Santa Carona

O inferno como medo e o Paraíso como amor

“O inferno é a incapacidade de amar.” Dostoiévski

 

A nossa realidade nesse vale de lágrimas é a busca pela redenção, a salvação eterna, a buscar por poder contemplar a Deus face a face pela eternidade. Muitos se dedicam inteiramente a isso, independente da condição que vivem nesse mundo, e a busca de uma vida que leve a esse fim é tudo. Mas outros pouco se importam, ou fingem não importar. Sinceramente vivem como se nada houvesse após a morte, ou não ligam para as questões espirituais, ou simplesmente postergam a conversão para amanhã. Em alguns casos o amanhã não chega e a pessoa vai para o extremo oposto da salvação. Perde sua alma e assim será apartado da presença de Deus, o sumo Bem. Estará nas trevas, local onde haverá eternamente choro e ranger de dentes, será lançado na Gehenna, no fogo eterno, em meio a enxofre. E lá permanecerá em um mundo de sofrimento, ódio, dores e angústias inenarráveis na companhia do diabo e dos seus anjos. Pronto. Pense como seria a eternidade sob tais condições. Entre o gozo perpétuo e a felicidade da contemplação de Deus ou o oposto, a desgraça eterna junto a Satanás.

O que normalmente chama atenção é que ao depararmos com tais descrições, é visivelmente mais comum que a narrativa do inferno seja mais tocante. As formas como o Paraíso são descritas não necessariamente causam uma imensa comoção imediata e clama a uma conversão instantânea. Mas descrever o inferno e seus tormentos causa medo, desconforto, até mesmo assusta àqueles mais sensíveis. A situação é tão desconfortável que alguns pedem rápido que mude de assunto, que esqueça o tema e passem a falar de qualquer outra coisa. O inferno incomoda, mesmo aqueles que não querem se preocupar com ele no momento. Nessa visão, acabamos por presenciar as duas imagens distintas que o senso comum cria dessas realidades do pós-morte: a de um Paraíso como um lugar calmo, monótono, onde anjinhos tocam harpa e tudo é melancolicamente belo e sem nenhum problema, onde pessoas transitam como se estivessem em um parque nobre e todos fossem esnobes sem emoções; e a de um inferno catastrófico, soma de todas as desgraças criadas pelo homem a algumas novidades que imaginações férteis ainda conseguiriam criar, como torturas inesgotáveis, gritos aterrorizantes, criaturas que mexem com a sanidade mental de uns e outros. Basta observar em nossas plataformas de mídia como as duas realidades oferecidas no pós-vida são representadas tanto em comédias quanto nos filmes mais sérios, na grande literatura ou nos quadrinhos.

O pensamento sobre essa situação das representações narrativas e as analogias feitas veio de um “insight” na leitura da Filoteia de São Francisco de Sales. Entre os exercícios que ele propõe para que a pessoa alcance a vida devota, estão duas meditações, uma sobre o inferno e outra sobre o Paraíso. O texto introdutório sobre a primeira meditação é o seguinte:

Imagina uma cidade envolta em trevas, toda ardendo em chamas de enxofre e pez, que levantam uma fumaça horrível, e toda cheia de habitantes desesperados, que dela não podem sair nem morrer.

Os condenados estão no abismo do inferno, como desventurados habitantes dessa cidade de horrores. Padecem dores incalculáveis em todos os seus sentidos e em todo o corpo; pois, assim como empregaram todo o seu ser para pecar, sofrerão também em todo ele as penas devidas ao pecado. Deste modo, sofrerão os olhos por seus olhares pecaminosos, vendo perto de si os demônios em mil figuras hediondas e contemplando o inferno inteiro. Aí só se ouvirão lamentos, desesperos, blasfêmias, palavras diabólicas, para punir por estes tormentos os pecados cometidos por meio dos ouvidos. E de modo análogo acontecerá aos demais sentidos.

Além destes tormentos, existe ainda um outro muito maior. É a privação e a perda da glória de Deus, que jamais verão.[1]

O relato da Filoteia segue o mencionado sobre as formas do inferno. Amedronta, mostra inúmeros tormentos e deixa apreensivo o leitor. Realizar a meditação sobre o inferno, antes de chegar no trecho que menciona a perda da possibilidade de contemplar a Deus, é por si só uma forma de querer nos afastar de tamanha perdição. É como comenta o monge Stenhardt[2] ao dizer que há em nós uma forma de contrição imperfeita, a que é causada pelo medo da danação, não pelo amor a Deus. O que é algo imperfeito, mas já é válido para uma alma começar o caminho para a contrição perfeita.

