Santa Carona

Os Amigos de Deus e o mundo

Ser amigo de Deus é estar na contramão do mundo. Enquanto o mundo vive do orgulho da criatura que acredita piamente ser a ordenadora de todas as coisas no cosmo; enquanto vivem na aniquilação de si pelo prazer efêmero comprado ao preço da própria dignidade pessoal, Deus mostra-se justamente quem nos acolhe, nos dá liberdade, sentido pessoal e humano, coisas que vão além das misérias descartáveis que passam debaixo do sol.

Aqueles que buscam uma real amizade com Deus passam pela sua presença real, são visitados por Ele. Sãos os que estão envolvidos pelo phatos Divino (conceito da teologia oriental lembrado por Pondé no livro ‘Crítica e Profecia’). Estão próximos de Deus, juntos a Ele, foram divinizados por Ele.

Independentes de serem pessoas de sucesso em vida, estão (na maioria das vezes) em posição contrária a isso no mundo. São pessoas que passam pelo mesmo que o próprio Cristo. São uma imitação Dele. Lembremo-nos de Chesterton aqui, pois ele comentou de forma curta a vida que haveriam de levar os seguidores do Senhor:

Jesus prometeu a seus discípulos três coisas: seriam completamente destemidos, absurdamente felizes, e… com problemas constantes.

Para quem pensar que isso é absurdo, que essa entrega e amizade é algo insano, deve se lembrar de que é uma entrega à Verdade, à Perfeição. É a entrega à Vontade de Deus: esta é igual a Sabedoria, que por sua vez é Bondade infinita, e que nada mais é que Amor. Nessa condição plena de conhecimento Dele, que é Tudo, qualquer outra coisa torna-se nada. Dores, angustias e contrariedades cotidianas são misérias que não merecem tirar nossa paz.

Ao observarmos a vida dos grandes amigos de Deus, vemos que independente da situação, do sofrimento, da tragédia que se abatia, estavam de pé, pronto para continuar seu caminho. As contrariedades eram momentos para aproximarem cada vez mais do grande Amigo, do Amado, para lembrar muitas das interpretações feitas a partir do Cântico dos Cânticos. Hoje, para nossas realizações cotidianas, não estamos sendo levados para uma arena a ser destroçados por feras, nem assados vivos, tampouco esfolados. Talvez vivamos as formas atuais de perseguições, ou até mesmo apenas nos deparamos com as situações próprias da condição de contingência da vida. E em muitas dessas ocasiões não conseguimos abandonar os estados de sentimentos iniciais criados. Raiva, desânimo, aflição e covardia para ação de retomada da vida. Normalmente são sentimentos que envolvem o esquecimento de que Ele está conosco.

Se estamos constantemente nos aproximando de Deus, fazendo com que a presença Dele seja relembrada a todo momento, estamos preenchidos de suas consolações, sabendo que em nenhuma condição estamos realmente sós, mas que está conosco Tudo (precisamos disso, desse lembrete constante, porque como ingratos que somos, nossas lembranças sobre os benefícios concedidos por Ele são rapidamente esquecidas, e parecemos largados no trajeto da vida, o que é uma absurda ingratidão). Em um trecho importante de sua homilia ‘Caminho da Santidade’, São Josemaria nos recorda dessa realidade do sofrer e da consolação que são presentes na vida:

Vemo-nos acossados por toda a espécie de tribulações, mas não perdemos o ânimo; encontramo-nos em grandes apertos, mas não desesperados e sem meios; somos perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não inteiramente perdidos; trazemos sempre no nosso corpo, por toda a parte, a mortificação de Jesus.

Imaginamos, além disso, que o Senhor não nos escuta, que andamos enganados, que só se ouve o monólogo da nossa voz. Sentimo-nos como que sem apoio sobre a terra e abandonados pelo céu. No entanto, é verdadeiro e prático o nosso horror ao pecado, mesmo venial. Com a teimosia da Cananéia, prostramo-nos rendidamente como ela, que o adorou implorando: Senhor, ajuda-me. Desaparecerá a escuridão, superada pela luz do Amor.

A condição de conscientes da necessidade de Deus, de trazê-lo constantemente junto de Nós é importante para os lembretes de que, se temos Tudo, se nossa proximidade com Ele é procurada incansavelmente, nada mais poderá deixar-nos inquietos o suficiente para que o transcorrer da vida perca o sentido. Qualquer coisa é passageira, tudo é pedagógico e recebe um sentido sobrenatural. Saber que tudo é vão, e que só Ele é e nós procuramos estar com Ele frequentemente, é motivo de fortificação frequente.

Assim, os versos de Santa Teresa d’Ávila passam a ecoar ao fundo como uma litania que deveria ser perene em nossas vidas:

 

Nada te turbe,

nada te espante.

Tudo passa;

Deus não muda.

A paciência

tudo alcança.

Quem a Deus tem,

nada lhe falta.

Só Deus basta.

 

Ao procurar tonar-se amigo de Deus, de tudo entregar a Ele, nada mais tem aquele peso esmagador que destrói uma vida, ou que acaba com a intenção de viver. Tudo é transitório, passageiro e o que importa está além das capacidades humanas de ser removido. Tudo o mais tem outro sentido quando a decisão de adorar realmente, de se entregar a Deus é feita. Porque, enfim, encontramos Tudo.

Com essas constatações, faz-nos eco a referência ao que mencionou Henri-Frédéric Amiel em uma das páginas de seu Diário:

A imagem deste mundo passa. Sem a posse da eternidade, sem a visão religiosa da vida, estes dias fugitivos são apenas motivo de assombro. A felicidade deve ser uma prece, e a desgraça também. A fé na ordem moral e na paternidade protetora da divindade apareceu-me em sua grave mansuetude.

Pense, ame, aja e sofra em Deus:

Esta é a grande ciência.

Nossos sofrimentos desesperados que não enxergam solução, são criados quando esquecemos do que importa: quando esquecemos de sermos próximos de Deus. Todo o sofrimento, do Éden até hoje, é o sofrimento por afastarmo-nos de Deus.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.