Santa Carona

La Salette e Fátima: lágrimas, catástrofes e esperança

“Vai soar a hora em que as catástrofes unir-se-ão, e não haverá nada além de catástrofes.” Léon Bloy, ‘Aquela que Chora’

“Haverá uma desordem daquelas que o mundo nunca viu… A Rússia ficará mergulhada em trevas, a terra haverá de chorar os velhos deuses… Bem, é aí que vamos lançar…” Dostoiévski, ‘Os Demônios’

 

Quando observamos os contextos das aparições marianas, das quais possuímos inúmeros relatos aceitos ou não pela Igreja como verdadeiros, estamos diante de um fenômeno que vem nos lembrar aquilo que a Revelação Pública nos disse. Elas surgem com o intuito de um aviso, de um lembrete, para que a humanidade, afastada por algum motivo, retome o caminho da Verdade, que os filhos da Igreja voltem para as práticas de piedade, que retomem a fé e lutem por um mundo menos blasfemo. Algumas aparições são mais famosas que outras devido ao apelo piedoso, aos inúmeros milagres envolvidos ou até mesmo ao local onde ocorreu. Outras, mesmo que tendo aprovação da Igreja para veneração, não saem do âmbito de um pequeno círculo por levantarem medo e ter em sua mensagem algo que muitos querem fingir que não existe. Mas lembremos, segundo a máxima de Léon Bloy, que “a palavra de Maria, sempre identifica a Palavra do Espírito Santo” que é um apontamento para questões imediatas relacionadas à vida dos filhos da Igreja e também para o caminhar do mundo.

Considerando as mudanças graves que temos no contexto mundial nos séculos XIX e XX, tomemos duas aparições de expressão para uma observação daquilo que elas expuseram: As aparições de La Salette na França iniciada no dia 19 de setembro de 1846 a uma jovem chamada Mélanie Calvat e ao jovem Maximino Giraud; e a famosa mensagem das aparições de Fátima em Portugal, iniciada aos 13 de maio para os três pastorzinhos Lúcia, Jacinta e Francisco. Os motivos da escolha dessas duas aparições são o peso de suas mensagens e uma conexão que pode ser feita entre elas e as condições daqueles tempos, os problemas elencados por cada uma das falas da Santíssima Virgem o os eventos desencadeados durante os fins do século XIX e toda a loucura que foi o século XX.

La Salette: combate contra Deus

Aos jovens videntes franceses na montanha de La Salette, a Virgem não aparece como normalmente podemos pensar, mas surge com as mãos no rosto sofrido e banhado por lágrimas, transmitindo um imenso pesar, uma dor incalculável, pela forma como está sendo conduzida a vida dos cristãos naqueles dias. Maria chora amargamente por ver que a França caiu frente aos apelos de um mundo secularizado, chora porque os filhos de Deus estão sujos e propagam sujeiras, que os mais diletos deles, os sacerdotes, agora parecem mais com cloacas de podridão. Aquela que chora na colina chamou atenção dos dois jovens que foram ao seu encontro e escutaram sua mensagem. Mélanie e Maximino tomaram o relato sofrido da Mãe de Deus que pedia o arrependimento dos homens daqueles dias, pedia justamente porque não mais era possível viver sob aquelas condições e se chamarem “filhos de Deus”. Tudo o que faziam, sejam os homens do clero, ou os leigos, eram ofensas gravíssimas. Esqueceram do amor a Deus, não honravam em nada as práticas da Igreja, nem mesmo os dias de festa eram usados para seu fim. A secularização, reflexo de um iluminismo anticlerical que foi produto nitidamente francês, culminante nas loucuras executadas pela Revolução Francesa que foi seguida por governos tão antirreligiosos quanto os que haviam antes, faziam eco aos movimentos de degradação da fé, de esvaziamento do sagrado nas religiões e de uma noção de autossuficiência humana frente a criação. A Virgem Maria chorou em La Salette pelos filhos de Cristo, que não sabiam mais dar valor ao seu Calvário e, junto aos mestres da Lei e dos soldados romanos, faziam do seu sacrifício zombaria. Foi a própria Senhora que aos prantos revelou aos videntes: “Eu te digo, os mais cruéis carrascos de meu Filho sempre foram os seus amigos, seus irmãos, seus membros preciosos e jamais Deus foi melhor ultrajado do que pelos cristãos”[1]. A dor que foi sentida no Calvário tem sua ressonância ainda mais adiante. Os filhos de Deus não mantiveram a fé, deixaram levar-se por comodidades, “misturaram açúcar ao vinagre” do Gólgota na tentativa de amenizar tudo que foi feito.

