Santa Carona

UMA ÓPERA DE ÓDIO

“Los que defienden las revoluciones citan discursos; los que las acusan citan hechos.”
Nicolás Gómez Dávila

 

Parece estranho, mas vemos nesses dias uma reprise macabra de episódios passados em diversos lugares do planeta, não fazem muitas décadas. Loucos planos de harmonia mundial humanitária racionalista, alternativas racionais e materialistas que colocaram numerosos cristãos: homens, mulheres e até mesmo crianças, em condição de entrega completa ao Cristo. Para os que viveram naqueles dias a escolha estava entre aderir ao que o Estado totalitário comandava, uma idolatria materialista e culto estatal (uma forma de religião política) ou manter-se firmes na fé custe o que custar. Não precisaremos retornar até as cruéis exibições dos espetáculos proporcionados às custas do martírio nos circos romanos. O século XX nos deu provas suficientes que os tiranos atuais são mais brutais, bárbaros, bestiais que os romanos. Uma breve trajetória poderá mostra-nos o que sofreram aqueles que resolveram permanecer sob a sombra projetada do madeiro da cruz.

*

Após a Revolução Russa a recém-criada URSS, governada agora pelos bolcheviques, passaria a tentar implantar os desígnios do materialismo-histórico e buscaria colocar abaixo toda a forma de religião. Como bons comunistas revolucionários que eram, proclamavam que seu objetivo era eliminar completamente toda a religião da URSS[1]. O impulso contra a religião formou, nos anos 1920, a Liga dos Ateus Militantes que usaram de grande propaganda e de material editorial para seus fins. A ação desses, alinhou junto aos planos econômicos do governo,

pois lançaram-se também planos quinquenais ateístas, o primeiro em 1927 e o segundo em 1932. O primeiro foi conduzido um tanto em surdina, ao passo que o segundo exigiu muita propaganda; e o último ponto de seu programa dispunha o completo desaparecimento do nome de Deus, no território da URSS, por volta de 1937.

Essa ação inicial não surtiu muito efeito, vendo que o sentimento religioso não abandonava boa parcela do povo russo, e assim foi necessário repensar a possibilidade de usar a religião. Primeiro veio uma onda de registros e emissão de permissões governamentais para a reunião e o culto. Mas o passo mais firme veio, depois de prisões de bispos (ortodoxos e romanos), o encontro entre o metropolitano Sergii que guardava a Sé Patriarcal de Moscou, os demais metropolitas Aleksii e Nikolai junto a Stalin. O resultado desse encontro foi a “eleição” (suspeita sob todas as formas) de Sergii como o Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa quatro dias depois da reunião (a data foi 8 de setembro de 1943). Inicia-se assim, uma fase de controle da igreja pelo governo, a qual teve uma colaboração ainda mais eminente quando Sergii morre em 1945, Aleksii assume o patriarcado e a propaganda feita pela igreja, do regime comunista foi cada vez maior.

O patriarca Aleksii subscreveu certo número de mensagens nas quais declarava a lealdade aos chefes do Estado. Chamou Stalin “um líder sábio, escolhido e nomeado pela divina providência para conduzir a Pátria na estrada rumo à posteridade e à gloria”. Com idêntico espírito, expediu apelos e mensagens por ocasião de vários aniversários soviéticos e enviou inúmeros telegramas de saudações. O patriarca Sergii já havia iniciado essa orientação; o patriarca Aleksii, conforme ele próprio admitiu, estava “seguindo fielmente os passos de seu predecessor”. Na realidade, porém, nisso ele foi mais longe que Sergii. Referindo-se a Stalin, disse: “Nossa santa Igreja tem nêle um protetor fiel”[2].

A vigilância e os arranjos feitos junto ao patriarcado transformou a Igreja Ortodoxa Russa em uma instituição estatal[3], que foi perdendo a sua força espiritual e se tornou um mero meio de controle. Não podendo vencer o espírito religioso, tornou a religião politicamente engajada, ferramenta de propaganda política. E se prestarmos atenção, essa ação tende a corroer a fé da comunidade, tornando a religião um simples símbolo externo, sem espiritualidade. Caso uma parte da igreja não tivesse se exilado e vivido escondida, celebrando e ensinando corretamente sua fé de forma oculta, a Rússia não teria mais espiritualidade cristã.

