Santa Carona

O sofrimento e a liberdade interior

“Precisamos aprender e também ensinar às pessoas em desespero que a rigor nunca e jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós”. Viktor Frankl.

 

Analisando a vida desde o nascimento até a morte, não só a nossa vida como a de outras pessoas, ela é constituída em grande parte por sofrimento, angústias interiores e exteriores, junto com suas dúvidas. A sobrevivência consiste em encontrar um significado na dor, encontrar um bem no mal, descobrir esse propósito por si mesmo. Ao falar deste assunto cabe aqui uma análise de alguns trechos do livro Em Busca do Sentido do autor Victor E. Frankl. Ao contrario de muitos existencialistas da Europa, Frankl não é pessimista e nem anti-religioso, mas possui uma visão positiva sobre a capacidade humana de ir além de sua dor e sofrimento. Frankl era um médico psiquiatra judeu, que passou três anos nos campos de concentração e perdeu o pai, a mãe, o irmão e a esposa nos campos de concentração ou em crematórios.

Não é preciso citar aqui os tipos de torturas que aconteciam nestes campos, creio que muitos já ouviram pelo ao menos falar, mas abordarei o que é gerado como resultado dessas torturas, variando de indivíduo para indivíduo. O choque do primeiro impacto que os prisioneiros têm é óbvio. Eles passam por grandes humilhações, assistem colegas sendo torturados com horror e sentem muito medo, inclusive e principalmente das seleções, no qual analisavam quem não servia para o “trabalho” e que deveria ir para a câmara de gás. Diante de tantos terrores, vem o questionamento: Como é que Frankl e alguns prisioneiros conseguiram encarar a vida como algo que realmente valia a pena preservar, sendo que em um campo de concentração tudo conspira para fazer com que o prisioneiro perca seu controle?

O autor durante o período de prisão tenta buscar um sentido para o sofrimento, ajudando não somente a si mesmo, mas também seus colegas, para que “não entreguem os pontos”.

“A maioria se preocupava com a questão:  Será que vamos sobreviver ao campo de concentração? Pois caso contrário todo esse sofrimento não tem sentido”. Em contraste, a pergunta que me afligia era outra: “Será que tem sentido todo esse sofrimento, essa morte ao nosso redor? Pois caso contrário, afinal de contas, não faz sentido sobreviver ao campo de concentração”. Uma vida cujo sentido depende exclusivamente de se escapar com ela ou não e, portanto, das boas graças de semelhante acaso – uma vida dessas nem valeria a pena sobreviver”.

Frankl começou a avaliar juntamente com o sofrimento, aonde estava a liberdade. Não sabe o homem que ele tem sua liberdade interior? O ser humano vai muito além de sua constituição física, disposição caracterológica e de sua situação social. As circunstancias exteriores podem interferir na liberdade do homem, obrigando àquelas situações, mas e a liberdade interior? No caso da liberdade interior, a pessoa pode agir “fora do esquema”, como diz o autor.

“Quem dos que passaram pelo campo de concentração não saberia falar daquelas figuras humanas que caminhavam pela área de formatura dos prisioneiros, ou de barracão em barracão, dando aqui uma palavra de carinho, entregando ali a última lasca de pão?”

A liberdade interior do homem não se lhe pode tirar, e como aconteceu na citação acima, apesar de terem sido poucos casos, prova-se que as circunstancias exteriores, como em um campo de concentração, pode privar a pessoa de tudo, menos de sua liberdade interior, em buscar uma alternativa perante às condições apresentadas. O ser humano pode decidir de alguma maneira o seu fim em sentido espiritual: “ser um típico prisioneiro de campo de concentração, ou então uma pessoa humana, que também ali permanece sendo humano e conserva sua dignidade”. O autor se impressiona com aqueles prisioneiros, mártires, cujo sofrimento e morte testemunham essa liberdade interior último do ser humano, que não se perde. Eles provaram que inerente ao sofrimento há uma conquista, que é uma conquista interior. Aqui lembramos de Santa Edith Stein e São Maximiliano Maria Kolbe, que foram mártires no campo de concentração e demonstraram de forma heroica como trabalharam a sua liberdade interior, levando às conquistas espirituais.

