ela, colaboram para o levante de uma nova forma de intelectualidade que toma fôlego fora dos muros da universidade. A vida dedicada ao conhecimento, ao conhecimento do mundo, de si e da realidade ganha cada vez mais novos adeptos e que, graças às novas formas de propaganda e produções[3], oferecem para o público no Brasil condições de começarem a trilhar o caminho de estudos não convencional.

Pois bem, mas acontece que muitos demoram a ter contato e até mesmo interesse por esse caminho. São tantas as distrações e poucos os que apresentam ou incentivam esse caminho que, quando descobrimos essa possibilidade entramos em desespero porque o tempo já passou e muito foi gasto com coisas supérfluas. A situação é mais ou menos assim:

“Sabe quantos livros já foram publicados no mundo? Mais de 129 milhões.”

Uma pessoa de uns 18 anos, que estuda regularmente e em escolas fora do eixo público pode responder que, dessa cota leu no máximo 150 em toda a vida. Se a pessoa ainda estiver assustada com o peso da vida de estudos poderá coloca na balança outro porém: nenhum dos livros que leu serve pra ter uma conversa no mínimo respeitável com alguém. Comparações podem surgir ao olhar para o mundo das letras e então chegar a (pessimista e equivocada) constatação de que é “um fracasso pra esse mundo”. Quando vemos aqueles que estão caminhando um pouco mais tempo que a gente que resolveu engatinhar agora pode ser assustador, mas nessa hora é que precisamos ter calma… muita calma.

Nesse momento, primeiro, podemos levantar a seguinte questão. Desses livros todos que foram publicados, podemos separar uns poucos autores essenciais. O resto pode ser dividido entre os que servem de iniciação (a grande maioria dos secundários) e uns outros dispensáveis. Então já apresenta uma situação um pouco melhor. Sem contar que podemos também lembrar que Gustavo Corção, um grande intelectual brasileiro, disse que os livros que leu antes de sua dedicação de fato para o crescimento intelectual, também lhe foram de ajuda, porque depois que começou a questioná-los, viu seus erros e aprendeu que aquele pensamento era nocivo, já não precisaria ler mais aquilo. Na verdade, tomar contato com coisas menos proveitosas não pode ser feito de um desperdício. Ao menos se conhece outro território e saberá contra o que agir.

E como temos que olhar onde estamos, o Brasil, é de extrema importância considerar nossa sociedade e como ela funciona dentro do âmbito do conhecimento. Aqui é extremamente difícil ter uma cultura clássica. Ainda mais desde jovem. Apenas uns poucos colégios, outro pouco de pais e familiares conseguem passar isso para um jovem[4]. A aquisição desse tipo de hábito, para nós brasileiros, vem principalmente da iniciativa particular. Essa iniciativa em ter uma vida de estudos séria não é comum antes dos 18 ou coisas assim. Nas escolas poucos são os professores que, devido ao próprio ambiente, ainda cultivam uma vida intelectual séria e que ainda não se renderam às burocracias do sistema educacional do país[5]. A iniciativa particular começa justamente por esse assombro ao ver um mundo diferente do que a maioria fala, e esse assombro pode gerar as dúvidas iniciais. Então, se você está nessa faixa etária (18 anos) e agora viu que quer entrar de cabeça nisso tudo, ótimo! Você é, na verdade, alguém que teve esse impulso mais cedo que a esmagadora maioria das pessoas que resolveram seguir esse caminho. A grande parte está na casa dos 25 ou 30 anos, tem um longo caminho a trilhar e podemos dizer que são justamente o esterco dos mais jovens. São esses que começaram a busca um pouco mais velhos que estão mostrando algo novo para os mais jovens e assim trabalhando o solo para que futuramente isso se torne comum, e que pessoas mais gabaritadas possam aproveitar o que foi fertilizado pelo adubo aplicado.

Esse é o ponto 1. Para você ver que está querendo iniciar essa empreitada ver que a coisa não está tão ruim quanto parece nos seus estudos. Vamos então para o ponto 2.

Se você é uma pessoa que não fica de conversa idiota, só tem conversas de adolescente metido e besta (pior ainda se já tiver saído da casa dos 21); se passa longe do estereótipo de adolescente bobo que só vê e fala de futilidades, então nem tudo está perdido. Na verdade, está é em um bom caminho. Porque se viu que deseja um crescimento intelectual, se quer um compromisso com a verdade e se não tem prisões mundanas, logo, você pode estar mais perto do que almeja, mesmo mostrando um certo desespero, angústia e até mesmo sofrimento. Então podemos levantar o ponto 3. Vejamos aqui algumas importantes dicas para que se siga a vida em busca do conhecimento.

