Santa Carona

Os desígnios de Deus

As vezes nós questionamos a Deus sobre o porque de tantas complicações e há fases na nossa vida que parece estar tudo desabando, tudo vindo contra, e as lutas aumentam de uma tal forma que quando chega no final do dia o cansaço é tão grande, que dá a impressão que lutamos em uma arena com leões e conseguimos sobreviver. Além dos problemas que vem na nossa vida, nos deparamos com problemas que assolam o mundo, tantas guerras, injustiças, mortes de inocentes, enfim, coisas que pesam a cabeça do homem. É complicado hoje em dia ligar tv sem se assustar ou estressar com algo, dá até descrença de liga-la as vezes, a não ser para ver um filme ou algo que distraia. Como diz uma amiga, se desse para pegar o jornal na tv e torcer só sairia sangue.

Analisando o caos que o mundo chegou e ao observar tantos problemas que nos atingem, muitas pessoas começam a questionar aonde está Deus, se Ele gosta de ver tudo isso, o porque Dele permitir tantos problemas já que nem um fio de cabelo cai da cabeça sem que Deus permita. Lendo uma explicação do professor Felipe Aquino sobre o sofrimento, ele afirma que não é possível para nós explicar o porque uma pessoa sofre deste ou daquele modo, mas na fé cremos que cada caso está contido nos sábios desígnios de Deus e Ele nunca se engana. Somente quando estivermos face a face com Ele é que compreenderemos tudo que acontece conosco inclusive as coisas trágicas que afetam a humanidade.

A Igreja, através do catecismo explica o porque do mal no mundo:

“Mas por que Deus não criou um mundo tão perfeito que nele não possa existir mal algum? Segundo seu poder infinito, Deus sempre poderia criar algo melhor. (S. Tomás de Aquino, S. Th. 1,25,6) Todavia, em sua sabedoria e bondade infinitas, Deus quis livremente criar um mundo ‘em estado de caminhada’ para sua perfeição última. (São Tomás de Aquino, S. Gentios, III,1).” (Catecismo, §310)

Há as provações que vem permitidas por Deus e cuja razão só entenderemos quando estivermos diante Dele e há também o mal que vem em consequência do egoísmo e da maldade humana. Não podemos culpar Deus por tudo, pois afinal de contas Deus nos deu o livre arbítrio, no qual poderemos livremente escolher em fazer o bem ou o mal. Foi um modo de mostrar para o homem, sem imposições, que somos seres miseráveis e que nada podemos sem Deus e que sem a orientação Dele não fazemos nada certo e causamos o sofrimento não só nosso mas de várias outras pessoas também. Muitas das provações permitidas por Deus vem para nos moldar e nos lembrar que há um Deus que zela por nós e que quer que nos aproximemos Dele. Quantas vezes nos momentos de alegria esquecemos de louvá-lo e agradece-lo? As vezes a cruz vem pesada demais, então devemos pedir o auxilio Divino para suportar o peso da cruz, afinal não há como fugir dela e nem devemos, pois se o próprio Filho de Deus teve de suportar uma, porque fugiríamos da nossa?

Deus muitas vezes também permite um mal para que possa retirar dele um bem. Lembrando que Ele não é a causa do mal moral, de modo algum. Mas atente-se, o mal não se converte em um bem, Deus sabe usar do mal para tirar dele um bem, então o mal deve ser evitado pelo homem de toda forma.

“Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”.  (Romanos 8, 28)

Ao ler esse versículo, muitos pensam que Deus fará com que todas as coisas aconteçam conforme nosso coração deseja. Bem, mas não é assim. As coisas acontecerão conforme a vontade de Deus, esse “bem” não é determinado por nós mas por Deus e Ele age de diversas formas, assim como aconteceu com Daniel na cova dos leões por exemplo. Deus o livra de ataques de leões ferozes, mas permitiu que ele chegasse até à cova, pois Deus viu que o bem para Daniel era ser liberto da cova dos leões e com isso grandes prodígios aconteceriam, inclusive a conversão de muitas pessoas. Já com Estevão foi diferente, ele que era um homem cheio do Espírito Santo, morreu apedrejado diante de seus perseguidores, mas não é por isso que vou dizer que isso aconteceu porque Estevão não amava a Deus, jamais! Ele amava tanto a ponto de dar a sua vida por Ele. Deus viu um bem em seu martírio. Já para com Jó, Deus permitiu que Ele perdesse tudo, mesmo Jó não entendo o porquê, e depois Deus restaurou tudo o que Ele havia perdido. Deus também viu um bem nisso tudo. Deus tem um bem para cada pessoa, nada passa despercebido de seus planos, cabe a nós termos paciência e entender que Ele sempre estará ao nosso lado. O “bem” citado no versículo é o bem que provém de Deus e não o nosso “bem” que é derivado de nossos anseios e prazeres. Tudo Deus faz para a edificação de nossa alma.

São Tomas More, que foi condenado por Henrique VIII, pouco antes dele morrer consolou sua filha dizendo: “Não pode acontecer nada que Deus não tenha querido. Ora, tudo o que ele quer, por pior que possa parecer-nos, é o que há de melhor para nós”. (The Correspondence of S. Thomas More)

Tem uma história que creio que muitos já devem conhecer, e que conta de um modo interessante como Deus age na nossa vida.

Depois de um naufrágio, o único sobrevivente agradeceu a Deus por estar vivo e ter conseguido se agarrar à parte dos destroços para poder ficar boiando. Este único sobrevivente foi parar em uma pequena ilha desabitada e fora de qualquer rota de navegação, e novamente Ele agradeceu a Deus.

