Santa Carona

Sobre perder um amigo

A amizade é sem dúvidas uma das coisas mais preciosas que alguém pode ter na vida. A Bíblia fala que um amigo é como um tesouro e Aristóteles diz que é o bem mais valioso que se pode encontrar nesse mundo. Assim sendo, perder um amigo equivale a perder um tesouro, a perder o bem mais valiosos que tens, a perder uma das coisas mais preciosas da sua vida. E ainda mais, perder um grande amigo é perder um grande tesouro, um grande bem, é ter um grande rombo no sentido da sua vida.

Triste, não é? E é mesmo! Um amigo de verdade é como que o outro pedaço da alma que ocupa um outro corpo, mas se é um só, por isso é tão bom estar simplesmente por perto, dá a sensação de completude. Logo, perder um amigo é perder uma parte da própria alma, é morrer pela metade. O problema é que a dor não é pela metade, pois a outra metade agoniza por tempo indeterminado.

Santo Agostinho dá uma reflexão fantástica sobre como é a morte de um amigo ao narrar seu luto por um amigo querido, mas aqui não me refiro a perder um amigo para a morte, o que já é uma dor terrível que não desejo a ninguém. Refiro-me a perder um amigo porque a amizade simplesmente acabou, esse é sem dúvidas a pior forma de ter uma parte da alma tirada de si.

Eis que um belo dia você percebe que aquela companhia de que desfrutava estar perto já não traz tanto prazer, o que você já não consegue fazer a conversa fluir, ou simplesmente sente que há uma muralha invisível entre vocês. Não há mais confiança, as confidências já não surgem e as conversas parecem ser uma cirurgia delicada para não se tocar em nenhum ponto vital. Pode ser ainda pior, a raiva pode ter dominado todo o coração e assim já não se quer ver a pessoa na sua frente, ou se a despreza por completo, ou (pior ainda!) não passa agora o antigo amigo de um qualquer. Mais doloroso ainda é se for alguém com quem as circunstâncias obrigam a ver constantemente: um colega, um parente ou um vizinho.

E se for uma amizade antiga? Um amigo que esteve por muito tempo ao seu lado? Um amigo que te conhece até os pensamentos? Um amigo com quem você enfrentou, ombro a ombro, muitas dificuldades e com quem gozou de muitas alegrias? Pior ainda para você, pois como a água que mina com o tempo, aqui essa amizade se alastrou no seu coração a tal ponto que atingiu profundamente, sua falta configura um vazio de uma profundidade estonteante.

Então qual seria a solução? Bom, na melhor das hipóteses tudo é uma grande paranoia insegura fruto da sua imaginação. Por medo de perder seu bem mais precioso você se dispôs a perdê-lo mentalmente para se sentir mais desapegado ou tudo não passa de uma lente de aumento que se pôs sobre a situação, exagerando onde não há o que temer. Porém, pode ser que por mais que você tente se conter, perceba que realmente não flui mais. Então lamento em dar esse diagnóstico, mas sua amizade veio a óbito.

Então, insisto, qual seria a solução? Há reanimações que podem ser feitas. Mesmo laços fortes, quando rompidos podem ser reatados. Às vezes basta engolir o orgulho e pedir desculpas. Nesse caso, há ainda esperanças! Pode se reconquistar a amizade, a confiança, a cumplicidade e os sonhos em comum. Dizem os antigos que a esperança é a última que morrer, mas isso não significa que seja imortal, só que agonize por mais tempo. Morta a esperança é preciso coragem de admitir com pesar o fim daquilo que era bom demais.

Então, insisto novamente, qual seria a solução? Não há solução! Não sou do tipo de pessoa que tem fórmulas mágicas para resolver problemas complexos, o nome disso é autor de autoajuda. Uma das maiores desgraças que poderiam acontecer-te aconteceu e só uma criança estúpida acharia que com um amontoado de palavras poderia se resolver. Quando se morre alguém, não há fórmula mágica para trazê-la novamente. O que se pode fazer é lidar com a dor, não perder a cabeça e tentar seguir adiante de cabeça erguida. Aqui se aplica a mesma situação, por isso insisti na ideia de que a amizade morreu.

Em primeiro lugar, virá a tristeza, o sentimento de vazio devido à falta que só aquele amigo podia preencher com um sorriso, uma conversa, um desabafo ou simplesmente pela presença. Aqui é necessária a coragem de encarar os fatos e não se esconder em fantasias: acabou! Vai doer deveras, mas é o início do processo. Não se sai do luto de uma morte que não se aceitou e, na verdade, nem se entrou no luto ainda.

E não faça o que de pior há de fazer: perder sua dignidade. Talvez o desespero diga que vale a pena se humilhar, a ter sangue de barata e como um cãozinho implorar por perdão e se por aos pés do amo. Por mais que o sangue de inseto clame, não ceda a esses ímpetos! Mantenha sua dignidade! Tornar-se capacho vai matar a necessidade da presença do outro, mas já não é mais amizade, é uma caricatura grotesca.

Diante dessa realidade de perca (Sinto muito!), muitas coisas poderão ser motivos de uma maré de recordações que podem despertar a tristeza: os gostos em comum; as coisas que ganhou de presente; as músicas, livros e filmes que curtiam juntos; alguns gestos e rituais que eram próprios de vocês; as fotos e tantas outras coisas. Pior ainda se tiver que ver a cara dessa pessoa e saber que ali já não há mais um bálsamo de conforto.

Lidando com essa dor, e o único modo é sofrer, surgirá a ideia de buscar um alívio, de repente, outra pessoa. Balela! Besteira! Burrice! O movimento é um fracasso do início ao fim: busca-se A em B, não se acha A em B, porque B é B e não A. Frustra-se com B porque não pode dar A, no fim, já não tem nem A nem B. É uma lógica muito simples, mas o calor da emoção e do desespero não vai permitir raciocinar dessa forma.

E como aliviar a dor? Não vai! Deixe doer até parar de doer. Na melhor das hipóteses você vai tirar uma lição disso tudo e se tornar mais sábio, bastará refletir nos seus erros e evitar cometê-los no futuro. Na pior das hipóteses você vai refletir sobre tudo isso e se tornará mais amargurado. É, quem diria, mas onde você não refletiu nada foi ruim, mas não foi pior do que refletiu de forma pessimista.

No fim, a dor passará, pois nem mesmo o diabo sofre eternamente. E olha que ele está no tormento eterno, no fogo inextinguível. Então um dia vai parar de doer, um dia você viverá normalmente, um dia você conseguirá até outro amigo e, espero, esse não perderá, pois terá aprendido com seus erros.

O que quero dizer em suma é que perder um amigo é algo dolorido, e como! Mas que você precisa suportar a dor, por mais que isso pareça loucura na sociedade hedonista em que vivemos. Deve-se aceitar com coragem essa dor, mesmo que seja a dor mais cruel possível. Ora, perder uma paixão dói e leva a gente a fazer música de má qualidade, mas é normal, pois é mero sentimento. Perder um amigo é algo que dói muito mais, pois é perder algo mais espiritual, daí que o poeta dizia que suportaria que morressem todos seus amores, mas não viveria se morressem todos os seus amigos.

Enfim, aqui não se trata de dizer qual amor é mais importante, eros ou philia, trata-se de explicar que a perda de uma amizade verdadeira de fato é algo dolorido, e que não há método para não sofrer. O que quero dizer é: sofra, desgraçado! Sofra! Você perdeu o que de mais importante tinha tens direito de sofrer. Agora, sofre com paciência que uma hora a gente se acostuma.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. É seminarista da Diocese de Anápolis. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.