Santa Carona

Manifesto do Nada na Terra do Nunca

Quem nunca ouviu falar no músico Lobão? De trajetória artística que o destacou no meio do rock nacional e também, em tempos mais atuais, escritor de mão cheia. Lançou recentemente o livro Guia politicamente incorreto dos anos 80 pelo rock, no qual comenta como foi a década em referência a partir das bandas que tivemos, e nisso entra várias questões de arranjos entre gravadoras, rádios e televisão que influenciaram nos conjuntos musicais.

Isso nos faz lembrar que Lobão também é lembrando em nossos dias por ser um opositor ferrenho ao governo petista e à esquerda de modo geral. Da mesma forma que possui fãs criou um séquito de opositores que fazem questão de falar mais mal dele possível. Mas para chegar a esse nível de rejeição pelo pessoal para quem fez campanha política por muito tempo ele fez muita coisa. Denunciou, junto a outros nomes brasileiros como Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino, Luiz Felipe Pondé, esquemas de dominação cultural e ideológica do país. E como a corja nunca deixa barato, justificamos com essa observação o que fez ele ser hoje louvado e seguido em suas redes por uns e execrado por outros.

O seguir do texto é um comentário rápido feito logo após terminar a leitura do livro Manifesto do Nada na Terra do Nunca, de 2013, ano do lançamento. Um livro interessantíssimo que passa por vários pontos que são caros ao que Lobão vem comentando já faz um tempo, desde que se desencantou com o pessoal da estrela vermelha. A leitura é muito válida e ajuda a observarmos um pouco o cenário brasileiro.


 

A situação política no Brasil é lastimável. A cultural também é daquelas que deixa os ouvidos doloridos devido aos seus “grandes expoentes” e representantes da atual música brasileira. Pensar as possibilidades, via produção intelectual do país, também te deixa paralisado em um mar de clichês em voga há tanto tempo, mas que nunca resolveram nada. E sim, os ídolos que estão nos pedestais dos “pensantes” tupiniquins não são perfeitos e intocáveis. Se você um dia pensou sobre essas coisas e não achou a resposta nos chavões repetidos ad infinitum a torto e a direito, se você está indignado com toda a besteira que você é obrigado a escutar, e se além do mais, após escutar asneiras e se posicionar contra, você recebe mil e duzentos adjetivos estapafúrdios, bom, você vai gostar do que o Lobão tem a te dizer.

O músico Lobão (João Luiz Woerdenbag Filho, 59) é bem conhecido da mídia. Ou quase. Até a década de 1990 ele aparecia nos círculos nacionais como um roqueiro porra louca, esquerdista radical e propagandista da causa. Ficou nos holofotes por protagonizar um episódio marcante na tv nacional quando, em plena eleição entre Collor e Lula, ele, no programa do Faustão em rede nacional e ao vivo, tira sua camisa e na que estava por baixo exibe o a estrela vermelha do PT. Mais uma loucura de Lobão que por isso ficou por muito tempo de fora da emissora. Mas não é só isso. O músico há muito já lutava contra o monopólio das gravadoras e das rádios em eleger os artistas que deveriam ir para o gosto popular. Lutou, e ainda luta, contra o jabá (um pagamento para que nas rádios toquem com grande frequência artista X ou Y, deixando outros, muitas vezes melhores, de fora das paradas musicais). Fora a luta contra o jabá, o resto mudou. E muito.

Decepcionado com todo o cenário nacional, das artes à política, deixou a militância petista, pois se viu extremamente desiludido com as andanças do governo desse partido. Para ele (e muitos outros diga-se de passagem) seria o governo perfeito – ainda tem quem acredite nisso. Só que com escolhas ministeriais incabíveis e uma cegueira crônica de nível saramagoniana que imperava entre os membros do partido, Lobão viu que eles eram tão sujos, falsos e mentirosos como os opositores. Após o mensalão, deixa de vez qualquer militância (que já não era ativo faz tempo) e procura compreender o que levou a política nacional a se tornar o que é. Suas pesquisas e estudos – autodidatas – o levaram ao pensamento conservador. E ele hoje se coloca como um dos que, adotando essa filosofia política, berra em um deserto de pessoas surdas, a insanidade que está controlando o Brasil.

No seu segundo livro, Manifesto do Nada na Terra do Nunca, o músico expõe de forma clara seu pensamento. Em alguns momentos de forma simples, mas que não deixa de te colocar uma pulga atrás da orelha e te fazer pensar: “nossa, mas será isso?”. E se você tiver coragem de sair do comodismo da política “macunaímica” contemporânea que vemos, bom, deixarei que encontre a resposta. Lobão vai destrinchando no seu livro, ao longo de oito capítulos, mostrando o que ele passou em várias situações de sua vida, e em uma escrita fluida que tem a característica de contar com o auxílio de muitos neologismos, dá grandes proporções para suas experiências.

Pontos que podemos destacar como interessantes vão desde sua visão sobre a política e os intelectuais brasileiros, que segundo ele são um “bando de batedores de punheta de pau mole” devido ao marasmo intelectual que essa trupe promove. A precariedade do governo que não trouxe nada e ainda coloca-se como muito bom obrigado. E nesses feitos maravilhosos de nosso governo destaca o absurdo da tal “Comissão da Verdade” em meio a uma administração que até agora não deu explicações (e punições) aos mensaleiros. E mesmo colocando-se como alguém que agora anda pela direita, ele não é como os ingênuos neófitos na política que acham que o que temos aqui é uma Direita. Diz Lobão que

Na verdade, o Brasil nunca teve uma direita. Teve e continua tendo um irremissível coronelato hereditário.

Se coloca contra a idolatrada MPB e protesta contra nomes divinizados e intocáveis do cenário e deslancha tudo afirmando ser o funk a nova MPB (o que se for levar pelo termo, é verdade, mas considerando a sua proposta, de que é um estilo livre das pressões de gravadoras e coisas assim, não é bem assim, pois vemos que o funk hoje já se encontra no mainstream). Também relata suas aventuras como apresentador e aventureiro (parte mais chata do livro). E ao final destrói o naturalismo, o nativismo e a ideia de bondade pura em uma terra longe do europeu/norte-americano opressor com uma resposta ao Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade.

Sim, podemos ver que o autor está botando a boca no trombone, que ele está mais uma vez tentando sobreviver depois de ser defenestrado inúmeras vezes da mídia. Mas é inegável que suas palavras tenham possibilidade de levantar poeira. Aquela poeira que instalou na lógica e na vida real frente a coisas simples que negamos a enxergar e a dar valor. Se o erro dos que se opuseram a ele foi tê-lo deixado vivo, aproveitemos o que ele tem a oferecer com sua experiência.

Aviso: esse livro não é para politicamente corretos, esquerdistas binários e extremistas de qualquer forma. Procure por ele se você também possui um sentimento de que há algo de podre no reino do Pindorama. Ai sim, sirva-se, esse manifesto pode ajudar você. Ou não.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.