O forte da mensagem transmitida por Nossa Senhora em La Salette foi que os filhos de Deus fossem fieis, não cloacas de podridão e que não ficassem por destruir a fé dos demais, não insultassem a Igreja e que vivessem como cristãos. A mensagem fui duríssima, e com uma situação muito específica das inteligências naquela França dos oitocentos, não nos estranha que a mensagem da Virgem fosse silenciada o máximo possível. Altos escalões do clero, que provavelmente viam-se nos exemplos dados com relação aos pecados cometidos pelos filhos de Deus, procuraram de todas as formas, legais ou não, partindo para injúrias e acusações sem provas contra os videntes, desacreditar a mensagem enviada.

Entre os ditos sobre o clero, tomemos uma das mais famosas referências à mensagem para compreender a reação:

Os sacerdotes, ministros de meu Filho, pela sua má vida, sua irreverência e impiedade na celebração dos santos mistérios, pelo amor do dinheiro, das honrarias e dos prazeres, tornaram-se cloacas de impureza. Sim, os sacerdotes atraem a vingança e a vingança paira sobre suas cabeças. Ai dos sacerdotes e das pessoas consagradas a Deus, que pela sua infidelidade e má vida crucificam de novo meu Filho! Os pecados das pessoas consagradas a Deus bradam ao Céu e clamam por vingança. E eis que a vingança está às suas portas, pois não se encontra mais uma pessoa a implorar misericórdia e perdão para o povo. Não há mais almas generosas, não há mais ninguém digno de oferecer a vítima imaculada ao [Pai] Eterno em favor do mundo[2].

Não poderiam escutar isso e ter sua imagem desfigurada, não poderiam ser desacreditados por jovens ignorantes, eles, a grande hierarquia da Igreja estavam acima do bem e do mal. Mesmo que a própria Mãe de Deus estivesse falando que eles não eram mais que corpos putrefatos de tanto pecado, não interessava. Interessava manter-se em consonância com as novas tendências daquele mundo que surgia, deveriam trilhar o caminho para o futuro. O progresso era necessário e querido. E nesse progresso, o que muitos ingenuamente não viram o caminho para a perdição do século.

Esses dias de euforia progressista, de fé em uma humanidade abstrata e moldada a partir de perversas ideologias foi tratado pelo historiador francês Daniel-Rops[3] como “a era da morte de Deus”. Essa nomeação considera que foi o tempo no qual se levantou sem mais nenhum medo de dizer, em um orgulho luciferiano, que “Deus estava morto” e que “o homem é seu assassino”. O resultado de tamanho orgulho foi o avanço das grandes ideologias que tomariam forma naqueles dias, as filosofias que amputavam completamente o transcendente do imanente, dos homens que viviam por si mesmos negando o outro e a sua condição como pessoa, esse seria o resultado. Um mundo que abandonou Deus, negando a incapacidade de crer em uma força superior ao próprio homem, que forjaria seu destino unicamente a partir da ciência, senhora e mestra de todo o conhecimento, poderia resultar apenas em lágrimas. Eis mais um dos elementos simbólicos que podemos tirar da Virgem aos prantos naquela montanha francesa. O homem sem Deus, o homem que se colocou como deus, foi o criador da morte em escala industrial.

Considerando a própria França daqueles anos, o governante foi um dos exemplos daquilo que havia de mais atual no pensamento europeu. Napoleão III trabalhou para que sua política levasse a diante uma nova França, liberal e progressista, acompanhando bem as marchas da história. Foi um político de decisões pensadas para favorecer seu governo e mantê-lo na posição de bom presidente e depois imperador. Nesse campo político caminhava a França que se recuperava de grandes eventos políticos e militares com a Revolução Francesa e ao império de Napoleão Bonaparte.

