Santa Carona

Sobre escritores

Ao ler o livro Uma confissão de Liev Tolstói entramos em um mundo particular e que até então era reservado a ele. Seu estado de vida em parte de sua juventude é resumido pelo escritor na seguinte sentença:

Mentira, roubo, luxúrias de todo tipo, bebedeira, violência, assassinato… não havia crime que eu não cometesse e, por tudo isso, meus colegas me elogiavam, me consideravam, e me consideram um homem relativamente moral.

Ao revelar os mais profundos sentimentos e sensações que outrora estavam guardados, Tolstói vai nos guiando em sua trajetória existencial e comentando seu tempo de engajamento como mais um sacerdote da “religião dos escritores”. Eram mais ou menos assim:

Para ter fama e dinheiro, razão pela qual escrevia, era preciso esconder o bem e mostrar o mal. E assim eu fazia. […]

E, antes que eu pudesse perceber, o modo de ver a vida próprio à casta dos escritores, as pessoas com as quais entrei em contato, foi assimilado por mim e logo apagou por completo todas as milhas tentativas anteriores de me tornar melhor. Tal modo d ver a vida se baseava numa teoria que justificava a libertinagem em minha maneira de viver.

Por esse depoimento, vemos que eles acreditam piamente, ou melhor, soberbamente, no seu poder magnânimo, sabendo que são uma casta fechada, e que se fecha em um grupo que fomenta a idolatria coletiva e que pouco se entendem. Lembram-nos as discórdias míticas entre as potências divinas nos antigos panteões. Todos se colocam como mestres da sociedade, mas nem ao menos sabem o que ensinam.

A função desses homens era zombar do que é bom, desrespeitar todas as virtudes, valorizar o que é depravado, elevar o mais baixo e animalesco das faculdades humanas. E o que isso causa? Fama, prestígio, dinheiro. Tudo que alguém com a visão de tais exaltações poderia querer. A atividade artística e intelectual era, como a confissão de Tolstói nos diz, a construção de um clero ainda mais caprichoso e sujo do que o da igreja em seus dias.

Transpassando algumas décadas, chegamos na América, EUA, onde uma jovem senhorita também consegue perceber a infelicidade e o vazio dos homens de letras e o deixa claro em um trecho de seu conto “A colheita”. Veja:

Problema social. Problema social. Hum… Meeiros! Miss Willerton nunca havia estado intimamente ligada a meeiros de colheitas, mas refletiu que eles dariam um tema tão artístico quanto qualquer outro, dando-lhe em contrapartida aquele ar de preocupação social que era tão valorizado nos círculos em que ela desejava penetrar.

O engajamento em causas sociais acabou por si tornar o que alimenta a autoestima, a vaidade, o orgulho dos artistas e intelectuais. No conto de Flannery O’Connor sua personagem ao pensar em um tema para criar um conto, admite que tem que tratar de um tema social, porque é isso que fazer e falam aqueles que compõem o círculo de influentes escritores que ela sonha em compor.

Por esses ângulos podemos tomar que, ainda hoje, a atividade artística, a escrita, é uma maneira de ensinar o contrário daquilo que é bom, que é buscado como ideal de aperfeiçoamento humano. Ela é uma forma de ascensão social, de busca pela fama, de reconhecimento e riquezas.

Ora, os pedagogos que vem da arte, mas não só, querem criar toda uma inversão social, todo um choque, ensinar o desprezo, a ignorância apenas porque isso rende. A função daquela perversão toda dos costumes é, simplesmente, colocar-se como referência. Nada de bom tem a ensinar, pelo contrário, zombam e escarnecem da bondade. A atividade intelectual abandonou a sabedoria, encontrou-se com as benesses do status e no dinheiro, e cada vez mais tomamos por mestres pessoas que ao invés de oferecer o crescimento do bem em nós, de auxiliar a cultivar as virtudes e de reservar a presença das coisas admiráveis em nosso meio; são as referências justamente aqueles agentes que em pouco tempo levam ao chão o que de mais admirável fez os seus ancestrais, são os que não suportam nada a não ser a si próprios (porque são raros os casos que estão em comum acordo, e um deles é justamente o pensamento sobre a destruição). Nossas melhores referências midiáticas contemporâneas mergulham na lama e para lá querem levar toda uma civilização. Como os demônios que afastados de Deus querem que todos assim também fiquem. O bom, o belo, o justo, todas as virtudes que são louváveis pelos homens de todas as eras e lugares devem ser afundadas na lama do orgulho, da soberba, da vaidade desses escritores modernos (mas não só eles), os professores das novas gerações.

Toda a obra de pessoas como as que possuem esse perfil são feitas de uma forma que refletem seu vazio e como isso vem sendo preenchido com nulidades, com fracassos interiores e que precisão de uma justificativa sensual para criar uma autoafirmação de si para si. E acabam por surtir efeito similar em quem compra esse tipo de visão para si. São obras de destruição de florestas para transformá-las em pântanos. São exemplos do magistério da desgraça, da educação dos porcos, que vivem a procurar o melhor lugar na lama.

Cabe aos inquietos, àqueles que não conseguem viver ou se afastar em situações como essas, procurar por verdadeiros mestres, como exemplos, os que denunciaram esses fatos. Grandes homens e mulheres que ensinam a construção e preservação, ao invés da destruição. Verdadeiros heróis, que como bem lembra Dostoievski, são os que tem a capacidade de mergulhar na lama e dela sair, e também de se limpar e limpar ao próximo.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.