Santa Carona

Por trás do espelho d’água

Existem muitos comentadores de séries que falam de “Black Mirror” ser uma experiência para podermos vislumbrar o perigo das novas tecnologias em nossas vidas. Os episódios são bem focados nessa ideia e as coisas mais absurdas acontecem naquele universo. Um deles elevou a noção de “blogueirinhos” à enésima potência, e para começar a reflexão, façamos uma sinopse.

O primeiro episódio da terceira temporada da série, “Nosedive” (Queda Livre), mostra um tipo de sociedade de pessoas que postam tudo que fazem nas redes (e até aqui nada de novo, já que alcançamos esse nível de demência). Todas as atividades realizadas, os encontros casuais nas ocasiões quotidianas, são avaliadas pelas outras pessoas, os likes fazem uma média do seu perfil e sobre o nível de influência social no seu círculo e fora dele. Todo o momento é analisando as pessoas, visualizando as redes, pensando no que postar e como isso será recebido pelos outros. Estar naquele mundo é ser um blogueiro 24 horas por dia e isso influencia em tudo ao seu redor. O trabalho, os relacionamentos, as possibilidades de acesso a serviços prestados por empresas. Tudo considera sua média de pontuação nas avaliações que são feitas. A personagem principal do episódio, Lacie Pound, está totalmente imersa nesse meio (assim como todos os outros), tudo que faz é para isso. Em um determinado momento acaba recebendo o convite de uma velha amiga, Naomi, que tem pontuação acima de 4,5 estrelas (o máximo é 5), para ser a dama de honra em seu badalado casamento. Lacie precisa chegar ao nível 4,5 porque isso facilitaria a compra de um imóvel em um condomínio exclusivo para influenciadores com essa média. O convite perfeito para elevar sua média porque estaria interagindo com pessoas de alta pontuação. Mas uma série de acontecimentos criam situações catastróficas, tudo começa a dar errado e ela vai despencando em pontuação. Acaba presa, e no isolamento começa a ver que o mundo vai além das avaliações falsas. Descobre o gosto de deixar de ser falsamente “certinha” (considerando o ser certo naquele mundo) simplesmente ao mandar o mundo todo se ferrar.

Como mencionado anteriormente, nada novo. A atual forma de uso das redes sociais é assim. Exibicionismo de uma autoimagem feita de extrema falsidade. E esta chegou a níveis tão monstruosos que a própria pessoa está presa a essa ilusão que criou. Aquele indivíduo que deve se exibir nas redes, antes um “personagem”, agora é “a verdadeira” pessoa. Engolido pela necessidade de likes que realizam uma afirmação de que tudo que a pessoa faz é aceito, de que ela defende as melhores e mais importantes causas, de que ela é linda, é descolada, é importante e admirada. Tudo está medido perante a quantidade de likes que uma publicação pode receber. A falsidade da vida é medida assim: quanto mais se deixou tomar pelas ondas do momento e quanto mais isso ditou quem você é e como essa falsa imagem de si passou a ser idolatrada por você mesmo.

Considerando esse cenário de catástrofe da formação da própria personalidade e da posse de si, poderemos aqui salientar três caminhos de percepção dos efeitos que esse culto ao ídolo formado na internet toma. O primeiro, o da inserção em uma sociedade mimada, onde todos devem ser antenados, palpiteiros sentimentalistas sobre qualquer coisa que esteja em alta nas conversas no cenário midiático. O segundo é a idolatria de si, o erro de criar uma falsa imagem de si mesmo e torná-la objeto de adoração que tira a pessoa do contato com a realidade de si e com a realidade do mundo (e de Deus). Terceiro, o processo de isolamento, de solidão que isso cria a ponto de corromper a compreensão de si, de adoecer e de tornar a pessoa uma estranha distante do mundo, fechada em seu universo fictício onde tudo é a reprodução daquilo que foi isolado no íntimo desse apartamento do mundo, desconsiderando desde a minha própria realidade que não é aquilo que está refletido e também a realidade de mundo e do outro.