Tudo isso coloca-se como reflexo do período da ilustração francesa, quando no auge do iluminismo teremos, como trata Gertrude Himmelfarb[4], uma “ideologia da razão” que formará uma idolatria de fato dessa entidade que substitui Deus e passa a ser a gestora imperativa sob as vidas das pessoas e o destino das nações. Outro fato é que, considerando todo o cenário francês, com as suas particularidades, ali temos desenvolvido também um anticlericalismo inédito em outras regiões do mundo. A Igreja passará a perder cada vez mais espaço na vida das pessoas, ao ponto de que a Virgem em lágrimas venha a dizer que não se tem mais o respeito pelos dias santos, o selo pela celebração dos sacramentos e a fé para se viver o que é manifestado da boca para fora. Estamos em uma sociedade que encarnou o espírito dos tempos, que transformou a secularização em projeto e que faz de Deus nada mais que um passado sombrio, um momento de “idade das trevas” que deve ser lembrando como temor para que não se repita.

O reinado do espírito laico (que vem estendendo seu domínio até os dias atuais) passou pela estrutura dos estados daquela época e vem, cada vez mais, impondo uma abolição da religião que, em alguns casos, fere a própria liberdade de expressão que uma pessoa pode ter. Não só a França nos fornece exemplos disso, mas outro importante reino europeu, a grande Prússia, levou a cabo a tarefa de “iluminar” com as luzes da razão as trevas do misticismo religioso que deveria ser revisto à luz da ciência.

Uma síntese desse período sai da seguinte observação, mostrando que

o espírito laico em plena atividade, minando por todos os lados o edifício cristão. Começa por atuar no plano político, inspirando os governos, penetrando nos regimes. Reclama a separação total da Igreja e do Estado, sob o pretexto de impedir o domínio de uma entidade sobre a outra, mas, de fato, a sua intenção é afastar de todas as instituições humanas os imperativos religiosos. Retomando os métodos de que tantos governos se tinham servido séculos atrás, mas agora num intuito mais radical, ataca as congregações religiosas, o recrutamento do clero, os vínculos que unem os católicos à Sé de Roma. Antes de tudo, procura destruir o quadro em que a Igreja atua […]. Pode assumir expressões diversas.  Com grande freqüência, será por meio da legislação, como na Alemanha de Bismarck ou na França da lllª. República. Mas também pode suceder que, na luta contra a fé, os senhores do laicismo recorram à perseguição violenta, como se verá no México ou na Espanha, enquanto não surgem os sistemas totalitários, que conjugarão os dois métodos, utilizando ao mesmo tempo o terror e o arsenal legislativo para fazer triunfar a irreligião[5].

Tudo isso será amparado por uma quantidade de inovações nos campos do conhecimento com as críticas que surgirão ao sistema religioso de modo geral. Assim sendo, a arqueologia, os estudos linguísticos, a crítica literária das escrituras, o estudo de antigas mitologias, farão com que as interpretações das Escrituras venham a ser desprovidas de sua perspectiva sobrenatural e passe a constar apenas como uma coletânea de textos míticos, desprovidos de verdade, com milagres cientificamente explicáveis ou descartados. Leituras que criaram a distinção entre o “Jesus histórico e o Jesus da fé” que atacavam o edifício da Igreja de vários locais, inclusive de seu interior.

Esse era o contexto no qual surge a Virgem em La Salette, avisando que a cólera de Deus cairá sobre a humanidade e permitirá que uma quantidade de males derivados de tais comportamentos possam mostrar sua face. O ataque à fé, a Deus e à Igreja foram grandes, blasfêmias indizíveis anteriormente. Por essas e outras situações que as revelações da Senhora em prantos deixou claro que: “Deus vai golpear de maneira sem precedentes”, que “infelizes dos habitantes da terra! Deus vai esgotar sua cólera, e ninguém poderá subtrair-se a tantos males reunidos”, e ainda que “a sociedade está às vésperas dos mais terríveis flagelos e dos maiores acontecimentos; deverão ser governados por uma vara de ferro e beberão o cálice da cólera de Deus”. Frente a inúmeras revelações deixadas perante uma terra onde ninguém mais queria escutar a Palavra de Deus, a Senhora das Lágrimas não pode fazer outra coisa a não ser alertar das tragédias que viriam:

Se meu povo não quer se submeter, sou forçada a deixar cair a mão de meu filho. Ela é tão forte e pesada que não posso mais retê-la.