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Caminhando em terras americanas também vemos uma similar tentativa de destruição e controle da igreja. Agora no México, país de espírito católico forte e muito fervoroso. Passamos para a perseguição feita pelo governo proibindo o culto religioso, a ação sacerdotal e até mesmo a criação de uma igreja nacional[4]. Acontecerá um evento de proporção nacional que será conhecida como a “Guerra dos Cristeros”, onde a população católica mexicana fazendo uso da disposição da guerra justa[5], levanta oposição armada ao governo tirano de inspiração maçônica que tinha por um de seus objetivos simplesmente varrer a presença da Igreja Católica do país.

O governo de Plutarco Elías Calles decidiu aplicar à risca a Constituição revolucionária de 1917, que curiosamente é estudada até hoje como um modelo de constituição democrática! O texto dessa Constituição previa tudo aquilo que de fato ocorreu quando o governo resolveu aplicá-la: violenta perseguição e opressão da população mexicana, de raízes profundamente católicas.

Primeiro tentaram convencer o clero e a população de separar-se de Roma e manter-se “católicos” criando um cisma. A tentativa de formar a “Igreja Católica Apostólica Mexicana”, isso visava uma tentativa de controle e de minar o espírito religioso mexicano, mas não funcionou, pois, apenas três clérigos responderam ao chamado de cisma e a população não aceitou tamanho disparte. Logo após vieram as perseguições: igrejas sendo proibidas de abrir e até mesmo foram depredadas, profanadas. Padres proibidos de seus ofícios e até mesmo de usar as vestes clericais, prisão e martírio de uma série de cristãos que negavam blasfemar e apostatar da fé que guardavam[6]. As barbáries do governo mexicano igualavam-se à humilhação que os turcos impuseram aos armênios, exibindo corpos enforcados de cristãos nos postes que ladeavam as linhas de trem. O conflito foi sangrento chegando ao ponto de ocorrer negociações entre as partes para encerrar a peleja que estava instalada sem previsão de fim que não fosse a obliteração de uma das partes.

Plutarco tentou controlar e depois proibir a vida dos cristãos no México, mas a força deles foi maior e a resistência conseguiu trazer novamente a liberdade ao povo cristão do país.

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Retornando ao Leste Europeu, vamos para a terra do conde Drácula, Romênia. A ditadura comunista de Nicolae Ceauşescu criou uma forma de controle da vida pública e privada da população romena que impedia qualquer forma de manifestação pessoal. A vida era rigidamente marcada pelas formas de controle e a Securitate, a polícia secreta romena, rivalizava em termos de violência e opressão sobre o povo.

Para além da vigilância política, como todo o governo comunista eles abominavam e esperavam o dia do fim da religião e o completo abandono da fé. Em condições como essa o governo comunista de Ceauşescu promoveu violações da dignidade humana de colocar a prova quaisquer outras abominações cometidas. São relatos que mais lembram o Saló do Marquês de Sade do que algo feito contra seres humanos fora do âmbito da literatura. A cidade de Pitesti foi o palco dessas atrocidades. O relato abaixo mostrará o mais baixo nível de profanação que foi alcançado e a constante blasfêmia que habitava as torturas realizadas.

A Securitate, polícia política romena, utilizou os instrumentos clássicos de tortura durante os interrogatórios, espancamentos, pancadas nas solas do pés, suspensão dos pés junto ao teto com o indivíduo de cabeça para baixo. Em Pitesti, porém, cidade da Romênia, tudo isso foi ultrapassado. O corpo era queimado com cigarros, partes do corpo de alguns prisioneiros começavam a gangrenar, caíam como as dos leprosos. Outros eram obrigados a ingerir excrementos e os vomitavam, sendo o vômito lhes enfiado garganta abaixo. A imaginação delirante de Eugen Turcanu, um dirigente comunista romeno, diretor da prisão e encarregado das torturas, se excitava sobretudo com os estudantes religiosos que se recusavam a renegar Deus.

Alguns eram batizados todas as manhãs: enfiavam-lhes as cabeças num tonel cheio de urina e fezes, enquanto outros presos recitavam em voz alta a fórmula do batismo. Para que o torturado não se asfixiasse, de tempos em tempos sua cabeça era levantada do tonel, a fim de respirar.

Quanto aos seminaristas, Turcanu os obrigava a oficiar missas negras que ele próprio encenava, sobretudo durante a semana santa. Alguns desempenhavam o papel de meninos do coro; outros de padres. O texto litúrgico de Turcanu era pornográfico e parafraseava de forma demoníaca o original. A Virgem Maria era referida como “a grande prostituta” e Jesus “o imbecil que morreu na Cruz”.

