Santa Carona

UM SINAL

Sabe aquelas cidades pequenas do interior que logo na entrada a primeira coisa que notamos é a cruz no topo da alta torre da Igreja matriz, que geralmente fica no centro ou no local mais elevado da cidade? Como é bonito ver um sinal de Deus logo que chegamos a um local. Assim era na maior parte das nossas cidades, desde a ascensão do cristianismo na Idade Média, com a construção das grandes catedrais góticas,  até pouco tempo atras, antes da modernidade atingir também a criatividade dos cristãos, que passaram a construir Igrejas sem espiritualidade em sua arquitetura.

Aquela cruz, que se destacava entre os prédios e construções era um sinal Daquele que é verdadeiramente o centro e o sentido de tudo, da existência e que devia ser lembrado e amado acima de tudo. Na modernidade, já não é mais Deus que ocupa esse lugar de destaque na vida e no cotidiano das pessoas em particular e da própria sociedade, o homem moderno destronou Deus e usurpou o seu lugar.

“Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha, nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos os que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus.” (Mateus 5, 14-16)

Nos voltemos a estas palavras de Jesus, retiradas do famoso sermão da montanha. Nestes versículos o Senhor nos diz que somos Luz, em meio a um mundo que está recoberto em trevas. Nos diz também que devemos brilhar, por meio de um testemunho de santidade, e assim sermos um sinal de eternidade, de céu e do próprio Deus. Enquanto cristãos, devemos ser então como aquelas cruzes nos topos das Igrejas, ou mesmo como os sinos de suas torres, a tocar e anunciar que há ainda uma esperança, ainda há sentido na vida, e que ainda existe sim um Deus, que sempre existiu eque  permanecerá assim para a eternidade.

Em um outro momento do Evangelho, Jesus também nos exorta: “Vigiai e orai.” (Mateus 26, 41). A sagrada Tradição, ao interpretar as Sagradas escrituras, nos ensina que Cristo é a Luz do mundo, como anunciado pelo próprio evangelho, e que não estando mais entre nós, pois ascendeu ao céu, de onde há de retornar glorioso, estamos em uma grande noite, até que brilhe o nascer do novo dia com seu retorno. Logo, aqueles que estão no pecado é como se estivessem adormecidos, aproveitando-se da noite, estão entregues as trevas. Já aqueles que ouvem ao chamado do Noivo, que está para vir, está acordado, vigilante, como as virgens prudentes¹, com as lamparinas acesas, a espera Daquele que vem.

Quando o Mestre nos chama a sermos luz, está nos incumbindo da missão de, vigilantes, despertos para não cair no sono do pecado, brilhemos e despertemos aqueles que já dormem. Tal como a mãe que abre as cortinas da janela dos quarto para despertar os filhos, que logo se incomodam com a forte luz do sol e despertam, assim também nós devemos despertar aqueles que se entregaram as trevas e ao sono do pecado.

É claro que não trata-se de uma tarefa fácil. O adolescente que bem cedo é despertado pela luz do sol muitas vezes se irrita com aquele que abriu a janela e a deixou entrar. Também aqueles que estão na comodidade do mundo terão reações duras ao serem confrontados pela luz do Evangelho, mas isso não deve nos desanimar. Lembremos do exemplo que nos foi deixado pelo Mestre, que anunciou a verdade para aqueles que dormiam em seu tempo, e despertou junto a ira deles, e como consequência teve de carregar uma cruz. Não somos maiores do que o Mestre, se ele passou pela cruz, também nós devemos abraçar a cada dia a nossa.

Mas passemos para a parte prática de tudo isso. Ser sinal de Deus, ser luz no mundo é, em resumo, buscarmos a santidade.  Em nossos dias, isso significa sermos diferentes, ou como nos indicou São João Paulo II: “é nadar contra a correnteza.” Ou seja, temos que ser corajosos e fortes para proclamar as verdades do Evangelho, não só com as palavras, que já é um desafio nos dias de hoje, mas também e principalmente com nosso testemunho.

Ser sinal de Deus no mundo é vivermos as virtudes, da justiça, da prudência, da temperança e fortaleza. É lutarmos para viver a castidade, na vida de solteiro, no namoro e também no matrimônio. É sermos fiéis ao ensinamento da Santa Igreja, a respeito do modo de nos vestirmos e comportarmos com modéstia, de vivermos os mandamentos e frequentar os sacramentos. É assumir o risco do novo martírio ao qual nos alertou o papa emérito Bento XVI, que é o da ridicularização, que acontece muito quando nos posicionamos em favor da família, tal como sonhada por Deus, contra as ideologias, contra o paganismo e neo paganismo, contra o aborto e a favor da vida.

Hoje é o dia de um grande Santo da Igreja, de nosso tempo, São Josemaria Escrivá. Os seus ensinamentos e esforços em vida eram exatamente nessa direção, de formar e despertar santos para os nossos dias. Ele ensinava que devemos ser esses luzeiros na realidade em que estamos inseridos. Nas empresas, nas faculdades, nas escolas, nas ruas, onde quer que estejamos, que façamos brilhar a luz de nossas virtudes, não por vaidade, mas para que a alegria de pertencer a Cristo contagie aos que nos cercam e que os incomode. Sim, incomode, pois a verdade incomoda no reino da mentira, a luz incomoda no reino das trevas. Mas o nosso incomodo deve ser frutífero, deve levar as pessoas a se incomodarem com a vida de trevas e pecado em que se encontram e queiram também fazerem parte da luz.

É uma tarefa árdua sermos esses sinais de Deus entre os homens, mas o próprio Cristo nos preparou para as dificuldades quando disse: “Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia. Lembrai-vos da palavra que vos disse: O servo não é maior do que o seu senhor. Se me perseguiram, também vos hão de perseguir. Se guardaram a minha palavra, hão de guardar também a vossa.” (João 15, 19-20). Mas não tenhamos medo, pois esse mesmos Mestre e Senhor está sempre ao nosso favor a interceder por nós, como quando pediu ao Pai pelos discípulos: “Dei-lhes a tua palavra, mas o mundo os odeia, porque eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do mal. Eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo. Santifica-os pela verdade. A tua palavra é a verdade.” (João 17, 14-17). Que sejamos um sinal  e que brilhe a nossa luz, para que o mundo veja e creia no Senhor.

1-cf. Mateus 25, 1-13

Fernando Silva

Cearense, estudante de Filosofia e católico, que tenta fazer da própria vida uma obra de arte que agrade o olhar apurado do verdadeiro grande Artista: o Senhor.