Santa Carona

Feche a janela

“Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós?” (Cf. ICor. 6, 19)

A narrativa da criação, no livro do Gênesis, afirma que fomos moldados por Deus do barro e que Ele insuflou em nós o espírito que nos vivifica. Somos corpo e alma e dentro de nós habita o próprio Deus. É a partir dessa verdade revelada pelo próprio Deus nas sagradas escrituras e de uma experiência mística de encontro com o Senhor que Santa Tereza de Jesus compara a alma com um castelo.

Em sua obra “Castelo interior, ou moradas”, a santa de Ávila apresenta a alma humana como sendo um castelo, com cômodos, ou moradas, para usar os seus termos, e na sétima morada, que está no mais interior desse castelo, encontra-se o próprio Deus. Logo, o caminho da ascese espiritual seria um caminho de interioridade, de voltar-nos para dentro de nós mesmos, para aí encontrarmos o Senhor, tal como nos falou também Santo Agostinho ao afirmar que por muito tempo procurou fora Aquele que estava dentro. E é a partir da reflexão desses dois doutores da Igreja, que gostaria de meditar com vocês nesse nosso texto de hoje a respeito da vida de santidade.

O desejo de Deus para nós é que sejamos santos como Ele é Santo. Mesmo sendo a nossa primeira vocação, a santidade não é algo tão fácil, pois há em nós a concupiscência, que é a nossa inclinação ao pecado e ao mal, oriunda do pecado original e que acomete a todos os filhos de Adão. Logo, há um caminho a percorrer para chegar a essa santidade desejada para nós pelo Criador.

Mas o que é a santidade? Ser santo ou ser perfeito, é estar totalmente unido com O Santo e O Perfeito, que é Deus, é encontrar-se com Ele face a face. Tal graça só acontecerá em plenitude quando chegarmos um dia ao céu, mas já aqui na terra nos é possível vivermos uma profunda união com  Deus, e sermos santos, como ensina Santa Tereza, de sétima morada, ou seja, experimentarmos o céu já aqui na terra.

Para trilharmos esse caminho de adentrar nesse castelo, precisamos primeiramente entendermos a diferença entre ser santo e ser salvo. No capítulo 19 do Evangelho de Mateus encontramos a conhecida passagem do jovem rico, que se aproxima de Jesus e lhe pergunta o que é preciso fazer para entrar no reino de Deus. O Mestre lhe responde que para entrar no reino, ou seja, ser salvo, basta viver os mandamentos, não cometer pecados mortais. O jovem porém já vivia tudo aquilo e seguia fielmente os mandamentos, mas tinha sede de fazer algo a mais, e Jesus, fitando-o com amor lhe diz que faltava-lhe apenas uma coisa, vender tudo o que tinha, dar aos pobres e segui-lo. Diante dessa proposta o jovem saiu dali entristecido, pois era muito rico e não queria desfazer-se de seus bens.

Jesus pede àquele homem um passo de amor, de renúncia e de entrega, que compreende o ser realmente santo. A santidade está intimamente ligada com a nossa capacidade de amar e de amar muito. Basta olharmos para a vida dos grandes santos, todos eles foram grandes mestres do amor a Deus e aos irmãos. Para ser salvo e entrar no reino de Deus, basta o passo negativo que é dizer não ao pecado, vivendo a obediência aos mandamentos, mas se morrermos neste estágio ainda iremos passar pelo purgatório, para sermos totalmente purificados antes de entrarmos para a presença de Deus. Já para ser santo, e ir direto ao céu, é preciso ir além disso, dar passos positivos. Não basta não pecar, é preciso fazer algo, dar passos no amor, ser caridoso, fazer renúncias, exercitar as virtudes, se doar no serviço a Deus e ao próximo.

Compreendendo isso podemos voltar para a analogia do castelo. Deus, pelo sacrifício de Cristo nos devolveu aquilo que havíamos perdido pelo pecado de nossos primeiros pais: a sua Graça. É esta Graça que nos santifica, pois é ela o nosso ponto de união com o Senhor. Tal Graça é um dom de Deus, que Ele concede a todos aqueles que decidem-se por amá-lo e dão passos concretos nesse amor cumprindo os seus mandamentos. Recebemos essa Graça em nosso Batismo e durante a vida, quando cometemos algum pecado mortal a perdemos, por isso Cristo nos deixou também o sacramento da Confissão, que restitui em nós a Graça perdida.

Nossa alma é como um castelo, onde no mais íntimo encontra-se o próprio Deus. Quando estamos em estado de pecado, ou seja, quando cometemos alguma transgressão a algum dos dez mandamentos, perdemos a Graça, nos encontramos fora do castelo, ou seja, quando pecamos, estamos fora de nós mesmos, perdemos a identidade de sermos imagem e semelhança de Deus e o contato com Ele por meio de sua Graça. Para entrarmos novamente no castelo, temos de nos arrepender e buscar a confissão. Quando nos confessamos entramos novamente no chamado estado de graça, ou seja, adentramos no castelo, mas ficamos apenas na primeira morada, ou, em outras palavras, estamos salvos.

Em cada morada há os passos de amor que se dá e características da vida espiritual específicas apresentadas por santa Tereza. Para sair da primeira morada e entrar na segunda, é preciso um esforço maior e além de não cometer pecados graves é preciso renunciar também aos pecados veniais. Padre Paulo Ricardo, em alguns de seus vídeos faz um convite e até mesmo uma campanha de conscientização chamado de projeto segunda morada, que é justamente esse chacoalhar da nossa consciência e da nossa vontade para darmos passos firmes de santidade e passarmos da primeira morada, que é a que a maioria dos cristãos hoje em dia se encontram e adentrarmos a segunda.

Mas para aderirmos a essa campanha, temos que primeiro fugirmos de uma armadilha que nós mesmos colocamos já na primeira morada e que nos impede de avançarmos para o interior do castelo. Muitos de nós estamos dentro do castelo, em estado de graça, mas ainda na primeira morada existem como que uma janela que dá para fora do castelo. O erro que muitas vezes cometemos é o de abrirmos essa janela e ficarmos olhando para fora, para as coisas do mundo e nos lamentarmos por não as possuirmos mais. Isso trata-se de uma terrível armadilha, pois fixa o nosso olhar fora e não dentro, onde está o Senhor, logo, como iremos querer nos aproximar do interior, de Deus, se nossos olhos não estão fixos na luz que vem de dentro, mas sim naquela que vem de fora, do mundo?

Enquanto estivermos presos as coisas do mundo, as modas, as ideologias, aos prazeres, as comodidades, ao não sacrifício, a preguiça…enfim as coisas de fora do castelo, não conseguiremos dar passos concretos na santidade. Por isso, enquanto já há o projeto segunda morada do padre Paulo, gostaria de lançar um outro projeto, ainda mais simples, para podermos entrar no mais profundo do castelo, que é o: projeto feche a janela. Talvez o nome não seja um dos melhores, mas a intenção é boa e verdadeira. Precisamos primeiramente entrarmos no castelo, estarmos em estado de graça, depois precisamos fechar a janela que dá para o mundo e tomarmos a firme decisão de renunciarmos a tudo o que nos prende fora de nós mesmos, ao amor do mundo, para entrarmos no castelo, buscarmos as moradas interiores e encontrarmos o nosso amado Deus, pois essa é a verdadeira santidade e o amor a Ele é o verdadeiro caminho.

Fernando Silva

Cearense, estudante de Filosofia e católico, que tenta fazer da própria vida uma obra de arte que agrade o olhar apurado do verdadeiro grande Artista: o Senhor.