Santa Carona

O homem e a realidade

A realidade não é um conjunto de materiais. Não é apenas o que nos é tangível. A realidade é antes uma amplitude de coisas que nos cercam, sem exigência de que tais coisas se materializem. Essa amplitude serve não só para mostrar que somos bem minúsculos no todo, como também para que fique claro que cada um tem seu espaço, que cada um pode trilhar seu caminho. Machado de Assis tem uma frase interessante:
“Cada um sabe amar a seu modo, o importante é que saiba amar”  os ideólogos do gênero usam com malícia semelhante afirmação. Mas se analisarmos, o que Machado de Assis queria dizer, chegamos a uma realidade imaterial regida pela metafísica do Amor. Onde a regra de ouro é que se ame o próximo como a si mesmo. O materialismo perante ela não tem reação, pois são eixos diferentes e portanto muito superior a qualquer materialização. Para bem aprofundar neste tema vamos antes nos ater a fatores que nubilam a realidade.

Hoje observamos um caos no mundo da linguagem. As pessoas são reféns de sua própria falta de conhecimento. Quem nunca percebeu em uma roda de amigos a presença de um sujeito que tudo que vai falar usa o termo “pa” ou ainda “negócio”, “trem”, etc. São muitas as “palavras” adotadas por esses indivíduos, entretanto se percebe a pobreza do vocabulário atual das pessoas. Nesses mesmos percebemos que não conseguem concluir uma frase sem gesticular em meio aos “pás” e os “trem”. Se fôssemos colocar uma dessas orações aqui seria algo assim: “Mano, pode pá, tá ligado? … esse trem é massa pá?” O que essa pseudo sentença quer dizer eu não sei. As reticências não significam, nesse caso, que a frase foi abreviada, antes porém, que o sujeito que falava travou. Acho que o meu leitor também já percebeu esses intervalos entre as falas dos tais. Produzem um som estranho, penso que se a vida fosse um gibi os quadrinhos hoje, estariam cheios de onomatopeias.

Antes de tudo devemos assinalar dois pontos que nos levaram a essa crise no Brasil. A primeira, e a que mais impactou, é o desaparecimento total da boa literatura. Você deve estar lembrando agora de autores contemporâneos, então eu ressalto: boa literatura. Essa arte deve dar conta do modo de ser do povo e não fantasiar uma utópica nação. Isso não compete nem a literatura fantástica. O povo deve se identificar com a suas publicações literárias. De maneira que se divirta lendo as paginas. A literatura influência de tal maneira, pois nela o povo encontra sua riqueza: a língua, a cultura. Quanto mais os indivíduos lêem, mais sabem empregar corretamente as palavras além do crescimento cultural e intelectual. O sujeito que lê consegue criar mundos na sua cabeça então será certamente mais criativo no emprego, na família, etc. Essa crise na letradura pode se atribuir ao apego exacerbado às universidades, e as universidades estão cada vez piores, não incentivam a criação, mas sim a repetição. Sem contar que os ambientes acadêmicos são cheios de viés, não surpreendente, esquerdista. Acontece que o marxismo quer derrubar uma cultura existente para implantação de uma outra, então começaram por tomar as faculdades, o resultado vemos hoje.

O segundo ponto, seria o pobre sistema de ensino. Uma educação que tem como patrono Paulo Freire, que não permite a correção do erro do aprendiz ou ainda que o indivíduo não pode ser reprovado pois está dentro do saber dele, não pode ir muito longe. E de fato não foi. Eu desafio o meu leitor a questionar crianças do terceiro ano do ensino fundamental se eles sabem as quatro operações básicas da matemática, ou achar um adolescente do ensino médio que leu O Hamlet de Shakespeare.

A realidade, como já foi dito, é muito ampla e rica. Compete a nós compreende-la. Para isso devemos nos preparar. Cada um percebe apenas o que pode perceber. Nessa impreita razão e fantasia são aliadas.

Dostoiévski tem citações que podem te ajudar a entender onde eu quero chegar. “O mistério da existência humana não reside apenas em estar vivo, mas em encontrar algo por que valha a pena viver”. Com a pobreza intelectual moderna, com o divórcio entre religião e arte, as pessoas começam perder o sentido. Os indivíduos já não sabem dar o valor exato a cada coisa. Então começamos a perceber existências e não vidas. Não estou escrevendo para que as pessoas comecem a ter hábitos literários e pronto. Não. Antes porque alguém tocado pela literatura já não é mais o mesmo.

“Nem mesmo em minha casa uma cadeira é a mesma, pois eu já não sou o mesmo”. É justamente isso. A compreensão da realidade muda. A maneira de ver as coisas não é mais a materialista. As coisas não têm fim em si mesmas. Todos os dias são trechos de eternidade, os quais não retornam ao infinito. A esfera do “não ser” é impensável de ser atingida novamente. O homem que é libertado do materialismo dialético passa a assimilar as coisas numa dimensão de eternidade.

Uma outra citação de nosso autor russo é a seguinte: “Todos somos responsáveis de tudo, perante todos”. Na esfera metafísica temos uma Causa Primeira e um Motor que nos sustenta. Sustentados e criados igualmente por Ele, temos a obrigação moral de corresponder a essa criação produzindo coisas, ou seja, participando da criação primeira. E sustentando-nos mutuamente, participando também da sustentação primeira. Dessa forma o outro não é produto de uma coletividade homogênea e vazia de conteúdo, compreende-se aqui o que é ter semelhantes. O outro é meu semelhante de fato, não por sentimentos. Com essa compreensão seria aniquilado todo tipo de racismo.

Essa visão, a nós cristãos, é muito conhecida, a boa literatura é serviço prestado a Deus. O homem perante a realidade, moldado pelas letras, rende muita glória a Deus, pois percebe que a existência puramente materialista é nada. Percebe que não pode viver sem sua Causa eficiente.

Sócrates certa vez foi perguntado sobre o que fazer para voltar a ser feliz, sua resposta se eternizou no tempo: “Façam aquilo que vocês faziam quando eram felizes”. Se queremos uma nação forte e feliz, sem corrupção ou bandidagem devemos voltar ao modo de quando éramos felizes. Voltar a pensar em estrela apenas como algo da natureza, objeto de inspiração dos artistas. Voltar a um Brasil autêntico, com grandes autores. Estudiosos em todas as áreas.

Então se você quer sair da mesmice, procure primeiro uma boa leitura, e a partir dela busque atos de uma visão ampla, cheia de realidade, sem deixar de ser fantástica. Encerro com outra citação/conselho de Fiódor Dostoiévski: “Não é o cérebro que mais importa, mas sim o que o orienta: o caráter, o coração, a generosidade”.

Thiago Lima

Direto de Vila Boa. Interessado em tudo que o mundo moderno desconhece. Aceito um café. Cum gaudium et Pace!