A internet é um cenário que reflete bem as demandas sentimentais da geração. Estão todos lutando para serem vistos, cultuando uma série de lideranças, fazendo o que melhor pode ser feito para chamar atenção. Isso prova-se pelo ressentimento que nos torna superficiais a nós mesmos e obriga-nos a viver em situações que julgamos suficientes para tapar o buraco existencial. O sentimentalismo aparece junto a isso, porque é com ele que melhor encontramos causas pelas quais podemos ser vistos, podemos receber uma afirmação externa de nossa imagem fraudulenta que vive em busca de fortalecer-se porque sabe de sua fraqueza. Essa é a condição perfeita para que o ressentimento e o sentimentalismo cresçam no meio da internet. Local para se chamar atenção por excelência, tudo gira em torno de conseguir ter mais aprovação, mais compartilhamentos e likes. O seu sucesso, a certeza de que tudo segue o fluxo para a aceitação geral, o agir em prol de demandas sentimentais do momento, e, porque não, demandas políticas e ideológicas, é o que movimenta nosso espaço cibernético.

Luiz Felipe Pondé foi um autor que, em cenário brasileiro de alcance mais popular, falou durante muito tempo sobre como estamos ressentidos. Esse sentimento de vazio e de necessidade de preenchimento acabou por tomar vários campos da nossa vida e dirige os rumos de grande parte dos debates “inteligentes” que encontramos. A problematização de tudo que possa ser imaginado é um dos efeitos, e a adequação a esse cenário, para ver quem problematiza mais e com mais “lacre” é o critério de aceitação. Quanto mais likes, mais certo você está. Um princípio democrático de eleição pela unanimidade, que já avisou Nelson Rodrigues, ser burrice. Os nossos ressentidos são “pessoas que passam a vida buscando não sentir o que a vida é: falta de sentido, indiferença, incerteza, sofrimento ou o que os psicanalisas chamam de ‘falta’[1]. Tornamo-nos superficiais, tão superficiais que qualquer coisa serve para validar a existência. Aqui a estética toma conta, juntamente com política e sexo. A autoafirmação vinda dos recantos digitais está vinculada profundamente ao vazio da vida. O ressentido contemporâneo é alguém que tornou qualquer coisa efêmera como meio de sentir algo que sirva de suplemento para isso. E aqui vemos o quanto isso é significativo, porque a velocidade com que os objetos de sentido são trocados demostra a insatisfação que todo evanescente causa. Tudo que é líquido (uma lembrança ao velho Bauman[2]) escorre, evapora e logo é substituído por alguma outra coisa que tem a mesma consistência. Mas a neomania (termo de Nassim Nicholas Taleb[3] que seria uma loucura sem explicação por tudo que é novo só por ser novo) faz com que seja aceito como útil e indispensável, e essa condição sempre alimenta a vida digital. Nada torna-se permanente e ser você mesmo, longe de ressentimentos, é extremamente difícil. Impossível se seu desejo é ser notado.

O efeito sentimentalista que vemos é o alimento do meio digital nos últimos tempos. Todas as causas de comoção devem ser amparadas por todos. Todo mundo deve opinar[4], mesmo sem saber nada sobre o assunto. Ao calor do evento que comove, todos tornam-se imediatamente grandes catedráticos sem nunca ter tido contato com uma bibliografia a respeito do tema. Tudo isso simplesmente para mostrar como está antenado. E, claro, tudo pela visibilidade que uma postagem bem redigida pode alcançar na roda de amigos e, se tudo ocorrer ainda melhor, além dela.