Muitos quando começam fazem como um ogro. Violentamente se debruçam sobre aquilo que cai em suas mãos. Uma ida na livraria é um grandioso banquete no qual se quer aproveitar de tudo e desesperadamente. Como um bom ogro sai destruindo tudo que acha pela frente e começa a ler e estudar os temas que estão mais em voga, que estão na poeira, no movimento. Isso pode ser bom porque dá a possibilidade de tomar contato com vários temas e se fazer conhecedor, mesmo à distância, deles. Mas gera um problema que é o da impossibilidade de abraçar tudo. Eis uma primeira advertência: o recorte. É necessário ter em mente que nunca será possível saber de tudo e ter conhecimento pleno de tudo, então, não se desespere querendo abraçar o mundo. Você não consegue.

Essa postura do ogro, mesmo arriscada, pode ser o pontapé para encontrar o tema que será o motivador de seus estudos, aquilo que chamará seu intelecto a ação. Depois que encontrá-lo, tudo ficará mais fácil, e o foco poderá ser mantido e fará com que você tenha um desenrolar cada vez mais apropriado de sua vida de estudos. O tema é importantíssimo, porque não dá para ficar maçando barro em áreas que não estão te chamando ao conhecimento. Aqui é necessário dizer que é importante possuir os conhecimentos básicos em todas as disciplinas, ou seja, existem aqueles assuntos que você deve passar por eles para não cometer erros grosseiros futuramente. Mas dentro do básico, algo desponta e te intriga. Nesse você deposita sua força.

Outro detalhe importante é que, alguns profissionais, como professores, nem sempre estão com a condição de lecionar aquilo que especificamente pesquisa. Esses possuem dois campos de estudo constantes: o do trabalho como sobrevivência e o estudo como meio de satisfação, de pesquisa pessoal, e crescimento particular. Talvez essa condição seja dividia por quase todos os profissionais que em algum momento tem que se debruçar em alguma questão particular do emprego e deve deixar um pouco menos de tempo para seus estudos particulares.

Outra questão importantíssima para a vida de estudos é estar disposto a encontrar a verdade. “O intelectual não é filho de si mesmo, ele é filho da Ideia, da Verdade; do Verbo Criador. O intelectual segue Deus à risca. Não a sua própria quimera”, ele age em busca da verdade, não da glória passageira, mas do aperfeiçoamento pessoal em busca de auxiliar cada vez mais outras pessoas. Aquele que busca a vida intelectual como meio de glória pessoal, unicamente como forma de enriquecimento e encontro da fama, não passa de uma nova versão de Simão, o mago. São como nossos famosos intelectuais que agem em nome do ego, pela satisfação da plateia. Trocam a verdade por trinta míseras moedas que serão corroídas pela terra.

Tenha paciência. Da mesma maneira que são necessários anos para se formar em uma universidade, para concretizar uma família, para discernir uma vocação, o estudo é terrivelmente doloroso por não mostrar resultados imediatos em nossa vida. Levar horas para entender poucas páginas, ou meditando em trechos pequenos de algum livro é mais que comum: é necessário. Se aquela parte da obra exige mais atenção, dê a atenção pedida. Passar por aquilo sem que tenha absorvido tudo, apenas para empilhar livros lidos não adianta em nada. Isso é algo para quem finge. E se você vai se dedicar à verdade, não cabe fingimentos.

Busque sempre ajuda de quem já passou por onde você quer passar. Claro que você não vai trilhar exatamente o mesmo caminho, até porque se quem for te ajudar estiver realmente comprometido com o seu sucesso (que será para ele um sucesso particular só porque ajudou alguém), então ele já te mostrará onde não ir, o que não fazer e como fazer as partes mais difíceis do trajeto. Algumas pessoas que estão nesse caminho e que você conhece não necessariamente estão muito a frente de você, e nesse caso o que ele pode fazer e tomar sua mão e seguir junto, e aprenderão juntos, com os acertos e erros cometidos.

Tenha consciência de sua pequenez. Nada mais certo do que a colocação de que “se hoje enxergamos longe, é porque somos anões que subiram nos ombros de gigantes”. Nós estamos trilhando um caminho que foi pavimentado por pessoas inestimáveis para a humanidade. Há tantas coisas escritas e trabalhadas que, nessa nossa caminhada, muito pouco (sendo otimista) dos insights que possamos ter serão originais. Provavelmente aquela grande conclusão que tivermos, ou grande conceito que concebermos já foi feito antes e de forma mais elaborada por alguém muito mais capaz que nós. E para nossa alegria resta, como consolação, saber que ao menos estamos caminhado corretamente, já que estamos chegando ali.