Há quanto tempo sofro por vocês! Se quero que meu Filho não os abandone, sou obrigada a suplicá-lo incessantemente. E vocês nem se importam com isso. Por mais que rezem, por mais que façam, jamais poderão recompensar a aflição que tenho sofrido por vocês.

Dei-lhes seis dias para trabalhar, e reservei-me o sétimo, e não me querem concedê-lo. É o que faz pesar tanto o braço de meu Filho[6].

As palavras são duras. Pesará sobre a humanidade uma infinidade de males que são o reflexo da negação de Deus. Fomos avisados em meio a lágrimas, mas não foi dado o devido crédito. Tentaram de muitas maneiras impedir a mensagem de ganhar espaço entre os crentes. Silenciaram, dentro da própria casa de Deus a voz de sua Mãe. Era de fato o tempo de abismo, onde o rei das trevas estava a cooptar súditos e a colocar-se como salvador. Era o prenúncio de dias sombrios.

Em meio a tantos problemas era necessário um combate por Deus, uma luta para que a fé e a salvação não se perdessem em meio ao transitório. E sempre temos nesses momentos nomes fortes que conseguem agir e combater, mesmo que sozinhos, a horda de barbárie que surge no horizonte. Não foi por menos que os papas daqueles tempos se ergueram como gigantes, lutaram como leões, mantiveram-se firmes na fé e guardaram a Igreja da melhor maneira possível. Um Pio IX, um Leão XIII, um Pio X e um Bento XV darão o tom do combate. De maneira inquestionável, estre grandes pontífices fazem da virada do século um momento de luta contra as tendências sociais, políticas e culturais que tencionavam o povo. A Igreja em meio a tudo isso sofriam com pensamentos de progresso e modernização, de uma busca de adequação das verdades da fé aos modismos das eras. Nada foi aceito, mas sim combatido pelos grandes papas que fizeram a transição dos séculos. Se tivessem sido ouvidos, teríamos evitado muito. Mas o que é a voz do papa em um mundo que proclamou a “morte de Deus”? A voz do papa foi apenas mais uma a lamentar as catástrofes criadas pela era do progresso. Entrando na “era dos extremos”, veremos que na medida que os pontífices alertam, as desgraças tomam forma no meio do século.

Depois do fim das ilusões que foram causadas pelas ideias de divinização do homem e a revelação prática da sua incapacidade de transformar o mundo em um paraíso progressista, outra maré toma forma no ocidente. Um espectro rondava a Europa. Ele parou na Rússia, aquela mesma nação que recebeu o aviso da possessão do demônio do niilismo, da ação maligna dos grupos socialistas e da depravação que era vivida pelos seus. O aviso de Dostoiévski[7] sobre o que viria a ser de sua terra que abandonava Deus aos poucos foi tomado por fantasia. O teatro macabro escrito pelo literato não foi mera literatura, mas a leitura do mundo por alguém sensível o suficiente aos sinais que aquela sociedade mostrava. E no mundo ocidental, em uma comunidade de um país que naqueles idos perdia expressão internacional, a Virgem Santa volta a clamar uma postura de fé, resignação e adoração para Deus. Avisa dos males da Rússia e que eles varreriam o mundo. Deram-lhe crédito, mas demoraram a cumprir as ordens. O século XX, o século do genocídio, como escreveu Peter Kreeft[8], veio e com ele a morte, do corpo, da alma, da cultura, da inteligência, das instituições, da pessoa humana. Até o amor foi morto e de seu cadáver juntaram restos dos defuntos e formaram o grande Monstro de Frankenstein que é a pós-modernidade.

Fátima: o aviso da “maré vermelha”

Considerando que mesmo na pior das condições e nas piores tragédias buscadas e arquitetadas pelo homem Deus não deixou seu povo sem esperança, não haveria de ser diferente na era que quiseram apartá-lo do mundo. Pois mesmo que em meio a uma grande multidão sem fé, seja dentro ou fora da Igreja, haviam aqueles que lutaram de forma exemplar o combate por Deus. Entre papas, sacerdotes e leigos, muitos foram os que conseguiram levar a Palavra a diante e formar um exército que, ao ver os edifícios da modernidade se rompendo, viram que, mesmo atacada de todos os lados, a Igreja permanecia firme, que ela estava a oferecer algo que sempre ofereceu e que ela possuía uma mensagem além do tempo e das modas. Havia ainda um lugar para o descanso, e em meio a pessoas simples que víamos a vitória da Cruz, pois a vida ordinária de muitos que vivam de fato as verdades da fé, sem muita instrução ou mesmo em meio a cátedras universitárias, havia luta, havia a chama da fé. E ela poderia colocar fogo no mundo.

