Santa Carona

Da Queda: divagação sobre a série McMafia

Entre as produções midiáticas que temos hoje, raramente uma vem com temas realmente intensos e que fogem de repetir mais do mesmo das aventuras regadas a sensacionalismo ideológico, cenas desnecessárias de sexo explícito e com uma boa representação dos dramas humanos.

McMafia é uma série da BBC, com oito episódios e, por hora, conta com uma temporada. Em seu desenvolvimento vemos a história que fala sobrea corrupção de alguém que não conseguiu se afastar daquilo que levou toda a família para uma degradação generalizada. A família Godman – e seus negócios na Rússia – levam Alex a uma série de negócios ilícitos, ao envolvimento com tráfico, mercado negro e, por fim, assassinatos; tudo por conta do sentimento de vingança que sustenta a razão de ter caído nesse destino trágico, mesmo tentando fugir de todas as formas materiais possíveis.

O caminho traçado por Alex durante a série consegue mostrar de forma bem clara como alguém pode mergulhar naquilo que mais procurava se distanciar. É uma reação em cadeia que culmina na perdição completa de um homem, que antes buscava ser uma pessoa correta, e agora é alguém que caiu perante tudo que acreditava, perdeu-se a si mesmo e entregou sua personalidade ao que tinha negado até então. Ele foi mais um que acreditou ser capaz de controlar todas as peças do jogo da máfia e abandoná-lo quando sentisse vontade. Foi alguém que depositou no século a sua esperança e, como tantos outros, viu o fundo do abismo e foi engolido por ele.

Como todo jogo, mesmo com um favorito e que se mantém por muito tempo na ponta, logo outros jogadores começam a despontar e ameaçar o lugar do grande líder, do chefe da máfia. A manutenção do lugar de líder fica difícil e a queda, mais cedo ou mais tarde, é eminente. É de alternâncias que se vive nesse meio e sempre é bom estar preparado para passar a liderança para outro – e o preço pela derrota sempre é muito alto. É preciso ter sempre a noção de que alguém fará o possível para ganhar algo sobre você, que a qualquer momento pode ser traído e por alguém que pague mais.

Esse é um ponto interessante sobre esse contexto de máfia que foi expresso no transcorrer dos episódios da série: o quão solitário a pessoa vai se tornando nessa vida. Nunca os laços são firmes, os que são próximos logo podem se afastar, entregar o companheiro/chefe atual por uma proposta mais rentável ou que garante a liberdade frente a justiça do país. Todos os que são caros (parentes e amigos reais) serão usados e em muitos casos perdidos por sua causa. Em dois diálogos marcantes, Vadim, o atual chefão da máfia russa, deixa claro para o jovem iniciante Alex que se ele escolher essa vida tem que estar pronto para perder todos que ama; se quer protege-los terá que se afastar deles (o jovem investidor financeiro entra nisso na procura vingança justamente contra Vadim que fora responsável pela morte de seu tio, que por sua vez, tentou assassinar Vadim). O andar dos eventos deixa claro que no mundo dos negócios de mafiosos, todos que fazem da desgraça alheia uma forma de vida, tornam-se uma desgraça para todos, sem exceção. Viver pela catástrofe é ser até mesmo para si uma catástrofe. Aquele que coloca outros no caminho da perdição, trilham também o caminho do inferno. E lá, onde há choro e ranger de dentes, viverá na solidão perpétua. O aviso de Vadim é preciso: deve estar preparado para perder tudo, para ficar só, para perder até a si próprio. E nada mais ilustrativo que essa reflexão para termos uma visão do inferno: a solidão perpétua pela ausência da companhia que sempre poderia ter presente.

Mas como mencionamos a Rússia, nada melhor que ligar a um dos seus grandes nomes o tema da série. Foi Dostoiévski quem escreveu que o inferno é a incapacidade de amar. Amar a Deus, a si mesmo e ao próximo como a nós. A perda da noção da tragédia humana que é o tráfico, as vidas destruídas com o vício e o submundo que existe nessa atividade é uma incapacidade de pensar no amor do outro, de ignorar o mal que se causa com aquilo que negligenciamos. E se o próximo desconhecido não gera comoção, vemos que o próximo real, ao meu lado, também é esquecido. Não tem real amor pelos seus quem logo investe em qualquer meio de vida que deliberadamente poderá causar algum malefício. Dinheiro e luxo não pouparão da morte (violenta e prematura) que geralmente acompanha aqueles que vivem na vida de mafioso. Esquecer de pessoas que nos amam e permitir deliberadamente que algo terrível possa cair sobre eles é estar no inferno. Também sobre nós temos a perda do amor. Esquecer-se quem é, viver em uma ilusão, e tomados por um amor-próprio que não permite o surgimento de um amor real de si que se completa no próximo e em Deus. O homem se perde no orgulho, torna-se um ser completamente longe daquilo que realmente é (e do que poderia ser) e mergulha naquelas terríveis palavras que Dostoiévski pôs nos lábios de Zósima:

Há no inferno seres que permanecem soberbos e intratáveis, malgrado seu conhecimento incontestável e a contemplação da verdade inelutável; há-os terríveis, que se tornaram totalmente presa de Satanás e de seu orgulho. São mártires voluntários que não podem satisfazer-se com o inferno. Porque são eles próprios malditos, tendo amaldiçoado Deus e a vida. Nutrem-se de seu orgulho irritado como um esfomeado no deserto se poria a sugar seu próprio sangue. Mas são insaciáveis por todos os séculos e repelem o perdão. Amaldiçoam Deus que os chama e queriam que Deus se aniquilasse, ele e toda a sua criação. E arderão eternamente no fogo de sua cólera, terão sede da morte e do nada. Mas a morte fugirá deles…

Alex teve tudo que alguém poderia considerar uma carreira de sucesso, mas a vingança nos faz perceber a queda que ele próprio provoca a si mesmo. De um negócio limpo, correto e exemplar, ele entra em corrupção e depois da primeira dose, a sensação de poder ganha espaço e passa a ser desejada. Estamos diante da queda de um homem bom, aquele que outrora poderia ter sido apontado como um exemplo a ser seguido e agora torna-se o contrário: o homem a ser evitado. Os inimigos de um bom homem, ou seja, os perversos e vis, regozijam ao ver a queda do justo. Mas os que esperavam a sua exaltação e a contemplação de sua glória ficam triste, esperando encontrar uma maneira de salvá-lo. Só que isso é algo que poderá ser realizado apenas por ele, que na atual situação já tomou para si o orgulho da vitória sobre todos os outros e está galgando alturas entre os mafiosos. A queda de Alex é a tentação do controle completo do orbe no qual habitam os senhores do crime.

E, por fim, temos a visão de como a vingança levou mais um ao ódio, e este levou a perda completa de si e do que realmente importa em nossa vida: a capacidade de amar.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.