Santa Carona

Contra o MVNDO MODERNO

“O mundo moderno não será punido. Ele é a punição.” Nicolás Gómez Dávila

 

É incrível que, a cada dia, temos mais amostras de como o passar do tempo consegue mostrar a estupidez do ser humano. Para observar isso dê uma olhada para os lados na rua, ou abra um site de notícias, ou vá até um reduto descolado da internet: de alguém que se tornou um dragão, ou que se acha uma criança de 6 anos (mas é um velho de mais de 50), ou que se apaixonou por carros ou que diz ser impossível viver em um mundo ocidental regido pela noção de família (falam isso, mas nada de ir para um califado tentar ser diferentão). Por essas e outras parece que nos dias modernos as loucuras são cada vez piores.

Sob tal condição, tornou-se comum repetir como jargão pelos meios virtuais o título da obra do filósofo gnóstico Julius Evola: “Revolta contra o mundo moderno” (ou alguma referência a esse sentimento que abarca muitos). Mas para além de pensar o quão problemático possa ser a leitura de um cara como o Evola[1], vamos pensar no jargão, nessa revolta, e tentar entender onde ele pode ser usado e de quais maneiras entendê-lo. Assim sendo, dentro dessa revolta contra o mundo moderno, podemos retirar: A- uma simples (e boa) piada; B- a queda em uma visão pautada na ideologia; C- entender o que é esse “mundo moderno” contra o qual devemos nos revoltar, sem ideologia, e com uma boa dose de piadas.

Como piada, o mundo moderno é o que nós vemos. Uma loucura que, para não deixarmos ser engolidos, temos que rir. O mundo louco, mas coberto de “razão”, cobra de nós uma zombaria constante. Vejam que o nosso estado atual impede que façamos uma classificação por idade das coisas e assim a TV e a internet espalham a cada dia mais besteiras; pais tentarem instruir com maior presença e rigidez o aprendizado de seus filhos é um absurdo, uma opressão, uma tirania fascista; somos retrógrados, doidos e não entendemos que o “normal” passou a ser chamar de belo o horrendo, de bom o mau, de certo o errado e de verdade a mentira. Imagine a dor de cabeça que é dizer que alguém não é o que ele diz ser, como no exemplo do homem com mais de cinquenta anos que diz ser uma garotinha de 10, ou daquele outro que se diz um dragão. Contra tanta loucura, contra essa estupidez intelectual que tomou conta de nosso cotidiano como uma gangrena, levantamos a revolta contra o mundo moderno. Uma revolta baseada no riso, com uma piada como arma. É simples, fácil e raramente cria discussão. O ódio ao mundo moderno, o desejo de destruí-lo, vem como válvula de escape, para deixarmos claro que toda essa loucura pode ser objeto de nossa reprovação e com bom humor. Entra nesse âmbito uma série de preciosismos e estilos. Compartilhar coisas belas, exaltar a família, louvar os bons elementos do passado, utilizar uma grafia arcaica, etc. São boas formas para mostrar de uma maneira sadia, sem exageros de discussões intermináveis e que não levarão a nada, que há uma revolta contra as loucuras perpetuadas pelo nosso mundo louco “pós-hiper-mega-ultra-moderno”. São piadas com uma profunda realidade, ou como diziam os mais velhos, são como tapas com luva de pelica.

Mas, devemos ter cuidado em como combater esse mundo moderno. Veja que a idade moderna – e a contemporânea – trouxe uma série de benesses materiais/científicas/técnicas para nós: tecnologia e ciência para combater muitas doenças, criaram inúmeras ferramentas importantes e que já não conseguimos ficar sem (o próprio computador/celular onde você está lendo esse texto). Com a internet, por exemplo, é que cresceu muito o acesso aos conteúdos relacionados ao conservadorismo, ao combate contra as ideologias, a difusão de autores, etc. Assim, um ódio real a tudo que é novo, que abandone um pensamento de que o passado foi uma era de ouro onde tudo que havia foi perfeito, é uma idolatria boba e no fim das contas acaba se tornando mais uma ideologia.

Pensar em uma volta no tempo é hipocrisia, uma ideologia tosca de pessoas que podem se dizer qualquer coisa, menos conservadoras e livres de alienação ideológica[2]. Devemos ter ciência daquilo que é objeto de combate, o que é o “mundo moderno” que merece destruição. É necessário saber que é um combate do “espírito, não da carne”.