Durante os estudos e as leituras, ter sempre papel por perto. Anote questões intrigantes e procure responde-las. Se ocorrer alguma ideia, tome nota. Mesmo que ela fique guardada por um longo tempo ou que nunca mais utilize, mas o exercício de colocar aquilo no papel já é importante, porque estruturar de forma clara e precisa um pensamento que lhe ocorre é um grande auxílio para o desenvolvimento do intelecto[6].

Romances, novelas, dramaturgia, poesia são indispensáveis. Esses gêneros literários são responsáveis pela formação da nossa imaginação[7]. E em muitos casos há escritores que conseguem sintetizar conceitos de forma clara em trechos de obras literárias que auxiliam na compreensão de obras científicas, históricas e filosóficas. Há uma série de escritores que são indispensáveis para um grande intelectual, para uma pessoa que se dedica às letras. Tudo isso porque suas obras conseguiram narrar os dramas humanos de maneira ímpar e ter contato com eles é estar mais próximo do que compõe a humanidade, só que expresso em letras.

Essas breves observações não são e nem pretendem ser uma receita para levantar uma onda de novos intelectuais para o país. São notas para que, caso tenhamos pessoas que querem seguir esse caminho, abram uma primeira página no prefácio do livro da vida de estudos de alguém. Sem essas notas outros chegarão ao crescimento pessoal; e outros até podem começar com elas. O que deve ficar claro é a seriedade que há na vida intelectual. O comprometimento e o quanto ela cobra.

O compromisso com a verdade é alto. Um ego forte, uma mente mesquinha e um coração orgulhoso não pode com ela. Normalmente se defende sentando em algum trono que lhe dá poder e levanta sempre a questão: “O que é a verdade?”.


 

Anexos

Colocarei aqui um link para um blog que possui as dicas de estudo dadas pelo Olavo de Carvalho. São muito boas e caso alguém queria conhecê-las (e colocá-las em prática), cá estão:

Dicas de estudo Olavo de Carvalho.

Outra boa dica é esse texto sobre a obra “A vida intelectual” do padre Sertillanges.

A vida intelectual A.D Sertillanges.

Ainda sobre o Sertillanges, existem vídeos no canal A Travessia que o autor faz algumas observações sobre capítulos específicos da obra.

As Travessias – A vida intelectual.

Também é interessante o modo de estudo segundo Santo Tomás. Aqui há um texto sobre o assunto que poderá ser de grande ajuda.

Estudo segundo Santo Tomás.

Temos no blog uma versão das dicas de estudo de Santo Tomás feita pelo Carlos Neiva para estudantes contemporâneos. Vale conferir AQUI.

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Notas

[1] Deixo aqui uma advertência ante a possível generalização, pois sabemos que existem acadêmicos de grande nível e gabarito. Esses não são padrão, estão consideravelmente acima da média.

[2] Um pouco sobre esse assunto pode ser encontrado nos textos: A grande casa das modas [1], [2] e [3].

[3] Um destaque especial para o Crowdfunding, o financiamento coletivo, a famosa “vaquinha”, que hoje movimenta algumas editoras no país e já foi responsável pela produção de um documentário. Tudo isso com a colaboração de pessoas que buscam justamente ter acesso àquilo que não é oferecido pelo mercado convencional, mas que pela movimentação e ação de vários que também desejam o mesmo, se unem para promover a disponibilização de obras no cenário brasileiro. Destaque para a Editora Concreta e também para o documentário “O Jardim das Aflições” sobre a vida e obra do filósofo Olavo de Carvalho [resenha aqui].

[4] E vamos lembrar que os desvios dessa aquisição de alta cultura são mais atrativos. Ou você conhece mais que um pouquíssimo punhado de jovens que trocariam um baile movido por música pop ou funk por um concerto de música clássica?

[5] Mais sobre o sistema educacional aqui: Educação no Brasil.

[6] É interessante que sublinhe, risque e escreva nos livros para fixar passagens. E para os que não tem essa coragem (ou que estão utilizando livro emprestados), um caderno para fazer fichamentos das obras é indispensável.

[7] Para uma breve observação específica sobre esse tema: Literatura e formação.

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A ideia para esse texto veio de uma conversa com a amiga Amanda Torres, que justamente tocou no assunto e trouxe o insight para escrevê-lo. Obrigado pela ajuda!

 

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.