O princípio dessa noção de aparecer é mostrado por Theodore Dalrymple no livro Podres de Mimados (É Realizações, 2015), que justamente trata de como vivemos em um mundo cuja necessidade maior é a manifestação dantesca de sentimentalismo para que todos possam ver, e com isso saber, o quão bom você é por preocupar-se com isso. É claro que podemos expandir a noção da preocupação com o próximo para a afirmação da figura de quem se preocupa. Ser bem visto, cair na boa vista dos outros é o que mais se busca. Tudo deve ser documentado por isso: todos devem ver, todos devem avaliar, todos devem aprovar o que você faz. A vida é algo que precisar ser aprovada por outros, você deve ser alguém que se enquadre nos padrões ideológicos que estão na moda, se são aceitos pela maioria ou se estão apenas chocando, isso não importa. Deve mostrar apoio até à liberdade de alguém casar-se com um cachorro se for para mostrar que você é muito liberal, desprendido dos padrões tradicionais e preocupado com os direitos dos outros. É uma nova redoma de vidro[5] na qual estamos presos, e dessa vez, devemos ser visíveis para o mundo.

Dalrymple esclarece que o sentimentalismo não é você derramar uma lágrima por causa da morte de alguém em particular, longe da visão de todos; isso deve ser feito para que todos possam ver. Não adianta viver uma experiência singular e manter aquilo apenas na sua intimidade; todo mundo deve saber que aquilo foi indescritivelmente bom. “Nesse mundo, aquilo que é feito ou que acontece em privado não é feito ou não aconteceu absolutamente, ao menos não no sentido mais pleno possível”[6]. É necessário um check in que comprove sua estada em algum lugar. Precisa fazer um texto enorme (e que poucos irão ler) para mostrar-se condoído com aquela tragédia ocorrida. A mudança na foto de seu perfil em prol de um atentado terrorista qualquer também é praxe. Tudo deve estar devidamente registrado. E os efeitos de obsessões como essas transpassam, em muitos casos, os campos cibernéticos e entram na esfera da política pública, o que mostra o quão afetado podemos ser com um coro de pessoas chorando.

Claramente essa postura mostra a tentativa de tornar essas manifestações externas uma questão moral, e a partir de tais quesitos seremos julgados bons ou maus. Ficamos disponíveis para que qualquer um possa realizar uma avaliação, para que passem a diante uma imagem nossa. Essa imagem que eles passam é a que buscamos construir com nossas ações expostas nas redes, com nossas manifestações. Quanto mais nos expusermos, mais conseguimos imprimir uma imagem, e normalmente não é a real imagem de si, mas uma espécie de caricatura grotesca de tudo que poderíamos ser. Sendo que não há mais a distinção entre o público e o privado, tudo ficou aberto e passível de contemplação mundial, Dalrymple lembra que tendo em vista essa abolição “a vida, por conseguinte, fica mais rasa”[7]. O caminho é o mesmo do ressentimento, os dois andam de mãos dadas. E logo vemos a politização de ações sentimentalistas, validadas pela eterna exigência de direitos, como por exemplo, o direito à felicidade. Estamos frente a uma manipulação da própria realidade, porque tudo isso demanda uma maneira de negarmos certas realidades em prol de alguma loucura sentimental que toma seu lugar. “O sentimentalismo demanda o apego a um conjunto de crenças distorcidas a respeito da realidade, e também à ficção da inocência e da perfeição, atuais ou potenciais”[8]. É essa loucura que mostra a forma como se vive no cenário da série supracitada e das vidas contemporâneas na internet: o esquecimento da própria vida e de suas complexidades; o esvaziamento de si, a perda da posse de si em troca da aprovação constante de quem nos acompanha. A vida digital em nossa era das redes sociais é uma mentira ainda pior que o puritanismo vitoriano (mostrado uma farsa pelos romances de Proust).

Mas essa nossa mentira é grave, porque mentimos tanto, que acreditamos que a nossa imagem falsa é nosso verdadeiro ser. Passamos a uma idolatria desse novo ser, dessa imagem que não é o nosso ser real, mas uma absurda mentira. Perdemos a posse de nosso ser para nos adequarmos ao que se pede. Ficamos tão apaixonados por nós mesmos, por esse falso eu, que caímos em idolatria. Cometemos o mesmo erro de Narciso.