O seminarista que desempenhava o papel de padre devia despir-se completamente. Depois era envolvido por um lençol sujo de excrementos e lhe penduravam no pescoço um pênis enorme confeccionado com sabão. Na noite que antecedeu a Páscoa de 1950, os estudantes em “curso de reeducação” foram obrigados a passar diante do “padre” e a beijar o pênis dizendo: Cristo ressuscitou!…

Em 1952 as barbaridades descritas foram denunciadas à Europa por rádio, obrigando as autoridades comunistas a pôr fim a este tipo de “reeducação”. A cúpula do partido, pressionada, eximiu-se da culpa e a colocou toda em Turcanu e mais seis cúmplices. Eles foram condenados à morte e executados, mas a cúpula, que com certeza conhecia os métodos do subordinado, saiu ilesa[7].

A imaginação demoníaca que opera em pessoas com tamanha sede de rebaixar a religião é terrível. Mais uma opereta profana que tenta por fim à religião. Mais uma ação revolucionária de viés totalitário comunista[8].

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Os acontecimentos citados acima estão distantes de nós algumas décadas. Talvez a iluminação progressista de algumas mentes brilhantes possa dizer que não tem mais relação com os nossos dias. Mas temos cada vez mais que olhar para as proximidades e ver o que é possível de se realizar. Mediante a promessas de algum pré-candidato (que está em vias de ser julgado) de censurar a mídia, ao passo da desolação da vizinha Venezuela que há décadas sofre nas mãos de um governo comunista versão América Latina, agora é a vez de mais um governante colocar as cartas na mesa de uma vez. Na Bolívia uma constituição é aprovada e entre aborto, eutanásia, porte de substâncias entorpecentes, temos a impossibilidade da liberdade de culto dos cidadãos. Nessas condições, os cristãos estão sendo severamente perseguidos e clamam para aqueles que podem ouvir que alguma coisa seja feita. No Brasil, a imprensa está muda, e pouco se fala do regime ditatorial que existe ali (que foi implantado com auxílio do Partido dos Trabalhadores do Brasil, só para contextualizar). A CNBB também não se manifestou. Mas para o restante, em geral, nada há de se assustar. Vimos acima que governos totalitários tem um desejo satânico de destruir as religiões, sejam com planos de supressão, por domínio ou por profaná-las. O ciclo está se fechando na Bolívia, onde uma “igreja” local até foi proposta.

Não tendo mais nada escondido do plano de destruição do ser humano em prol da ideologia, do partido e dos loucos ideais de algum líder, o incrível é que ainda vemos defesas acaloradas ao mesmo sistema de governo que já causou e ainda hoje está a causar tanta desgraça. Pedem possibilidades de experiência, mais uma chance para teste, “agora vai, sem a intromissão do capitalismo-neoliberal”, mas todas as formas de aplicação inicial sempre redundam na destruição do ser humano que sempre foi pavimento dessas ideologias. É mais uma forma de relembrarmos a infelicidade do século XX, não tendo coragem de abandonar o sonho adolescente de um mundo perfeito, a “gonorreia juvenil” como nos lembrou Roberto Campos, o ser humano ficou preso nas engrenagens da sua própria destruição.

Analisando o que está ocorrendo, vemos nada mais que o estado totalitário comunista avançando em seu processo de controle da sociedade, da vida pública e privada dos habitantes desses países latino americanos. O estado passa a se colocar como aquele que decide tudo que pode acontecer na vida de alguém. Torna-se o elemento que deve prover tudo, até mesmo a salvação, para a pessoa. Estamos na formação de uma religião política em versão paródia das mais mal elaboradas.

Essa contínua repetição das mesmas desgraças ideológicas, tantas vezes feitas e sempre às custas de rios de sangue, é a execução de uma verdadeira ópera de ódio. Uma peça de proporções épicas e de resultados trágicos que tenta coletivizar a alma do povo, castrar todas as possibilidades de crescimento humano, eliminar sua dignidade. O primeiro ponto que devemos nos ater aqui é ao aspecto do funcionamento do socialismo junto ao homem e tentar destruir a pessoa humana em sua essência e também voltar todos contra Deus.