Didaticamente dizemos que a modernidade tem início na metade do século XV – na triste data da tomada de Constantinopla pelos turcos-otomanos em 1453. Claro que não é como uma virada de ano e pronto, agora todos são modernos. A coisa é tão complicada que uma infinidade de costumes e pensamentos antigos e medievais ainda vão transitando com força nas mentalidades até por volta do domínio intelectual iluminista. O processo é algo que primeiro dá autonomia do homem frente a Deus, depois dá à Razão status divino, cria o estado moderno e o seu controle sobre a vida das pessoas como nunca fora visto outrora. E assim vão pavimentando o caminho para as grandes revoluções que enfrentaremos durante os séculos XVIII e XX.

O homem moderno culmina no ilustrado, que iluminado pela ciência nega Deus, dá ao homem a completa métrica para fazer o bem e o mal, enterrando o transcendente e fazendo de questões como beleza, verdade e bem resultados de “processos democráticos”, da vontade da maioria, do resultado daquilo que é comum na opinião pública. O império da vontade do homem levanta-se e a realidade não será mais uma imposição clara ao homem, o que importa é o querer, a ordenação progressista e humanista, mas que trará um caos e uma desordem sem precedentes. Simplesmente porque essas diretrizes que dão suporte para a modernidade esbarram na própria realidade, assim, o que irá imperar (e já vemos isso) nesses dias será o ressentimento por não existir uma forma de satisfação plena, de realização absoluta das vontades e de não ser possível enganar a realidade com a simples ideia de “eu vejo assim”, “eu acho isso”, “eu quero e tem que ser assim, você então tem que aceitar”.

O homem ilustrado, racional e conhecedor das leis e do trajeto humano até o progresso, perde-se em mortes, guerras e genocídios no século XX; fica lançado em um deserto sem saber para onde ir. Nada conseguirá dar a ele o sentido de vida. A realidade é absurda, vale apenas aproveitar da maior quantidade possível de sensações. A pós-modernidade é claramente um retorno à barbárie. Uma horda de seres amorfos, tornados iguais pela louca vontade de distinção, mas as cobranças tornam todos um bando de medíocres cada vez mais idênticos em vontades, exigências e até esteticamente falando são muito similares. São cada vez mais idênticos, mais controláveis e controlados, mais unidos dentro de um sistema ideológico que, mesmo parecendo múltiplo, na verdade é uma entidade de inúmeros tentáculos que tudo leva para um centro de destruição da pessoa e, por conseguinte, da sociedade e civilização. Estamos em dias obscuros a contemplar realidades que dariam medo aos mais visionários escritores proféticos de distopias.

É esse mundo moderno, o mundo de um ser humano vazio, doente, sem identidade e que não consegue mais abandonar o leito de Proscuto no qual foi moldado. É justamente a reprodução e propagação dessa bárbara forma de vida que nos leva a negar qualquer coisa que remeta a virtudes, moral, honra, ao concreto e real e as possibilidades do transcendente que deve ser combatido no mundo moderno. O combate é por aquelas coisas que são permanentes, é para se manter as boas raízes da cultura que formou o Ocidente e resultou em grandes frutos. É o combate por uma possibilidade de educação liberal que leve ao crescimento por um aprendizado real que não seja uma destruição da consciência da realidade.

O combate contra o MVNDO MODERNO, a REVOLTA CONTRA ELE, o ÓDIO que clama por sua destruição, aquele sentimento de estar PVCTO por causa disso tudo é uma ideia de recuperação dos elementos mais importantes do homem, é o resgate da nossa geração em meio ao caos e barbárie. Devemos ter consciência da complexidade da luta, que não vivemos em uma situação binária, com uma simples distinção de tons preto e branco, mas que a zona de guerra é uma vastíssima escala em tons cinzas.

Antes de pensarmos que devemos ser monstros atemporais, que vivem em outros tempos, apartados da realidade, devemos adotar uma postura de reação contra aquilo que realmente é motivo dos nossos males. Assim sendo, uma ótima atitude é aquela resumida pelo grande Nelson Rodrigues: “Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta”. Observando nosso cenário de combate, quem são nossos inimigos, como lutar, aí sim, podemos travar uma boa luta.

 

 


Notas

[1] Uma importante observação sobre esse autor: o próprio Olavo de Carvalho, um dos homens com maior bibliografia lida que temos em atuação do debate público, aconselha que apenas com uma bagagem muito grande de conhecimento possa enveredar pelas loucuras do Sr. Evola.

[2] Sobre esse tema da “Era de Ouro”, recomendo um filme do Wood Allen ‘Meia-Noite em Paris’. No filme o personagem principal vai para a Paris dos anos 1920 e vê que em meio aos artistas que ele idolatra há quem vê em tempos passados uma época melhor. É uma boa reflexão sobre a idealização do passado e uma vida verdadeira no nosso tempo real.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.