Santa Carona

Contra os imprestáveis

Em uma conversa com um amigo, comentei que não é saudável nos relacionarmos com alguém que não leve a melhorar algo em nós. E isso é algo nítido: se você está com alguém que não te ajuda a melhorar em nada, que destrói seu espírito e não ajuda a aprimorar suas virtudes, saia dessa enrascada.

Há um relato interessante que o venerável dom Fulton Sheen faz em um de seus livros, que ajuda a ilustrar bem essa observação. Ele conta sobre uma carta do escritor francês Victor Hugo para sua noiva em 1820. Dizia assim:

É o desejo de ser digno de você que me tornou tão austero comigo mesmo. Se sou constantemente preservado dos excessos tão comuns à minha idade, os quais o mundo tão facilmente justifica, não é porque não tive chance de pecar; mas sim porque pensar em você constantemente me preserva[1].

Com isso vemos como uma pessoa pode nos ajudar a lutarmos contra problemas, nos fornecer algo para fortalecer nossas intenções, firmarmos limites e garantir fidelidade aos princípios.

De modo amplo, podemos levar isso para todos os campos da vida. Se alguém do seu círculo de convivência é visto com muita estima por você, mas é uma pessoa medíocre, que apenas rebaixa sua relação com os outros e consigo mesmo, há algo errado. Essa pessoa é alguém imprestável para se relacionar e não merece atenção, esforço e amizade caso ela não perceba esse problema e não queira, sob hipótese alguma, resolvê-lo.

O outro, como questão de análise em uma literatura que passa por Vicente Ferreira da Silva, Gustavo Corção e Louis Lavelle só para mencionar alguns autores, é aquele que nos leva justamente a reforçar, a ampliar, o reconhecimento de nós mesmos por ser o limite de nós, por nos forçar a um encontro real e a uma abertura que eleva o que somos e aquilo que temos em nós. Saber isso faz com que esse relacionamento expansivo seja visto como enriquecedor, como ponto de partida para a superação daqueles medos, vícios e males que sozinhos não conseguimos abandonar. Seja pelo incentivo, pela força do exemplo, pela necessidade de ser exemplo, de enxergar que precisamos ser melhores para oferecer o melhor, uma companhia certa nos ajuda nessa empreitada. Com essa visão vamos de nós ao outro e trilhamos o caminho para a transcendência. Caminho esse que, pode partir do amor ao próximo e auxiliar a compreender o Amor de Deus.

Pois bem, aqui entramos em um campo de atuação de nossos familiares que é importante. Lembremo-nos de quando crianças e nossos pais não permitiam certas amizades, que frequentássemos determinados lugares. Era justamente pelo tipo de influência que poderia surgir desse convívio. Não que seja um condicionamento determinista que virá a levar, com 100% de precisão, a uma formação da personalidade idêntica à de quem se é amigo ou dos frequentadores de lugar X. Mas essa situação pode fazer com que certos hábitos e ações, pensamentos e imagens, fiquem armazenados, atenuando certas posturas morais e levando a uma anestesia para determinados temas que futuramente serão importantes e necessitarão de maior sensibilidade. Vícios e degradações do imaginário podem surgir de uma pessoa que se abre à influência de outro. Ao invés de um crescimento pessoal tendo como auxílio outras pessoas, acabamos por cavar um abismo.

Certa vez, Dostoiévski recebeu uma carta de uma mão que pedia ao escritor, conselhos para como lidar com o filho. Conhecedor da alma humana como era, envio a essa mãe outra carta que deixava em seu cerne a seguinte observação:

A lembrança das boas qualidades de nossos pais – de seu amor à verdade, de sua retidão, da bondade de seu coração, de seu desprendimento da falsa vergonha e de sua constante relutância diante da mentira – tudo isto cedo ou tarde fará de seu filho uma nova criatura: acredite em mim[2].

A importância que isso exerce em certos casos pode ser ilustrada por uma das obras biográficas do monge ortodoxo romeno Nicolae Stenhardt, ‘Por outros em direção a mim mesmo’. Com esse título significativo podemos ver que as pessoas ao nosso redor são auxílios preciosos para nós. No caso de N. Stenhardt, ele menciona o peso que teve o filósofo Constantin Noica na sua formação, na sua criação intelectual e até mesmo na sua aproximação com o cristianismo[3].

