Santa Carona

O QUE BUSCAMOS E ONDE BUSCAMOS?

Hoje em dia, a maioria de nós vive em meio a dispositivos com conexão com a internet. E em todos eles, sejam nos sites, nas redes sociais, ou qualquer página da internet que acessamos há em algum lugar, geralmente no topo das janelas, uma pequena lupa que tem a função de busca, e essa é uma das, se não a mais importante ferramenta desses dispositivo. Segundo o site tecmundo, estima-se que diariamente são realizadas 3,3 bilhões de buscas no Google. Vivemos constantemente em busca de algo.

Mas não é apenas na internet que buscamos coisas que nos tragam respostas e que saciem o que parece ser um vazio dentro de nós que vive a procura de ser preenchido. São sonhos, projetos, bens, empregos, pessoas, sucesso, fama e outras inúmeras coisas fora de nós que buscamos para preencher um vazio que é interior, em nossa alma. Mas o complicado nisso tudo é que quando conquistamos algo importante, percebemos que não foi suficiente para nos preencher por completo. Então continuamos à procura de algo que muitas vezes não sabemos nem o que seja, mas que possa nos saciar.

Esse vazio que ocasiona essa busca constante é de fábrica, ou seja, foi deixado por Deus em nós desde nossa criação. Não trata-se de um defeito de fábrica, mas de uma parte fundamental daquilo que somos. Esse vazio que todos nós, sem exceção, sentimos, foi colocado por Deus para que Ele mesmo pudesse preencher, por isso é um vazio tão grande, pois é do tamanho de Deus. É o grande Santo Agostinho que nos afirma isso quando disse: “Fizeste-nos para Ti Senhor, e nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti.”

Vivemos nessa terra em uma constante luta contra três inimigos da nossa alma: o demônio, o mundo e nós mesmos, ou seja, a nossa concupiscência. Esses inimigos sabem desse nosso vazio e conhecem Aquele que pode preenchê-lo,  e usam isso ao seu favor e contra nós. São inúmeras as coisas que nos são oferecidas na ilusão de que preencherão esse vazio, e o que todas elas tem em comum é que estão fora de nós e por isso nos desviam do caminho certo, pois o único capaz de preencher-nos verdadeiramente está dentro e não fora.

É ainda Agostinho que nos ajuda a compreender esse desvio de caminho, pois ele mesmo o experimentou e nos relatou para ajudar-nos com a sua própria experiência a não cairmos no mesmo erro.

Escreve-nos o santo em sua obra Confissões: “Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora – e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo, e eu não estava Contigo… seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te desejei. Eu Te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz!”

Santa Tereza de Ávila, uma grande mística e doutora da Igreja, em sua obra “Castelo interior”, compara a alma humana com um castelo, com vários cômodos, uns dispostos próximo a saída e outros mais ao interior. Bem no meio desse castelo, na morada ou cômodo mais interior, encontra-se Deus. Quando estamos fora da Graça de Deus ou em estado de pecado mortal, que é quando faltamos contra algum dos dez mandamentos, é como se estivéssemos fora do castelo, ou fora de nós mesmos e distantes do Senhor. Quando nos arrependemos de nossos pecados e os confessamos através do sacramento da penitência, voltamos para a vida da Graça de Deus e entramos no castelo, na chamada primeira morada. Tereza discorre por todo o livro sobre sete dessas moradas, o que devemos fazer para entrar em cada uma delas e o que lá iremos encontrar.

Todo o sentido dessa obra é nos fazer entender que Aquele que pode preencher-nos na verdade já está dentro de nós, em nosso espírito, que é o ponto central de nossa alma, onde Deus habita. Mas se é dentro que Ele está, porque é tão difícil encontra-Lo? Porque vivemos a procurar fora com tanto afinco?

Porque a voz de Deus é suave como a brisa, como quando Ele se manifestou a Elias. (Cf. Ireis 19, 9-13). E o mundo é barulhento, e mesmo assim as suas músicas, conversas, murmúrios e informações fúteis nos chamam a atenção e nos interessam, e no barulho não se pode ouvir a voz suave do Senhor. Ainda porque embora a luz de Deus seja forte, em nós ela reluz em menor intensidade, pois se brilhasse tal como é nos cegaria, por isso Moisés cobriu o rosto diante da face de Deus, pois temia morrer diante do brilho de Sua Glória. (Cf. Êxodo 3,6). Já as luzes de fora, do mundo são reluzentes e coloridas, encanta nossos olhos com seu brilho e nos desvia a atenção da luz em nosso interior. A luz de nossos celulares e computadores parecem bem mais atraentes do que a luz acesa nos sacrários. Deus não faz publicidade de si mesmo. Ele já veio ao mundo e se revelou, e espera por nós em nosso interior, onde habita o Espírito Santo. Mas basta sairmos de casa para sermos bombardeado por outdoors gigantes, alguns até com leds brilhantes para nos dizer o que devemos desejar e buscar para nos preenchermos e sermos felizes.

“Buscai o Senhor, já que ele se deixa encontrar; invocai-o, já que está perto.” (Isaías 55, 6) Deus não poderia estar mais perto do que já está, pois está dentro. Nós é que estamos distantes Dele, pois estamos distante de nós mesmos. Sim, vivemos em busca de algo que não nos preenche, procuramos sempre fora a felicidade que só Deus pode nos dá. Depositamos nas coisas as nossas esperanças e seguranças, mas tudo passa. Somos imagem de um deus eterno, que não passa. A nossa alma tem sede daquilo que permanece e por isso que quando buscamos com tanto afinco por aquilo que perece nos afastamos de nós mesmos, vivemos em uma ilusão e nos perdemos.

É Cristo o caminho que nos faz voltar para Deus. É Ele a luz que nos mostra que a verdadeira luz cintila dentro e não fora. Ele é a Palavra de Deus que fala ao nosso coração e nos diz: volta para mim, deixa de fugir, procurando fora a mim que estou aqui dentro. Nos desliguemos do mundo. Entremos no castelo de nossa alma e fechemos as janelas que dão para fora, para que busquemos apenas aquela luz que brilha na morada mais íntima. Silenciemos para ouvirmos as palavras doces e confortantes do senhor que nos fala constantemente. Busquemos o Senhor enquanto Ele ainda se deixa encontrar.

Fernando Silva

Cearense, estudante de Filosofia e católico, que tenta fazer da própria vida uma obra de arte que agrade o olhar apurado do verdadeiro grande Artista: o Senhor.