Nesse trajeto, falta a posse de si, ou seja, a compreensão de nossas potencialidades e como isso nos leva à realização daquilo que nos dará, ao final da via, uma biografia que demostra uma unidade da existência. Quem levantou essa questão foi o professor Tiago Amorim no livro Por que não somos felizes? (Simosem, 2016), no qual faz um trabalho interessantíssimo sobre como alcançarmos essa posse e não nos perdermos em uma morte biográfica. Considerando que a vida é a construção do nosso ser entre as suas possibilidades, entre, como diria Ortega y Gasset, “eu e minhas circunstâncias”[9] e a realização do vir-a-ser que há em cada um, desistir da construção de si mediante todas as possibilidades por termos nos prendido a alguma pequena miséria, ou ainda termos ficado com medo das grandezas da vida é a morte biográfica. De modo geral, ela também pode ser vinculada na adesão à massa medíocre que se forma e impede a realização das pessoas. A supressão do indivíduo e de sua realidade única em meio a adequação das demandas sentimentalistas, das ações políticas e das intenções sociais movidas pelas ideologias coletivas são maneiras de matarmos nossa realidade e perdermos a possibilidade da realização de nossa vocação.

Isso fica bem claro quando observamos que

Se escolho a multidão, o todo mundo e ninguém, é disto que se tratará meu reino interior: de uma multidão de vozes disputando caoticamente um lugar de destaque. Abafada pelos gritos cada vez mais altos e histéricos (Fale de política! Entra nessa polêmica! Pontifique sobre alguma coisa! Chame a atenção de seus alunos! Escreva algo de impacto! Compre aquela coisa também! Poste uma foto!), a pessoa que cada um é não terá condições de falar claramente. Em resumo, todas as outras vozes darão o tom da narrativa biográfica e os milhares de personagens farsescos assumidos de maneira instantânea e intermitente impedirão que o personagem real ganhe o primeiro plano.

As redes sociais comprovam com nitidez assustadora: onde estão as pessoas? Por trás de tantas caricaturas e personagens mal interpretados, onde elas moram? O que fazem qual sua voz, como sentem verdadeiramente o mundo? Quem realmente reza como se dependesse do auxílio divino para não danar sua vida? Quais, daqueles que gritam sem parar, dariam suas vidas pela realidade e não por sua explicação?

Quem, dentre nós, está a falar em nome próprio e com o vigor peculiar daqueles que habitam como soberanos os seus reinos interiores?[10]

Pois bem, diante a tantas questões vemos os malefícios que atraímos ao não conseguirmos agir com a real posse de si. Verdadeiramente estamos paralisados perante uma confusa autoimagem que impede, pelo nosso amor ressentido que foi despendido a ela, a real percepção do nosso ser. O espelho d’água, a tela do computador que reflete a todo momento essa maldita caricatura, é o túmulo da nossa vida. Estamos a repetir um arquétipo famoso.

O que surge nesse contexto é um amor-próprio que começa a esmagar-nos. Condição essa que precisa ser validada e busca, além da autoafirmação constante dessa fraude, a maior quantidade de validações externas possíveis. A medida que o amor-próprio vai tomando maior força a pessoa tende a não ver mais nada, mais ninguém a não ser ele mesmo. Tudo mais tornar-se-á meio para a promoção da falácia que é sua falsa imagem. Um enamorado da mentira que criou sobre si, distante da realidade que pode vir a ser e preso ao amor-próprio. Esse é o novo Narciso que a todo momento examina o seu espelho d´água na contemplação do próprio reflexo.