Considerando que era necessário ainda alertar sobre que tipos de problemas estavam por vir, aconteceu que em um país já sem muita importância no cenário europeu e mundial, em uma localidade erma de seu interior, três crianças que demostravam uma procura deveras precoce pela aquisição das virtudes que aproximavam de Deus, receberam, aos 13 de maio de 1917 uma vista também de uma Bela Senhora. Na Cova da Iria, viram pela primeira vez a Virgem Santíssima. Viera trazer mais uma vez a mensagem de aviso aos filhos de Deus e da necessidade constante de oração, penitência e atos de desagravo para com o seu Filho. As três crianças ficaram admiradas em ver aquela figura celestes, ainda mais vibrantes que a presença angelical. Na simples pergunta de quem seria aquela mulher que estava “vestida de sol”, a resposta foi “Eu sou do Céu”[9].

Passaram por muitas dificuldades até que foram de fato reconhecidas como pessoas que estiveram em contato real com a Mãe de Deus. A Santíssima Virgem aparecera novamente, por mais cinco vezes, na qual a última é a mais extraordinária ocorrendo o famoso milagre do sol. As mensagens são carregadas de revelações sobrenaturais, com visões do inferno, com avisos sobre o que ocorreria ao mundo, à Igreja e ao pontífice, pedidos de oração do Santo Rosário e pela observação das normas da fé.

Entre um dos pontos que podem ser marcados nessa aparição para pensarmos os eventos históricos do século XX em específico, ficaremos com a observação feita pela Virgem sobre o avanço dos erros da Rússia.

No segredo revelado pela Senhora em Portugal, tomemos a observação de sua segunda parte e dos reflexos que tivemos de sua realização. Ela comunicou aos pastores a seguinte instrução:

Virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração […]. Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz […]. O Santo padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

Anos depois, em 13 de Junho de 1929, Ela avisaria a Irmã Lúcia, a única dos três videntes ainda viva, de que chegara a hora de ser feita tal consagração. O que segue é o relato da própria vidente:

Esta consagração foi feita por Sua Santidade Pio XII, a 31 de novembro de 1942, com menção velada – mas que Deus compreendeu – pela Rússia. Perguntaram-me, depois, se estava feita como Nossa Senhora a pediu. Respondi dizendo: ‘Não’. Faltava-lhe a união com todos os bispos do mundo, e que, sendo esta Consagração uma chamada à união do povo e Deus, esta condição era indispensável.

Fê-la, depois, o Santo Padre Paulo VI, em Fátima, a 13 de maio de 1967. Perguntaram-me depois se estava feita como Nossa Senhora pediu. Respondi dizendo que ‘Não’. Faltava-lhe a união com todos os bispos do mundo.

Fê-la esse mesmo Sumo Pontífice Paulo VI, no Sagrado Concílio com a assistência de muitos bispos. Perguntaram-me depois se havia sido feita como Nossa Senhora a pediu. Respondi dizendo que ‘Não’. Porque não devia ser feita com todos os bispos reunidos numa sala, mas que cada bispo na sua diocese o fizesse com o Povo de Deus, do qual ele era o Condutor, em união com o Santo Padre, Supremo Representante universal de Cristo na Terra […].

Fê-la, também, em Fátima, o Santo Padre João Paulo II, a 13 de Maio de 1982. Perguntaram-me, depois, se tinha sido feita nas condições pedidas por Nossa Senhora. Respondi dizendo que ‘Não’. Faltava-lhe a união com todos os bispos do Mundo – como nas anteriores – e que, sendo esta consagração uma chamada à união de todo o Povo de Deus, esta condição era indispensável.

Então, este mesmo Sumo Pontífice João Paulo II escreveu a todos os bispos do mundo, pedindo que a fizesse cada um na sua Diocese, com o Povo de Deus a ele confiado, em união com Sua Santidade. Mandou levar a Roma a Imagem, em união com todos os bispos do mundo – a Sua Santidade unidos – em união com todo o Povo de Deus, fez esta consagração – em Roma – publicamente, diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima, a 25 de Março de 1984.

