Santa Carona

Nota de outro homem no subsolo

“Sou um homem doente… Sou mau. Não tenho atrativos”. Foi assim que o grande escritor Dostoievski redigiu as poderosas memórias de um homem deveras doente. Servir-me-ei delas para começar a minha nota, nutrindo e demonstrando respeitosa reverência de um reles aprendiz a seu excelso mestre.

Sempre me identifiquei com esse trecho. Não por um nutrir uma espécie de niilismo juvenil estúpido. Mas pelas potentes verdades que encontramos no breve trecho. O reconhecimento da própria condição de doente, de propenso ao mau e, principalmente, não ter nenhum atrativo. Tamanha sinceridade inicial leva-nos a ter certa simpatia pelo Homem do Subsolo, em alguns momentos até raiva e outros um pouco de pena. Justamente por conseguir a identificação com a abertura do livro que tantas sensações perpassam pelo meu ser como se estivesse recebendo marretadas.

Mas o que é muito interessante para mim em tal passagem da introdução do livro é o trecho “não tenho atrativos”. De fato, não os possuo. Não tem nada que acredito fazer como ninguém mais. Suponho que tudo o que faço pode aparecer alguém que fará melhor e nem precisará de muito esforço para isso. Há essa verdade no subsolo: o anonimato, a indiferença, o reconhecimento da falta de atrativos. O agir quotidiano não chega a ser mecânico como se fosse um constructo, mas é o agir necessário por não saber ainda a que vim. Tenho também a minha prisão no fundo de algum porão qualquer e de lá vejo tamanha falta de atrativos.

Em todos os lados vemos, com assustadora frequência, uma quantidade enorme de pessoas que em tudo o que você já fez, faz ou fará estão se mostrando melhores. Muito melhores. Isso já revela algo importante: se sou tão habilidoso com algo, como alguém consegue ser melhor que eu? Sou bom mesmo no que faço? Se deixo tanto espaço para melhorias, não fiz tão bem assim, preciso melhorar. Meus atrativos não são nada tão espantosos. Perecem pela aproximação daquela pessoa que já fez ou faz melhor. Continuo no fundo do meu porão a fazer o que pode ser feito.

Mas outro detalhe importante é que em nossos dias todo mundo é munido das mais perfeitas qualidades da humanidade. Engajando-se em causas sociais, em campanhas ou militando em prol de uma ou outra ideia, ganham visibilidade e logo são tomadas da certeza de seus atrativos. A bondade que é imputada em tudo que faz, a perfeição e o orgulho levantam muitos medíocres, ou até mesmo pessoas com alguma coisa a mostrar, a status de celebridades, especialistas, guias… lembra a euforia de um jovem professor que transitava entre Demônios na Rússia e por ter a certeza de que teria uma ótima ideia sobre a “causa comum” sempre se mostrava como alguém importante, muito talentoso, de grandes qualidades. E todos adoravam-no. A sua presença inebriava a massa dos que idolatravam a ilustração crescente entre o seu povo. Era o farol das massas dos que se embriagam com as novidades. Em nossos dias isso é mais rápido. Todos nossos talentosos e incorrigíveis homens bons estão a exibir tudo o que fazem (sendo tudo algo excelentíssimo) com todo orgulho possível em várias plataformas possíveis. Uns munidos de certa intenção em auxiliar os demais, outros apenas buscando massagear o imenso ego. E assim vamos transitando pelos perfeitos e inquestionáveis cidadãos do mundo atual. Mundo que é perfeito e com cidadãos perfeitos tanto no virtual quanto no real. A decisão imediata de que se é incorrigível, da impossibilidade de estar errado levam muitos pobres diabos a tamanhas convicções e cegueiras que só mesmo em um caso de grave doença podemos prestar atenção ao básico sobre a minha realidade: não tenho atrativos.

Essas lembranças e reflexões fazem o favor de espetarem minha carne e sem motivo de memória de toda a efemeridade das minhas ações e pretensões. Parece fácil de perceber, mas não é. Faz-se necessário estar só em um porão escuro consigo mesmo para perceber tudo o que foi feito e como o foi. Olhar para os próprios atos, para a própria pessoa e conseguir realizar a certeza de que não há nada tão bom assim, que eu fiz, mas outro poderia fazer melhor é importante para o autoconhecimento. É preciso que, de dentro desse subsolo, venha emergir então uma consciência do porquê faço as coisas. Ver o que é minha ação em toda a realidade: se acontece por conta das circunstâncias, ou se é a minha realização pessoal como vocação. Em todos os casos, o agir não é a sua perfeição, mas ganha um espaço de satisfação pela entrega que se faz no campo existencial, naquilo que determinará a pessoa.

Aqui podemos ver uma distinção interessante das ações. Tudo o que faço é uma realização daquilo que em mim, como soma de uma série de conjuntos internos e externos, podem ser feitos. Terei, nessa disposição das realizações, que agir para realizar tantas coisas, umas banais, outras mais complexas, digamos, mais elevadas. Entre todas as ações possíveis tenho aquelas que devo fazer (pelo próprio transcorrer da vida), e tenho outras, e essas são importantes, que quero e preciso fazer como realização da minha pessoa. Aqui vem uma constatação importante: compreender que, como qualquer um, podemos ter algo no qual fazemos com extremo gosto, por entrega pessoal e vital. Encontrar essa razão de agir toma boa parte do início de nossas vidas. Uns encontram o caminho para sair do buraco e logo conseguem mostrar-se atrativos em algo, já outros pobres coitados labutam por toda uma existência. Exemplos daqueles que logo souberam a quê vieram são vários, a vida de muitos santos mostra isso. Desde cedo estavam prontos a seguir caminhos que muitos homens velhos temem seguir. Já os que passam a vida toda procurando o seu por onde seguir também são inúmeros. Alguns tem justamente nas tentativas que urgiram por toda a vida e nas memórias registradas de tudo uma grande vocação e razão de ação.