A realidade que vemos nessa situação é a mesma do mito, no qual percebemos que

O crime de Narciso é preferir, no final, sua imagem a si mesmo. A impossibilidade em que se encontra de unir-se a ela só pode produzir nele o desespero. Narciso ama um objeto que ele não pode possuir. Porém, assim que começou a se debruçar para vê-lo, era a morte que ele desejava. Unir-se à própria imagem e confundir-se come ela significa morrer[11].

A observação feita por Louis Lavelle nos remete à morte biográfica. Não procurar a realização de si e viver sob a corrupção de uma falsa imagem é procurar a morte assim como o personagem do mito. E ainda há outra revolta importante a ser lembrada. O louvor da própria imagem (que é justamente aquilo que buscamos com frequência nas exposições exacerbadas das redes) é o mesmo pecado que Lúcifer cometeu. A idolatria está expressa nessa vontade incessante de voltar tudo para si mesmo. Fica claro que

É para obter o gozo de si que ele faz de si mesmo um ídolo, a fim de encontrar diante dele esse objeto do qual possa gozar. Mas somente o sonhador é capaz de produzir assim uma imagem de si; e essa imagem, por sua vez, perece com seu próprio sonho[12].

A revogação dessa imagem ilusória de si é o reconhecimento de nossa própria realidade, de nosso ser como ele é e nos foi dado. Devemos compreender que não há uma maneira de sobreviver em meio a ilusão de si, ao sonho da imagem criada, à alucinação feita pelo meio que habito sobre si mesmo e tomar aquela imagem que me seduziu como a realidade de mim. Não há forma de ser fragmentado e querer buscar as alturas da realização plena. É preciso ser o que se é, mediante a tudo que nos foi dado. É necessário um grande esforço para procurarmos ser como lembra o adágio latino “Sim ut sum aut non sim” (Eu sou como eu sou ou não sou). É ter sempre a consciência da minha necessidade de ser eu mesmo, de não mentir a mim mesmo, de cobrar da minha consciência, o tempo todo, que eu não posso ocultar a minha realidade como ser de mim, e por consequência dos outros. É lembrar que

O dever mais alto, a dificuldade mais sutil, a responsabilidade mais grave, é ser tudo o que se é, assumir todo o encargo e todas as consequências disso. A franqueza me liberta ao me dar coragem. É a mentira que me esvazia[13].

Frente a um mundo que clama pela exibição de tudo, frente a um ego que quer ser transformado no centro dessas atenções mundiais, nada mais resta a não ser procurar a sinceridade a todo o custo. Realizar um trabalho de imersão pessoal e descobrir o que há no fundo, no mais íntimo do nosso ser e que é negado em prol da autoimagem enganadora formada de si e do ídolo do amor-próprio. Veremos que o ato de sinceridade nos revelará isso, pois “ser sincero é descer ao fundo de nós mesmos para descobrir os dons que nos pertencem, mas que nada são senão pelo uso que fazemos deles”[14]. Essa sinceridade tende a transformar nossa relação com nós mesmos e com o próximo. Vamos combatendo o amor-próprio e apagando a caricatura de nós. Passamos a perceber nossa realidade, as potencialidades que existem no nosso ser e que não são demarcadas pelas modas ou pelos likes. A vida começa a ganhar rumo e o caminho que passamos a percorrer leva a posse de si. É nesse momento que vamos nos despindo do que parecia indispensável, é essa hora que a verdade sobre nós mesmos começa a romper o Véu de Maia. Tudo torna-se mais claro e o nosso ser começa a ter uma forma real, não ilusória e que não mais sustentará um objeto de idolatria (minha e de outros).