Perguntaram-me, depois, se estava feita como Nossa Senhora a pediu. Respondi dizendo que ‘SIM’[10].

Não há, portanto, dúvidas de que a consagração foi feita, porém cabe o questionamento se fora feito a tempo. A própria Virgem Maria disse a irmã Lúcia em uma comunicação íntima: “Não quiseram atender ao Meu pedido! Como o rei de França, arrepender-se-ão e fá-la-ão, mas será tarde. A Rússia terá espalhado os seus erros pelo mundo, provocando guerras, perseguições à igreja: o Santo Padre terá muito que sofrer”. Não é segredo de que os erros da Rússia a serem espalhados por todo o mundo tratam-se da ideologia marxista do socialismo (ou comunismo) que tiveram como marco principal a Revolução Russa, que aconteceu no mesmo ano das aparições de Fátima[11].

Considerando todo o contexto do avanço da mentalidade comunista pelo mundo, talvez no campo das nossas atualidades este seria um ponto importante para pensamos.

É justamente a partir do pensamento dialético de viés marxista que se funda inúmeras questões contemporâneas. A própria sobrevivência desse tipo de pensamento, dessa noção de mundo em eterno conflito entre opositores e a eleição de uma categoria social como messias que será a condutora do mundo ao paraíso terrestre é de característica das novas leituras feitas sobre os critérios marxistas iniciais. Se prestarmos atenção na composição do pensamento revolucionário atual temos desde alguns dinossauros que ainda vislumbram uma revolução violenta, mas já temos os representantes da “nova esquerda” que adaptaram a noção de revolução para campos distintos, pois perceberam com o próprio triunfo da revolução na Rússia que havia algo errado com as previsões de Marx e que, a não aceitação da barbárie realizada pelos comunistas, levaram a revisões no pensamento. É nítido a mudança de direção no foco da revolução.

Passamos hoje por uma maré vermelha, mas que hora está disfarçada por fora de uma “maré verde” ambientalista, uma “maré arco-íris” entre as minorias que se colocam em um dos pontos do processo dialético, ou até mesmo uma “maré incolor” de pessoas que não querem afirmar-se como representantes desse pensamento, mas que estão nitidamente tratando de colocá-lo em prática. As instituições no mundo todo absorveram, conscientemente ou não, as proposições vindas do campo marxista. São raras as pessoas que conseguem pensar fora do jugo estatal e da necessidade de uma força coletivista forte que crie as possibilidades de felicidade perpétuas na terra. Nosso mundo é mais voltado para um controle duro do estado/líder/partido do que para os princípios de liberdade, de comunidade, de pessoa e família. Os coletivismos e as guerras do século XX vieram a coroar essa visão sobre o mundo e o resultado foi um século de hecatombes. Estas ocorrendo ou com o uso de armas de destruição em massa, sejam em campos de trabalhos forçados, sejam em políticas coletivistas que arrasaram nações devido à escassez de alimentação.

Observando o cenário político atual, no mundo todo, ainda temos de forma clara brigas acirradas entre representantes de alguma releitura da perspectiva marxista de sociedade contra o resto. Para utilizar da expressão de Gabriel Marcel, estamos sempre vendo a luta constante dos homens contra o homem.

Nesse ambiente hostil, desde sua concepção, a religião cristã é colocada como inimiga e deve ser expurgada, mesmo que violentamente, do contexto social. Outras religiões, seitas e espiritualidades exotéricas, por serem mais abertas a controle e mesmo pelo fator subjetivo de sua interpretação que torna tudo relativo e passível de ser moldado mais facilmente aos interesses de uma casta intelectual[12]. Essa onda contra a religião é reflexo daquilo que vimos no século anterior, mas que, devido ao período de crise de paradigmas pós-Segunda Guerra, cria um ambiente de retomada da espiritualidade não-convencional em uma retomada até mesmo de cultos pagãos[13].