Mas vejamos que mesmo não sabendo o que nos falta, por onde seguir, o que fazer, somos forçados pelas circunstâncias da vida a realizar inúmeras ações. Mesmo sem atrativos, mesmo sofrendo do fígado, há a necessidade de ação. Passamos por incontáveis situações que cobram o agir. E agimos. Simplesmente. O que é interessante para alguém sem atrativos nessa situação é justamente o porquê agir.

Se não é o que alimenta sua vontade, se ainda não é aquilo que consome a vida, se não é sua vocação, o que leva a agir em situações das mais complicadas que lhe tomam tempo, causam furacões sentimentais, torna-se fonte de estrese e criam guerras pessoais, qual a razão de tanto esforço? Bom, quando não se sabe a sua vocação, quando você ainda está sem um rumo sobre o que fazer da vida, resta fazer o que está próximo a você, fazer o que deve ser feito. Não há necessidade de atrativos para isso.

Entender a vocação dentro de sua questão existencial é saber que ela é para nós justamente o que nos realiza. Dentro do nosso existir é necessário preenche-lo com o que mostra a nós exatamente o que fazemos com a nossa completa entrega, aquilo que é nossa razão de estar no mundo, o ponto da realidade que é nosso e não de outro. A vocação é, simplesmente, aquilo que faço com todo amor, faço com todo o meu ser. É o meu espaço no universo inteiro. Nesse ponto onde estou, nessa realização que é minha, haverá todo um desprendimento do meu ser e a realização deste. Pode ser que muitos sejam atraídos pela forma como executo essa tarefa, pode ser que eu mesmo me encante com tamanha força de vontade e desprendimento de mim que há depositada nela. Se serei bom ou não, é irrelevante. A realização do ato é suficiente.

Ao fazermos aquilo que deve ser feito damos um mínimo de valor a nós e vamos valorizando o mundo cada vez mais. Percebemos a realidade em volta de nós, as pessoas e mediante essas conexões que recebemos o impulso de agir. Mesmo distantes da realidade que envolve aquilo que é minha vocação, mesmo ainda não achando aquilo é a razão da completa entrega de nosso ser, haverá uma série de coisas para serem feitas e que muitos negligenciam. Essa ação é o que auxiliará a moldar nossas circunstâncias, fornecerá cada vez mais caminhos para, ao menos, saber para que nós não servimos. Dispondo-me a realizar as ações próximas, o que deve ser feito, vou delimitando minhas circunstâncias, encontrando o que quero fazer, o que se juntará ao dever pessoal e preencherá um campo da minha pessoa. Essa aproximação será aquilo que irá conferir uma capacidade de entrega no agir, de curar ou aliviar a doença pessoal, de fazer com que entenda que pouco importar ter ou não algum atrativo.

Quando encontramos aquilo que nos ilumina, quando estamos cientes de que fazemos algo que completa o nosso ser, encontramos o sentido de nossa participação na criação. Nesse caso a realização da minha vocação pessoal será para mim motivo de enfrentar tudo, motivo de desprender-me de amarras, de sair do subsolo e o principal, de procurar não importar de foram alguma como o que pensar e até mesmo com o que eu penso sobre minha imagem. Será minha entrega, saindo de mim e indo para o mundo, oferecendo aquilo que tenho. Se gostarão ou não é pouco perto do ato de realização, se fui o melhor nisso também pouco importa. Era preciso que fizesse.

Pois bem, continuo sem atrativos. O que faço é pelo simples motivo de que é necessário. Em parte, há algo que vejo levar-me para a minha vocação final, aquela que poderá, enfim, colocar a minha existência junto ao restante da criação e arrancar de mim uma vontade de agir tremenda, avassaladora. Observando as inúmeras circunstâncias que aparecem nos caminhos percorridos será possível moldar aos poucos, pelo menos, o conhecimento daquilo que não é minha vocação, afasto várias possibilidades ao mesmo momento que outras surgem. Esse delinear de fronteiras é um princípio para que no fim das contas saibamos para que estamos aqui e o que devemos fazer e entregar a vida.

Mas permaneço alguém sem atrativos. E mesmo assim continuo a fazer o que deve ser feito, já que está sendo negligenciado por muitos. Ainda sou doente e mau, mas há uma luta pessoal que tenta barrar o avanço do mal e que tenta não deixar ser consumido pela doença. Ao fim das contas, mesmo sem nenhum atrativo, mesmo sem saber bulhufas da minha doença, ainda posso agir, ainda há caminho a ser percorrido. Posso dizer que “aqui não terminam as ‘notas’ desse paradoxista”. E se não terminam ainda há vida, e ainda ocorreram outras notas – expostas ou mantidas guardadas no recôndito do eu. Mas faz necessário parar por hora.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.