É uma correspondência que necessita da nossa percepção da intimidade, da retomada da reflexão, do particular. E que possamos ver nessa observação a necessidade da ação virtuosa, sendo essa não mais uma exibição de si para o mundo, mas um recolhimento que nos mostra a importância de agir como quem está sempre só, e que essa ação revela nossas virtudes e nosso ser. Lavelle diz que “todas as virtudes são virtudes do homem privado, e que a virtude do homem público é ainda agir apenas como homem privado”[15]. Ou seja, não há necessidade de ilusões, máscaras ou exibicionismos. Nossa ação deve ser a ação de quem se vê por completo, não como o reflexo no espelho d’água no celular. A condição dessa busca é ter em mente que “a vida real é a vida humilde e comum, visível apenas a um número muito pequeno de seres que convivem de maneira mais íntima, e dela logo se afastam os que são ávidos de aparecer e buscam brilhar num palco maior”[16].

Conseguir enxergar tais questões é ir de encontro com a sabedoria, e ela nada mais é que “uma aptidão não a se dominar, mas a se possuir. Ela converte o ser que nos é dado num bem sempre presente e que cresce indefinidamente”. Possuir a sabedoria, enxergar a virtude, tomar posse de si e não mais iludir-se com o amor-próprio. Isso é procurar não só uma retidão de vida, mas uma presença plena diante de Deus.

Ora, a condição que vemos é que não sabemos lidar com nós mesmos. Assim, também não sabemos lidar com o outro. Fechamo-nos em um universo particular, onde não resta dúvidas que ficaremos solitários com nossa própria miséria, vivendo para a satisfação de umas poucas possibilidades isoladas e já cristalizadas de nós. Nosso ser perde-se em uma doença, em uma solidão auto imposta, porque não conseguimos tratar do que nos causa angústia. A condição que vivemos é a de átomos sociais, egoístas e

fechados que só tinham a noção do seu prazer e satisfação individuais. Num tal sistema de egoísmos é evidente que a argúcia, o dissímulo e a mentira e, em geral, todas as formas fictícias do comparecimento diante do outro deveriam prevalecer sobre o gesto generoso da confissão e amor pessoais. A máscara que o homem exibia diante do outro era mais conveniente para seus fins e apetites do que a tradução fiel de sua realidade como pessoa. Os homens relacionam-se como átomos isolados e na busca desvairada do prazer organizavam-se como determinações exteriores, num entrechoque periférico de desejos exacerbados[17].

Na observação feita por Vicente Ferreira da Silva sobre o papel da solidão na nossa relação conosco e com o próximo, podemos ver o estrago pessoal e social que isso pode causar em nós. Entre uma má e uma boa solidão, podemos ver que a primeira nos é positiva por ser uma condição imposta por nós mesmos como meio de afastarmo-nos do mundo barulhento e incômodo e, fechados no nosso interior, possamos compreender, em um movimento dialético, nós e o outro, sendo que uma boa solidão é um apartamento que leva a outra união, mais íntima e verdadeira. Já a solidão negativa, surgida da incapacidade do ser humano de reconhecer a si e ao outro, nos causa uma impossibilidade de crescimento, um fechamento das condições que nos levam ao conhecimento da liberdade e da realização do nosso ser[18]. É uma doença que nos leva a perceber o outro como “instrumento de um capricho momentâneo”[19].

Ferreira da Silva, dialogando com outros filósofos da existência, traça um paralelo que auxilia a compreender o nosso tema. É a condição de um ser que se fechou para o outro e para o mundo, impossibilitado do contato com a realidade e, assim, sem meios de desenvolver-se plenamente, o isolamento cria um ser preso em si, sem chance de relacionar-se com o próximo e promover seu crescimento, sua atualização como ser. É fácil notar o domínio que fatores externos possuem sobre nós e como acreditamos sê-los os melhores meios de nossa felicidade. Isso é uma doença. Nosso universo pessoal acredita que esse materialismo e isolamento nessa vontade contra o mundo e a realidade são saudáveis, mas é justamente o contrário. É uma doença que transformou a pessoa em algo falso e preso, alguém artificial, uma vaga caricatura. Ferreira da Silva ainda lembra que “o homem absorvido em sua corporalidade, transformado em coisa, não possui domínio de seus gestos e movimentos, não podendo portanto participar do complexo de atividades da sociedade dos sãos”[20]. Quer dizer que temos doentes iludidos com falsas esperanças e completamente tomados de si que não podem ver a si mesmos como pessoas que são, e da mesma maneira acontece com o próximo. Nossa consciência perdeu o conhecimento da realidade pessoal que somos, do ser completo e pleno de existência que é o próximo.