Mas o interessante é que esses ataques contra o homem e principalmente contra Deus, são marés. Ora mais altas, mais agressivas, mas sempre retornam ao seu canto inicial. Independente do autor de tais ataques, sempre houve, mesmo nos tempos mais sombrios, esperança. Esta foi materializada em grandes figuras que expuseram a face de Deus ao mundo da melhor forma possível: com exemplo de oração e vida cristã. O século XX, era do genocídio, pode ser considerado também como o século do martírio, o século de santos (mesmo que muitos sejam anônimos). Pensemos em um Maximiliano Kolbe, José Sanchez del Rio, Edith Stein, Teresa de Calcutá, Karol Wojtyla, Josemaria Escrivá, Padre Pio, Gianna Beretta Molla, entre tantos outros ocultos de nosso conhecimento. Ao observarmos a vida dessas pessoas, encontraremos uma das falas da Virgem em Fátima.

“No fim, o meu Imaculado Coração triunfará”

A percepção que temos é que sempre atada, sempre na contramão do mundo, a Igreja vem se mantando firme em seu propósito. Assistida pela promessa de Cristo de nunca ser deixada e de que nunca o inferno prevalecerá, os casos expostos nos dão um exemplo da maneira como a Santíssima Virgem vem ao auxílio dos filhos de Deus. Pede encarecidamente a obediência ao que ele manda fazer. O resultado da obediência é o melhor dos vinhos, mas a recusa é o sofrimento pelo afastar-se Dele.

As palavras de Nossa Senhora nos casos observados foram diretas, e podemos relacioná-las com os eventos que marcaram aqueles dias e que refletem até hoje em nossas vidas. O império do laicismo iniciado no século XIX e as diversas ondas vermelhas que passaram por nossa sociedade. São constantes os ataques desses oponentes, mas as armas para enfrentá-los nos foram entregues pela Mãe do Filho de Deus: o Santo Rosário, atos de reparação, penitências e obediência ao seu Filho.

Considerando que não é um combate solitário, basta que tenhamos a coragem de pedir forças para piíssima Virgem, pois nunca se ouviu dizer que alguém que a ela recorresse fosse desamparado. Naqueles tempos ela veio e ofereceu as armas. Hoje é dia de combate.

 

Notas:

[1] Todas as referências a aparição de La Salette são do livro Aquela que chora – e outros textos sobre Nossa Senhora de La Salette, Léon Bloy, publicado no Brasil pela editora Ecclesiae.

[2] Esse é apenas um dos mais citados trechos das aparições de La Salette, mas outras revelações foram feitas e com peso similar. Por exemplo, os conflitos, as perseguições ao Papa, problemas com colheitas e alimentação, tentativas de atentados contra a religião partindo dos governos civis, a infestação de pessoas sem vocação e carregadas de pecados e más intenções nas instituições religiosas a fim de destruí-las. Toda a revelação da Virgem e La Salette é um vislumbre daquilo que cortou a segunda metade do século XIX até o início do século XX: lágrimas e perdas dos homens que se afastaram de Deus.

[3] Para as informações históricas desse trecho, ver História da Igreja de Cristo Vol. 9: A Igreja das Revoluções (II): um combate por Deus, publicado pela editora Quadrante.

[4] Ver Gertrude Himmelfarb – Modernidade, Iluminismo e as virtudes sociais, livro de José Luiz Bueno, publicado pela editora É Realizações.

[5] Daniel-Rops, op. cit.

[6] Léon Bloy, op. cit.

[7] Sobre a ascensão do pensamento revolucionário, ver o romance do autor com o título Os Demônios.

[8] Referência ao livro Como vencer a guerra cultural, publicado pela editora Ecclesiae.

[9] Todas as referências a aparição de Fátima são do livro Nossa Senhora de Fátima, de William Thomas Walsh, publicado no Brasil pela editora Quadrante.

[10] William Thomas Walsh, op. cit.

[11] Trecho redigido por Carlos Neiva em uma apresentação para a Mesa Redonda sobre Marxismo Cultural no Seminário Diocesano de Anápolis no dia 10/11/2017.

[12] Sobre essa questão vale observar como determinados cultos são cooptados por pesquisadores para que venham representar um conjunto de minorias étnicas, sociais, sexuais, etc.

[13] Ver Invasão Vertical dos Bárbaros de Mário Ferreira dos Santos para um comentário relacionado ao tema.


Texto base para uma palestra no retiro da Legião de Maria em Anápolis no dia 01/07/2018.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.