Ao tomarmos a Sagrada Escritura encontraremos também bons exemplos sobre a convivência com outras pessoas. Se tomarmos o trecho dos Provérbios 13, 20 vamos ler que:

Aquele que anda como homens sábios será sábio, mas um companheiro de tolos será destruído.

Simples e preciso, esse ensinamento tradicional milenar oferece um mar de reflexões sobre aqueles com quem nos relacionamos. Se buscamos sempre cercados por pessoas que são perversas, que fazem crescer em nós apenas nossas expressões pessoais mais baixas, qual o sentido dessa relação?

Jordan Peterson traz uma pergunta ainda mais forte: “esse seu amigo mau caráter é alguém que você apresentaria para seus pais, para sua família para que deles também fosse amigo”[4]? Se sua resposta for negativa, qual o sentido existe de você ser amigo de alguém assim?

Em um estágio mais profundo das relações, o psiquiatra Viktor Frankl traz uma reflexão perspicaz. Olhemos para quem amamos e vemos a reação que causa. A pessoa que ocupa esse espaço na nossa vida é alguém que causa que tipo de resposta? Segundo ele,

Através do seu amor a pessoa que ama capacita a pessoa amada a realizar suas potencialidades. Conscientizando-a do que ela pode ser e do que deveria vir a ser. Aquele que ama faz com que estas potencialidades venham a se realizar.

Em uma relação íntima entre um homem e uma mulher, aquilo que surge do amor não é nada estático, é vibração constante, é movimento, crescimento, é realização… é vida. Compreender como o outro tem esse papel importante leva a entender as relações como algo mais que simples companhia, que mero objeto para ter um prazer consentido socialmente. É ter consigo alguém que seja complemento daquilo que você ainda não tem, que leve ao crescimento daquilo que você sabe ser necessário. E da mesma forma oferecer-se, de igual modo, sem ressalvas. Assim o crescimento não será unilateral, será único.

Aqui também é válido um chamado ao que escreveu no íntimo de seu Diário o suíço Henri-Frédéric Amiel. Homem que passou a vida solitário, não se casando, mas que via nessa relação algo muito importante para fosse feito de qualquer forma. Não meramente uma realização social dentro das expectativas criadas pelo contexto, mas sim a união com intuito de crescimento mútuo, de entrega real e da realização de um plano que envolveria a salvação.

Guardou a seguinte nota no dia 6 de novembro de 1852:

Não quero estas paixões de palha que deslumbram, consomem ou secam; chamo, aguardo e espero ainda o grande, o santo, o grave e sério amor que vive em todas as fibras e em todas as potências da alma. Toda a mulher que não o compreende não é digna de mim. E se hei de permanecer só, prefiro levar minha esperança e meu sonho a malcasar minha alma[5].

A nota de Amiel é o reflexo da compreensão do caráter complementar das uniões. Ou elas levam a um bem comum, uma ação conjunta na qual dois caminharão para uma direção de crescimento e realização, ou tudo é como palha que merece fogo. É tempo perdido, pérolas aos porcos. Aqueles que se dispõem a estar conosco devem ter essa noção do caminho conjunto, que não são mais dois, agora são um, e que se permanecem divididos nas intenções, o resultado sempre será ruptura.

Com nossas companhias, sejam amores ou amigos, devemos ter a consciência da complementariedade. Caso contrário, estaremos simplesmente a usar as pessoas. E isso é um crime.

 


Notas

[1] Do livro “Vale a Pena Viver”.

[2] Carta que pode ser conferida no livro “Dostoievski. Correspondência. 1838-1880.”

[3] Stenhardt vinha de uma família judia, mas que não praticava a religião. Preso político durante o governo comunista romeno, por ter sido um dos vários intelectuais que negaram formar a intelectualidade comunista exigida pelo governo. Durante o tempo que passa na prisão acaba por se converter ao catolicismo ortodoxo romeno. Posteriormente entrará para o mosteiro de Rohia onde será feito monge no ano de 1980 e lá ficará até sua morte em 1989.

[4] Do livro 12 Rules for Life (12 Regras para a Vida – BR).

[5] No livro “Diário Íntimo”.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.