Com muita dificuldade aproveitando os restos dos destroços, ele conseguiu montar um pequeno abrigo para que pudesse se proteger do sol, da chuva e de animais e para guardar seus poucos pertences, e como sempre ele agradeceu a Deus.

Nos dias seguintes a cada alimento que conseguia caçar ou colher, ele agradecia. No entanto um dia quando voltava da busca por alimentos, ele encontrou o seu abrigo em chamas, envolto em altas nuvens de fumaça.

Terrivelmente desesperado ele se revoltou, gritava chorando:

“O pior aconteceu! Perdi tudo! Deus, por que fizeste isso comigo?”

Chorou tanto, que adormeceu, profundamente cansado.

No dia seguinte bem cedinho, foi despertado pelo som de um navio que se aproximava.

“Viemos resgatá-lo”, disseram.

“Como souberam que eu estava aqui?”, perguntou ele.

“Nós vimos o seu sinal de fumaça!”

 É assim que Deus age em nossa vida. Pode ser que não entendamos absolutamente nada do que está acontecendo, mas um dia saberemos. Deus é justo e misericordioso, lembremos disso, e Ele sempre nos surpreende.

 Há um trecho que eu não poderia deixar de citar vem do livro Lições de Abismo de Gustavo Corção, que diz, “Algo de harmonioso, de sério, pode ser feito, desde que a gente se arranque do que há de confuso e vário”.

Ao reler alguns trechos de Lições de Abismo, me deparei com este trecho, que ilustra uma “solução” em meio a tantos balanços perto do abismo. Mas ao mesmo tempo nos recorda de que há uma luta a enfrentar, pois não é tão simples se livrar do que é confuso e vário, visto que isto persegue o homem enquanto ele exista. Pode-se ter alguns breves segundos de paz, para que possa descansar e recuperar a energia, afinal Deus sabe que não somos feitos de ferro, mas sabe também que precisamos ser moldados, cada um na sua medida e essa moldagem vai levando para algo mais harmonioso, fazendo com que as coisas fiquem em seu devido lugar. Mas repare, enquanto não lutarmos contra as amarras, não faremos e nem encontraremos algo de harmonioso e sério.

Este trecho vai muito além de uma interpretação superficial. Ele fala de uma luta interior e exterior contra tudo aquilo de errôneo que o mundo apresenta, que ao invés de trazer solução, traz mais problemas. O momento em que Corção cita este trecho, o personagem está em um processo de assimilação da morte um pouco maior, e é justamente nessa fase que ele começa a ver as coisas como elas realmente são, e com quantas coisas frívolas nós nos preocupamos e deixamos as importantes passarem despercebidas, enfim percebemos que a vida é um sopro. Primeiramente ele nos faz avaliar nosso interior, onde as maiores lutas acontecem de modo silencioso, mas muitas vezes cabal. Mas faz parte, e é um ponto importante para ser analisado, pois vemos que com essas lutas vem o sofrimento junto, e por mais estranho que pareça ele é importante para nos moldar e nos leva a um autoconhecimento, nos fazendo enxergar o quanto já caminhamos e quantas misérias ainda temos. Mas sim, é um caminho complicado mas que deve ser percorrido. E no mundo que vivemos ora é uma coisa ora é outra, não se consegue mais duas coisas importantes ao mesmo tempo. Ora se preocupa com o exterior e se esquece do interior ou vice-versa, não percebe que deve-se preocupar com os dois, até porque o que acontece no exterior é um reflexo do interior. Agora dê uma olhada a sua volta. Preocupante não?

Há um trecho importante nesse mesmo livro, que indica esse estado de vivencia, no qual ele diz:

“Acho belíssima essa voracidade do homem, e essa capacidade de trazer para casa, para a sala de estar, sob as espécies do assunto, as guerras, os terremotos e os ciclones. Por outro lado, porém, acho lúgubre essa avidez de engrossar por fora a ganga do eu, numa capitulação da maior das aventuras, que é a conquista de si mesmo, a descoberta de sua própria alma. Há duas iluminações na face de um Marco Polo: de um lado o brilho ensolarado da boa aventura; de outro a verde lividez do homem que foge de si mesmo”.

Não dá para fugir de si mesmo, é melhor assumir as lutas que devemos enfrentar enquanto vivermos do que fugirmos e acabar nos afastando de Deus e chegar ao ponto de vivermos em um meio em que se olha somente o todo e esquece de olhar o significado de cada um. É um ajuntamento sem unidade, a união dos que se isolam.

Que Deus e a Virgem Maria possam nos dar forças durante as batalhas que devemos enfrentar durante a vida, e que nenhuma sombra de dúvida nos assole, que tenhamos sempre confiança em Deus e que nos aproximemos mais dele, pois este seria um comportamento contrário ao que o mundo espera, e é isto que devemos fazer, ir contra as expectativas de um mundo que pretende nos isolar e afastar de Deus.

“Provados pela mesma desgraça, os maus odeiam a Deus e blasfemam enquanto os bons rezam e louvam. A diferença não está na desgraça sofrida, mas na qualidade de quem a sofre”.

“Nossa vida é uma peregrinação. E, como tal, está cheia de tentações. Porém, nossa maturidade se forja nas tentações. Ninguém conhece a si mesmo se não é tentado; nem pode ser coroado, se não vence; nem vencer, se não luta; nem lutar, se lhe faltam inimigos”.

Citações de Santo Agostinho.

Salve Maria!

 

 

Pabline Gasparoti

Goiana, graduada em farmácia, catequista, gosto de uma boa leitura e sou apaixonada por Deus.