Poderíamos ampliar a quantidade de relatos infernais com visões de santos, como a dos pastorzinhos em Fátima, ou com a literatura, similar ao que Dante fez, e seguir construindo o nosso pandemônio. As formas horrendas de inferno sempre são fáceis de encontrar e de nos assustar. O medo criado acaba acertando diretamente a imaginação, porque as somas de horrores, de tormentos, acabam encontrando reflexo rápido em nossa vida. Estamos sempre suscetíveis a dor, ao abandono, ao sofrimento seja por qualquer motivo. Nos machucamos, nos sentimos desamparados com certa frequentemente. Os tormentos cotidianos parecem ser refletidos nessas descrições, criamos analogias com isso e nossa mente logo encontra um paralelo sensível. O inferno sempre será terrível, as dores e sofrimentos acabam chamando mais atenção que as privações que serão vividas.

Em contrapartida, o Paraíso, local do descanso eterno, não tem uma descrição que comumente suscite analogias rápidas, não há um paraíso que tenha um alcance imediato e generalizado como o inferno. Nesse sentido, o medo acaba vencendo e as possibilidades de danação são mais significativas que as benesses oferecidas.

O mesmo São Francisco de Sales acaba nos mostrando na meditação sobre o Paraíso uma descrição interessante:

Representa-te uma noite serena e tranquila e pondera quão agradável é para a alma contemplar o céu todo resplandecente ao brilho de tantas estrelas. Ajunta a estes encantos inefáveis as delícias dum claro dia, em que os raios mais brilhantes do sol, entretanto, não encobrissem a vista das estrelas e da lua; e, feito isso, dize a ti mesma que tudo isso não é absolutamente nada, em comparação com a beleza e a glória do paraíso. Oh! bem merece os nossos desejos esta mansão encantadora. Ó cidade santa de Deus, quão gloriosa, quão deliciosa és tu! […]

Entregar-te-á admiração de tua pátria celeste. Oh! quão formosa, rica e magnífica és tu, minha Jerusalém querida, e quão ditosos teus habitantes! […]

Vamos, minha alma querida, embora custe algum cansaço; vamos a esta estância de repouso; caminhemos sempre avante para esta terra abençoada, que nos foi prometida; que estamos nós a fazer no Egito?”[3]

O santo doutor nos fala das maravilhas do céu, da convivência na morada de Deus junto aos seus santos, anjos, mártires e todos que alcançaram a graça da salvação. Além disso, temos entre as comparações feitas uma ligação com a busca pela pátria que ainda não alcançamos, a Jerusalém, a saída da terra estrangeira e a posse da Terra Santa. Analogias essas que trazem todo um contexto da história do povo escolhido, mas que de modo geral a poucos alcança.

Mas outros sábios e místicos comentaram muitas vezes sobre a maior das analogias, ou melhor, das realidades que podemos desfrutar da salvação. Uma condição que, quando conhecemos, sempre nos entregamos e sentimos completados, e no momento que ela passa a ser contemplada na figura Divina, também faz nosso mundo ter outro sentido. A resposta está nas Sagradas Escrituras, perpassa todo o relato sagrado, e no Antigo Testamento tem um livro dedicado a ela. Falo do Cântico dos Cânticos, do amor, daquilo que Deus é e que dificilmente conseguimos lembrar e comparar ao pensar sobre o Paraíso.

O Cântico dos Cânticos é um livro que na sua composição fala do amor de um noivo e sua noiva, do desejo de união de ambos, da vontade de romper distâncias pelo outro, de fazer valer aquilo que é dito: “e sereis uma só carne”. Essa relação amorosa é o símbolo para vermos Deus em toda a Bíblia, é justamente essa união que deve ser buscada entre o ser humano de Deus. A entrega total a um amor íntimo com Ele, que apenas essa doação de um amor real entre o noivo e a noiva podem aproximar para compararmos. E justamente por isso que o Cântico é o livro do místico. Os grandes místicos da história da Igreja destinaram em algum momento algum comentário a esse livro, porque justamente é essa a forma de se ver o Paraíso: o eterno amor, de uma força incalculável e que nos é dado a conhecer, dentro de todas as limitações, no amor humano. Mas desde já evitemos qualquer confusão entre o real amor e o egoísmo, que é tentar possuir outra pessoa, de usá-la para nossa satisfação. Como lembra primorosamente Rafael Llano Cifuentes, o amor deve ser vido sem egoísmo, porque

Aquele que ama verdadeiramente, fá-lo por puro amor, sem segundas intenções, sem motivos secundários: ama com um amor coerente, simples, inteiriço. Com uma entrega total, no espaço – sem reservas – e no tempo – até a morte. Esse amor irrevogável chama-se fidelidade[4].