Temos que ter sempre em mente a realidade individual, que determina a pessoa humana em si, o indivíduo, e a sua realidade como tal dentro de um mundo. Ambos os fatores devem estar presentes para que o homem possa realizar-se. Tal existência e individualidade está marcada na compreensão do ser humano não como unidade independente, mas como unidade que se relaciona. Vicente Ferreira da Silva lembra que o homem não é um ser sem mundo,

algo que pode ser apreendido independentemente de sua inserção num contexto circundante. Existir é essencialmente um estar-no-mundo, estar exposto a um mundo, sendo realmente a nossa existência e a realidade formadora do mundo[9].

Dentro dessa realidade da interação indivíduo e mundo, indivíduo sociedade, a pessoa busca sua realização individual, a atualização das potências que possui, e entre elas está a sua capacidade de transcender a si mesmo. O crescimento e realização dão-se com a soma de conjuntos dispostos, matérias e imateriais, os imantes e os transcendentes. A predominância da noção de conjunto, do “espírito social”, sobre a nossa individualidade é responsável por deteriorar cada vez mais as possibilidades de crescimento e de enriquecimento da pessoa humana.

É ainda com Ferreira da Silva que encontramos uma denúncia do que é um dos fatores de maior importância para a destruição do indivíduo: a educação institucional estatal. Sabemos que nada cria mais ilusões utópicas que a ferramenta educacional, estatal e obrigatória, na qual uma quantidade enorme de crianças e adolescentes estão expostos a teorias ideológicas. O discurso comunista e hegemônico e não enfrenta contrapontos nas apresentações escolares. Assim, Vicente destaca que

através da educação, entretanto, a força promotora e formadora da solicitude social avança um passo e acaba condicionando o detalhe do tipo humano na própria intimidade de sua essência. O espírito social invade o reduto da nossa singularidade e através das formações simbólico-linguísticas nos instala na regra inelutável de uma interpretação de todas as coisas.

E isso tudo acaba tornando cada vez mais difícil para o indivíduo o papel de crescimento que escape ao planejamento estabelecido pelo “valor social” que é determinado pelas vias estabelecidas de acordo com o a matriz governante.

Assim chegamos na constatação de que

na medida em que pela imposição socioestatal do despotismo ou da prepotência de um princípio ideológico oprimente nos compaginamos com uma forma existente – somos o proletariado, os camaradas ou o homem solidário – fenecemos em nossa liberdade e não gozamos mais de qualquer exuberância em relação às coisas.

Essa é a condição que vivemos: a perda da liberdade. O momento de angústia no qual estamos, perante a afirmação vinda de um historicismo tacanho de que nada pode interromper a marcha das transformações históricas até a nação perfeita [sob o comunismo], devemos também perceber o efeito que gerou no homem colaborar para a propagação dessa concepção e a sua situação. Gabriel Marcel lembra que no embalo da constatação expressa por muitos de que “Deus está morto”, esquecíamos de prestar atenção na sentença de que “o homem está em agonia[10]”. Esse homem em agonia acabou por ser vítima do mundo que perdeu seu sentido, da distância de Deus e da sua substituição por uma série de ideologias. Angustiado, com cobranças vindas de uma condição de vida que clamava a uma ação, com uma consciência que levaria a outra reação, ele perder a liberdade de ter a vida em plenitude, de ter em acordo seus atos e sua consciência. Essa forma de viver, sob o domínio das ideologias é o que Marcel combaterá. Nesse combate ele nos diz que

temos de proclamar que não pertencemos ao mundo de coisas a que querem assimilar-nos e onde querem encarcerar-nos. Muito concretamente temos de proclamar que esta vida, tecnicamente transformada na horrível e contorcida paródia de tudo quanto veneramos, pode não ser na realidade senão um setor insignificante de um desenvolvimento prolongado para o além do visível” […] “As filosofias da imanência fizeram o seu tempo e revelaram a sua irrealidade constitutiva, ou, o que é infinitamente mais grave, a sua cumplicidade com idolatrias que importa assinalar implacavelmente; idolatria da raça, idolatria da classe.