Tudo gira ao redor dos benefícios que podem ser conseguidos. O saciar-se usa de tudo que se pode ver, e nisso, o outro também passa a ser algo, não alguém. Na nossa base para essa reflexão, o contexto que vivia a personagem, o outro era apenas meio de conseguir bons números e com isso o acesso a benefícios; para nós, no mundo digital das curtidas e da efêmera fama, as curtidas, compartilhamentos e comentários positivos são a força para qual nosso ser petrificado está vivendo. E isso tem uma condição existencial que remete ao próprio peso da vida, o peso da consciência de existência. Não sabendo como viver, perdido em um mundo fragmentado de átomos sociais, ou para usar um trecho de T.S. Eliot, estamos em uma “solidão repentina em um deserto lotado/ em meio a uma fumaça espessa, com muitas criaturas se movendo/ sem direção, e para lugar nenhum”[21]. Não saber viver, ceder ao peso da existência, nos leva a ações de fechamento para o desenvolvimento de nosso ser, ou em melhor síntese feita por Vicente Ferreira da Silva, podemos dizer que “muitas vezes, para ocultar a si mesmo o peso de sua condição, o homem se lança espontaneamente num existir anômalo e inautêntico”[22]. É por isso que tantos se entregam ao efêmero, ao disfarce. É por medo de viver que encontram a morte biográfica e assim se entregam a experiências sem sentido para a vida plena.

Vicente Ferreira da Silva vai nos lembrar que o estágio da nossa civilização é responsável por essa maneira de viver. Hoje, ainda mais que na época em que vivia, os meios de comunicação de massa tornam esse tipo de vida comum e desejável. É nossa sina estarmos em meio ao conjunto amorfo massificado, e acabamos construindo nossa vida considerando tais valores para moldar-nos; somos um bando de mortos-vivos que em meio a uma massa de outros iguais temos a certeza da nossa diferença e individualidade.

Fatalmente chegamos ao nível de vivência em que a impessoalidade, e a falsa vida que levamos passa a criar uma “redução do homem ao limite de sua função profissional, dentro do mecanismo total”, o que para nos pode significar que o outro torna-se apenas um meio para meu uso, para satisfação, e deve ser afastado/descartado sempre que não mais corresponder ao meu interesse prazeroso imediato. Ou seja, “o outro é para mim, não o outro, mas o que me serve no desempenho de sua personalidade profissional” e sob tais condições “somos levados a ver mais o geral do que o particular, mais a classe que o indivíduo, mais a ideia do que a existência”[23].

O cenário descrito e as análises feitas estão nos mostrando um divórcio entre a vida e a realidade. Não estamos realizando nossas possibilidades, estamos com um ser preso ao imediato, a distrações efêmeras, às benesses do agrado ao povo em detrimento da verdade. Verdade essa que começa pela forma como nos vemos e termina na maneira como tratamos o próximo. Falta a abertura de si para a verdade, para a totalidade do real e das possibilidades de atualização daquilo que há em nós. Precisamos realizar a descoberta do outro como forma de entendermos a complexidade que há em nós, que há no próximo e com isso respeitar a pessoa e a vida humana de modo mais amplo e verdadeiro. Precisamos nos sensibilizar para o real, para verdade, e com isso abandonar a falsidade de uma vida fajuta e feita de mesquinharias, acreditando que números ilusórios, comentários vazios e aceitação por conveniência sejam os ditadores de nossas ações.