Uma outra observação interessante que o autor faz é sobre o porquê que muitas vezes, pessoas de constituição mais delicada conseguem suportar melhor a vida em um campo de concentração do que pessoas com natureza mais robusta. Muitas vezes essas pessoas sensíveis, experimentarão de forma dolorosa a difícil situação extrema do campo de concentração e não obstante, ter para elas efeitos menos destrutivos em sua existência espiritual, principalmente àquelas habituadas a uma vida intelectual e abundantemente ativa. Isso porque justamente para essas pessoas, a possibilidade de se retirar daquele ambiente horrível para se refugiar em um domínio de liberdade espiritual e riqueza interior, permanece aberto.

Em um campo de concentração a pessoa procura submergir-se na massa, numa tentativa de auto-preservação, para não chamar a atenção da SS. Há, poucas vezes, ocasiões em que é necessário e possível afastar-se da massa e muitos “ gostam dessa possibilidade”.

“É fato notório que a companhia ininterrupta de tantos parceiros de sofrimento, à toda hora, em todos os atos triviais do cotidiano, cria muitas vezes uma ânsia irresistível de escapar dessa permanente comunhão compulsória, ao mesmo tempo algum tempo. A gente é formado pelo desejo profundo de ficar sozinho consigo mesmo, com os próprios pensamentos, pela saudade de um lugar de recolhimento e solidão.”

Frankl fala sobre esse encontro consigo mesmo, um distanciamento dos barulhos e horrores do campo. Abrindo um parêntese nesse assunto sobre silencio e solidão, é importante frisar que estes são muito importantes e não se trata aqui de um isolamento depressivo, mas um tipo de solidão que proporciona o contato com Deus e consigo mesmo

Viktor Frankl, passando por todo esse sofrimento do campo de concentração por três longos anos, enxergou um pensamento que a Igreja Católica já havia adotado ao longo dos séculos, de que quando uma pessoa passa por um sofrimento, inclusive um sofrimento muito grande como o de Frankl, e infere a este sofrimento um sentido, fica menos complicado suportá-lo. Santo Agostinho dizia que “Deus onipotente, sendo sumamente bom, não deixaria mal algum em sua obra, se não fosse tão poderoso e bom que pudesse tirar até do mal o bem…” (conf. Enchir. 11,3).  Quando o ser humano dá um sentido sobrenatural ao sofrimento, este sofrimento acaba se tornando algo mais aceitável, tudo depende do modo de como aceitamos essas situações. Frankl consegui demonstrar de forma clara como isso acontece e o modo como o ser humano pode fazer uso de sua liberdade interior, de sua espiritualidade, fazendo com que até a dor e a morte tenham um sentido, como alguns mártires do campo de concentração fizeram e que causava espanto ao demais, inclusive a Frankl. Pois como o mesmo o diz  “claro, aqueles que fossem crentes no sentido religioso poderiam entendê-lo com facilidade”, pois estes conseguem dar um sentido sobrenatural à dor.

“De uma forma ou de outra, para cada um dos libertos chegará o dia em que, contemplando em retrospecto a experiência do campo de concentração, terá uma estranha sensação. Ele mesmo não conseguirá mais entender como foi capaz de suportar tudo aquilo que lhe foi exigido no campo de concentração. E se houve um dia em sua vida em que a liberdade lhe parecia um lindo sonho, virá também o dia em que toda a experiência sofrida no campo de concentração lhe parecerá um mero pesadelo. Essa experiência do libertado, porém, é coroada pelo maravilhoso sentimento de que nada mais precisa temer neste mundo depois de tudo que sofreu – a não ser seu Deus”. Viktor Frankl.

 

 

 

Pabline Gasparoti

Goiana, graduada em farmácia, catequista, gosto de uma boa leitura e sou apaixonada por Deus.