Peter Kreeft nos lembra no livro Três Filosofias de Vida que Deus está no livro inteiro simbolicamente, que este é o livro mais íntimo da Sagrada Escritura e que descreve o último propósito da vida: “o encontro e o matrimônio de Deus e o homem. Essa é a esperança mais sagrada e feliz do coração humano, a nossa maior necessidade desde que nascemos”[5]. A busca por esse amor que o coração humano procura é justamente a busca por Deus, e por consequência, pelo Paraíso que será estar permanentemente na presença desse amor infinito. Kreeft também nos lembra disso ao fazer uma conexão com a realidade da vida e aquilo que há na narrativa do livro, justamente por ser o amor tema de tora história real de vida. E vai mais adiante destacando que

A Bíblia inteira é uma história de amor porque Deus, o Autor, é Amor. Por trás das aparências de uma história de guerra, de detetive, de tragédia, comédia ou farsa, a vida é uma história de amor. Por isso, o Cântico dos Cânticos é a resposta definitiva à questão do Eclesiastes e à busca de Jó.[6]

Considerando a aventura da vida, sua rapidez e o desejo de preenche-la, o amor é a única coisa que cabe para pensar na sua validade. E como o ser humano não é imanente, mas transcendente, o desejo de amor dele também o é. Vai de encontro justamente com a sua origem, e por consequência a origem do próprio amor, que é justamente Deus, bom e perfeito, quem justamente nos amou primeiro porque bem sabemos que Deus é amor, nos criou por amor, e o amor com amor se paga.

Essa exposição é para nos lembrar daquilo que o Paraíso nos reserva. Vivenciar tudo isso, eternamente, em sua máxima expressão, assim como os místicos conseguiram experimentar aqui na Terra e nem conseguiram palavras para relatar o que foi essa experiência. Voltaram-se ao Cântico dos Cânticos e, partindo dele, expressaram poeticamente o amor sagrado que se vive na contemplação de Deus. É esse o sentimento, a analogia que devemos ter em mente para tentar nos aproximar da descrição do Paraíso. Difícil de criara analogias para tamanhos sentimentos, e ainda mais difícil tentar transformar isso em um lugar tal como é feito com o inferno. Mas devemos tentar usar algumas ferramentas descritivas que poderão, talvez, levantar em nós, meros mortais que buscam humildemente a misericórdia de Deus, sentimentos que tornarão a vontade de estamos nesse lugar, e em sua presença, pelo que ele nos leva a sentir, justamente criando o oposto que as descrições infernais criam.

Como os bons místicos fizeram, tentando tornar inteligível o saboroso mistério do Paraíso, de estar com Deus, de contemplá-Lo e de sentir seu amor infinito, talvez seja interessante seguir o mesmo caminho poético e analógico para tentar realizar a dificílima tarefa de fazer o Paraíso próximo de nosso entendimento limitado. Iniciando com aquilo que oferece o Cântico dos Cânticos, tirando do livro do amor a inspiração, deste que é o livro do místico por excelência, pois é um livro sobre o amor total. Mesmo não vivendo toda a experiência dos Cânticos, cada um já sentiu, uma vez ou outra na vida, em maior ou menor proporção, os tremores de uma possibilidade de começar a viver aqui nesse mundo um amor. Com isso, vejamos como talvez possa ser entendido em nossos sentimentos e sentidos, o doce prazer do Paraíso.

Pensemos que, talvez, estar no paraíso deixe o mesmo sentimento de inquietação e felicidade por ver chegar perto de nós aquela moça na qual estamos pensando muito ultimamente. Ela surge, senta-se ao nosso lado. Conversa sobre as trivialidades do dia que para qualquer outro é sem importância, mas para nós é tudo interessante. Talvez esse sentimento de estar no paraíso ainda combine com a agitação de vê-la sair de casa naquele encontro despretensioso que foi marcado. Ela, linda como nunca, mas igual a outras vezes, faz com o coração pule só ao sorrir, e nos deixa com cara de besta tão marcante que qualquer um que nos vê sob aquela condição sabe que há algo diferente em nós. E talvez a sensação desse encontro, de várias horas que passam como minutos, de atenção centrada e risos fáceis, de movimentos calculados e conversa solta, também possa ser uma possível comparação. Esse sentimento que, talvez, deve ocorrer constantemente no Paraíso, talvez, seja tão pulsante como aquele que surgem no momento de deixar a moça em casa e, inesperadamente, um beijo calmo acontece no portão. Aqueles minutos que parecem parar o tempo, que fazem as mãos tremerem e deixam a respiração ofegante podem ser exemplo de uma das sensações causadas no paraíso. E se assim for, quem sabe talvez não exista uma semelhança com o sentimento de mudança de perspectivas e de cor do mundo quando o namoro inicia? Pois nesse instante muitas coisas passam a ser diferentes. Os olhares de ambos cobrir-se-ão de uma tendência a ser o de cúmplices, juntamente com as realizações que tomam a felicidade dos dois. Talvez, até aqui alguma coisa vários já passaram, e alguma dessas sensações já foi sentida, em maior ou menor grau.