Preso e sendo transformado cada vez mais em uma coisa, sendo imposto aos esquemas da idolatria por via instituída de forma coerciva pelas vias institucionais, o homem perde sua categoria como pessoa, como indivíduo. Perde sua liberdade. E liberdade essa que deve ser sempre marcada pela sua capacidade de ligação com o transcendente. Essa liberdade e conexão pessoal com o transcendente revela-se também no cultivo e ensino de valores universais, que criam não apenas no indivíduo, mas em uma comunidade, as condições necessárias para a realização de si e o saudável convívio com o próximo. A relação do ser com o outro parte das noções de bem, verdade, beleza, amor, sem as quais, movidos pelas normas legislativas democráticas e artificias forjadas por governantes totalitários, temos apenas formas de uma falsificação da transcendência, uma ideologia que sempre trará uma parcela do inferno para a terra.

O processo implantado pelos atuais governos ditatoriais comunistas bolivarianos é a aplicação forçada, não mais gradativa, da eliminação da capacidade de liberdade mais íntima dos indivíduos do país. O impedimento do culto religioso mina a liberdade da pessoa e busca tentar exterminar a capacidade de transcendência, sendo que não só os serviços religiosos comunitários ficam ameaçados, mas o diálogo pessoal, a leitura e comentário de um material religioso. O atual processo em que encontramos esses governos é a construção do estado socialista, sua aplicação de controle total. Lembra-nos, mais uma vez, Ferreira da Silva que nessas condições o homem não é mais que um tijolo ou argamassa da ordem política, e que “a construção do socialismo se realiza unicamente pela proscrição da liberdade; é no fundi essa própria proscrição em ato e realizando-se. O que resta do homem sem liberdade é o socialismo, o ocaso final da liberdade”.

Essa luta contra o homem em sua individualidade e essência sempre estará colocada como uma revolta metafísica. Sendo que esse ódio se manifesta nas sequências revolucionárias que vão sendo realizadas, e assim ganhando espaço e satisfação na sua ação contra o homem. Mas lembremo-nos das histórias iniciais: toda vez que essa revolta ocorre contra os homens em prol do partido/governo, ela atinge também a blasfêmia. Aqui vemos o eco da breve nota de Albert Camus, ao dizer que “a revolta contra os homens se dirige também contra Deus: as grandes revoltas são sempre metafísicas[11]. A organização criada a partir dessa revolta que se mostra contra a pessoa humana para a criação de um mundo ideológico pavimentado com os crânios dos homens é o resultado da realização comunista.

Voltando aos escritos de Vicente Ferreira da Silva encontraremos mais observações importantes sobre esse fator. A questão exposta é que

o comunismo apresenta-se ideologicamente como a organização da subjetividade, do por-si do homem, organização na qual as realizações sociopolíticas não se interpretam mais na livre expressão das forças pessoais e humanas;

assim tudo deverá ser ordenado segundo o princípio ideológico. E claro que

o comunismo, desta forma, enquanto luta contra o sentido religioso-criatural não só advoga um ateísmo opcional e aleatório, mas é em sua essência um ateísmo corporificado ou prático. Como escreve Marx: “a religião não é mais que o sol ilusório, que se move em torno do homem, enquanto o homem não se move em torno de si mesmo”. “A crítica da religião leva à doutrina de que o homem é para o homem o ser supremo”[12].

Não podemos estranhar a completa necessidade de destruição. O sistema ideológico cria uma infinidade de “lacaios do pensamento”, para usar a expressão de Doistoiévski em Os Demônios, que propagam aos quatro cantos um ateísmo incrustado neles pela ideologia ditatorial. Há ainda mais que podemos retirar dessa mesma obra do autor russo. Sobre os revolucionários que surgiam naquele momento, os mesmos lacaios já mencionados, o personagem Chátov diz:

Aí também existe ódio — pronunciou ele depois de um minuto de pausa —, eles seriam os primeiros grandes infelizes se de repente a Rússia conseguisse transformar-se, ainda que fosse à maneira deles, e de algum modo se tornasse subitamente rica e feliz além da medida. Nesse caso, eles não teriam quem odiar, para quem se lixar, nada de que zombar! Aí existe apenas um ódio animalesco e infinito à Rússia, ódio que se cravou fundo no organismo[13].

Falando na situação de criação de uma ideologia, do comunismo em específico, este só sobrevive de sua revolta completa pela realidade individual e a tentativa de eliminá-la. Isso não é nada mais que ódio, a revolta que ataca o homem e Deus, alimentada por esse sentimento. E ele sempre existirá, criaram a cada etapa um inimigo novo, alguma categoria de pessoas que serão transformadas em novos burgueses e deverão ser destruídos pelo proletariado ameaçado.