Precisamos ter a tomada de atitude que teve certa vez o poeta brasileiro Bruno Tolentino. Ele, ao revelar como foi seu processo de conversão ao catolicismo, falou da seguinte forma:

A noção de indivíduo ficou mais clara para mim. Ser indivíduo é ser indivíduo diante de alguém, diante de Cristo. (…) Explico-me: diante de Cristo, você não pode mais trapacear, diante de uma presença não pode ficar ambíguo. Quando a presença é real você fica constrangido. (…) O cristianismo não é uma teoria, não é nem a voz de Deus, é pura e simplesmente uma presença de alguém real, sobrenatural, que está sempre com você e diante do qual você deve fazer tudo o que a vida te impulsiona a fazer. (…) É como a parábola do sal. Cristo é o sal. O sal realça o gosto da comida, não muda o gosto da comida, torna o peixe mais peixe, a carne mais carne. Assim como o encontro com Cristo não muda o que você é, mas agora você se torna você na dosagem perfeita: aquilo para que você era destinado a ser. Eu estou neste processo em que sou cada vez mais eu mesmo. Eu parei de ser uma caricatura de mim mesmo. Como dizia Píndaro: ‘Torna-te o que tu és’. Você se torna o que você é[24].

Haverá um momento que não conseguiremos mais nos ocultar sob a forma de uma falsa imagem. Nenhuma pontuação em rede social poderá livrar-nos daquilo que somos do que nos tornamos. E nessa hora, o horror do nosso retrato putrefato que tanto escondemos no fundo do espelho d’água, será nossa condenação.

 


 

P.s: Texto base para uma formação aos membros do Santa Carona no dia 24 de março de 2018.

 

Notas

[1] A Era do Ressentimento: uma agenda para o contemporâneo. São Paulo: Leya, 2014, p. 9.

[2] Ver do autor Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

[3] Ver do autor Antifrágil: coisas que se beneficiam com o caos. Rio de Janeiro: Best Bussines, 2015.

[4] Pondé tem uma observação interessante sobre os inteligentinhos: “O inteligentinho lê pouco porque fala muito e tem muitas opiniões. Quem lê um pouco mais sabe como é difícil ter opiniões, e, acima de tudo, como é arriscado tê-las”. E essa observação é colocada de forma esmagadora e sem defesa por Olavo de Carvalho, que em um de seus vídeos ao responder um palpiteiro soltou a máximas: “Se você não sabe nada, seu direito de falar é nada” [link].

[5] Sobre essa observação da vida contemporânea em redes sociais como meio de prisão e de controle de nossas ações, ver o texto Visitando a Redoma de Vidro no blog do SC.

[6] Podres de Mimados: as consequências do sentimentalismo tóxico. São Paulo: É Realizações, 2015, p. 76.

[7] Op. cit. p. 79.

[8] Op. cit. p. 86.

[9] Ver a obra do autor Meditações de Quixote. São Paulo: Livro Ibero-Americano, 1967.

[10] Por que não somos felizes? Santos: Editora Simonsen, 2016, p. 80.

[11] O erro de Narciso. São Paulo: É Realizações, 2012, p. 46.

[12] Op. cit. idem.

[13] Op. cit. p. 69.

[14] Op. cit. idem.

[15] Op. cit. p. 169.

[16] Op. cit. idem.

[17] Vicente Ferreira da Silva, Dialética da Solidão e do Encontro. In: Dialética das Consciências. São Paulo: É Realizações, 2009, p. 212.

[18] Sobre o tema da solidão, há o texto A solidão e seus benefícios no blog do site do SC.

[19] Op. cit. idem.

[20] Op. cit. p. 219.

[21] The Family Reunion. London: Faber and Faber, 1963, p. 27 (tradução livre).

[22] Op. cit. p. 221.

[23] Op. cit. p. 225.

[24] In: Francisco Escorsim, “Você precisa botar honra no seu código”, Gazeta do Povo 20/03/2018.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.