Nem todos esses sentimentos e sensações são já amor, mas são a sua semente, são a partir deles que ele nasce, e quando isso acontece é a busca pela satisfação do outro que guia os dois. É então que tudo começa a caminhar para a realização plena do amor de fato que se concretiza em outras experiências. Mas esse momento inicial é importante, pois é onde o mundo passa a por uma mudança completa de eixo, como podemos ver no relato de Von Hildebrand a seguir:

Recorda-me um amigo que era pessoa admirável, de nenhum modo convencional ou medíocre. Não obstante, estava demasiado “possuído” pela profissão de advogado, havendo pois o perigo de fazer do trabalho o centro de sua vida. Contou-me que, quando a moça que amava profundamente lhe dissera que retribuía o amor, exclamara: “meu escritório, doravante, desempenhará um papel secundário!”

Novamente, houve este feliz despertar para a verdadeira hierarquia de valores, esta livertação, esta generosidade do amor. Com efeito, no amor verdadeiro se obtém a liberdade interior: entregando-nos a um “tu”, transcendendo o egoísmo, alcançamos a bem-aventurada liberdade.[7]

Considerando a progressão natural do amor que está a nascer, ainda existem outros níveis de grandes sentimentos que podem criar uma sensação que talvez possa nos servir de comparação. É só pensar que tudo isso vai acontecendo e caminha para o compromisso do noivado, momento que haverá de se fazer mais mudanças ainda para que toda a vida siga um caminho único. As mudanças que são feitas, se forem pensando realmente em dois como um, tendem para a felicidade juntos, pois são carregadas de esperanças e expectativas. A situação pode vir (ou melhor deve vir) a relembrar aquelas emoções lá do começo. Desse lugar caminhará para o matrimônio, nesse evento várias situações ainda podem, talvez, descrever o paraíso. Imagine a notícia de uma gravidez, posteriormente do nascimento da criança. Esse resultado do amor, daquele amor que deu vida, talvez, possa ser comparado com aquilo que será sentido em plenitude na presença de Deus.

Os sentimentos para com o Paraíso poderiam se comparar aos efeitos dessas paixões que surgem na alma e crescem até transformar uma pessoa; desse amor sincero que podemos passar aqui no mundo ao unirmos com outra pessoa. Considerando que aqui ele encontrará altos e baixos, mas para que nossa analogia funcione, basta lembrar dos grandes picos, dos momentos de maior força, daquelas horas que o mundo parece ter parado para nós na companhia de alguém. Ao relembrar dessas sensações, e colocar na pessoa Divina esses sentimentos, chegamos ao que poderíamos usar para trazer o oposto do inferno ao nosso imaginário. A entrega a Deus, com a intenção de viver esse amor real, de entrega e gozo da sua presença de infinita bondade, verdade e amor deve ser o caminho do homem, e para lembrar de suas recompensas, basta lembrar do que proporciona um amor real em nossas vidas. Mesmo que os caminhos para o amor “sejam agrestes e escarpados, mesmo que a espada oculta em suas plumas possa nos ferir”[8], o resultado final e a felicidade, é a plenitude e a recompensa pelo esforço.

Se o inferno faz sua imagem com figuras de medo, de horror e tragédias, o seu oposto concreto é o amor é suas felicidades. No mundo, como tudo mais, as felicidades não são perpétuas, mas sim um antegozo do que há de vir no Paraíso. Temos que fazer de nossa visão do Paraíso, não um lugar monótono, mas dinâmico e eternamente repleto das novidades que um amor real consegue proporcionar. Devemos ter em nossa mente justamente o que os grandes místicos tinham: o amor, apenas o amor. Devemos nos esforçar para ter na memória todos nossos bons momentos vinculados ao amor e suas possibilidades e assim tentar vislumbrar o que poderá ser o Paraíso. Lá, junto do Amado, haverá a plenitude do amor. Porque ele próprio e o Amor.

 

 


Notas

[1] SALES, São Francisco de. Filoteia: ou introdução à vida devota. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. p. 63-64.

[2] Referência ao livro “Diário da Felicidade”.

[3] SALES. Op. cit. p. 65-67.

[4] CIFUENTES, Rafale Llano. Egoísmo e Amor. São Paulo: Quadrante, 1998. p. 27.

[5] KREEFT, Peter. Três Filosofias de Vida. São Paulo: Quadrante, 2015. p. 132.

[6] Op. cit.

[7] HILDEBRAND, Dietrich von. O amor entre o homem e a mulher. Tradução e edição: Carlos Ancêde Nougué, 2002. p. 10.

[8] Referência a um trecho do livro “O Profeta” do poeta libanês Khalil Gibran.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.