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Com a observação de alguns eventos históricos e de análises filosóficas de posturas ideológicas é nítido que os eventos atuais vividos pelas pessoas nas ditaduras comunistas na América Latina em nosso século não são estranhos. O estranho é que nem mesmo os exemplos históricos, nem mesmo as observações dos pensadores foram capazes de despertar a consciência das pessoas que isso aconteceria. Enquanto de um lado trabalhavam em meio ao combate do avanço da ideologia nomes que pouco são expressivos em nosso meio, no debate público, os ideólogos e seus intelectuais dominavam todos os setores da sociedade que pudessem vir a disseminar como normal e até benéfica a idolatria ideológica. A destruição do homem e a revolta contra Deus já estava anunciada, já havia sido colocada em prática, mas muitos ainda foram ingênuos o suficiente para colaborar com os políticos que alçaram o cargo de governança e foram responsáveis por financiar as ditaduras dos países vizinhos.

A anulação do homem e a blasfêmia contra Deus era algo programado. “A superação de Deus é a própria realização do comunismo”, disse Ferreira da Silva. A questão é que lá, na Venezuela e Bolívia, isso foi imposto pela força e nós estamos vivendo isso, perdendo nossa liberdade por conta da quantidade de imposições politicamente corretas que criaram. Uma inversão e destruição de valores que estão corrompendo nossa própria liberdade. Eis a aplicação da ideologia revolucionária. Comemore hoje a revolta contra o homem e a expulsão de Deus de um povo. Mas saiba que logo o tempo de novos inimigos da ideologia surgirão.


 

Notas

[1] IWANOW, Boris. Religião na URSS. São Paulo: Dominus Editora, 1965. As referências ao assunto da igreja russa são todas desse livro caso não seja feita outra referência.

[2] Aleksii era tão bem visto pelo governo soviético que recebe uma medalha pela defesa de Leningrado (1945), depois recebeu em 16 e 31 de agosto de 1946 a “Ordem da Bandeira Vermelha”, condecoração dada por serviços prestados ao comunismo. Recebe novamente a comenda em 1952 por serviços patrióticos. Tamanho esforço por colocar-se a disposição do comunismo mostra uma proximidade muito grande do patriarca com a política soviética.

[3] Uma ilustração interessante dessa realidade é a figura do corvo no romance de Gerorge Orwell “A Revolução dos Bichos”.

[4] Sobre esse trecho ver: DELGADO, Enrique Mendoza. A Guerra dos Cristeros. Belo Horizonte: Edições Cristo Rei, 2013.

[5] A guerra justa aplica-se depois da avaliação dos seguintes fatores: 1- o dano infligido pelo agressor à nação ou à comunidade de nações seja durável, grave e certo; 2- todos os outros meios de pôr fim a tal dano se tenham revelado impraticáveis ou ineficazes; 3- estejam reunidas as condições sérias de êxito; 4- o emprego das armas não acarrete males e desordens mais graves que o mal a eliminar (ver: CIC 2309).

[6] Entre os mártires mais famosos da Guerra Cristera temos São José Luis Sánchez del Río, beato Miguel Agustín Pro, beato Anacleto Gonzáles Flores, Pe. Francisco Vera.

[7] Trecho encontrado em: COURTOIS, Stéphane [et al]. O Livro Negro do Comunismo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. [na edição utilizada, um PDF famoso divulgado pela internet, o relato encontra-se com o título “O inferno de Pitesti”, na p. 213].

[8] Poderíamos expandir ainda mais os tormentos causados a religiosos no século XX com a própria Alemanha nazista que martirizou, junto aos judeus, uma série de cristãos que foram contrários ao regime; ou então a China maoísta, da Coréia do Norte e até mesmo os acontecimentos da Guerra Civil Espanhola, mas ficarão para outras oportunidades.

[9] SILVA, Vicente Ferreira da. O indivíduo e a sociedade. In: Dialética das Consciências. São Paulo: É Realizações, 2009.

[10] MARCEL, Gabriel. Os homens contra o homem. Porto: Editora Educação Nacional.

[11] CAMUS, Albert. A esperança e o absurdo na obra de Franz Kafka. In: O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Edições BestBolso, 2014.

[12] SILVA, Vicente Ferreira da. Marxismo e imanência. In: Dialética das Consciências. São Paulo: É Realizações, 2009.

[13] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Demônios. São Paulo: Editora 34, 2013.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.