Santa Carona

A prática das virtudes e o crescimento espiritual

Virtudes…ah as virtudes! Algo tão cobrado mas tão pouco trabalhado, esquecidas por tantos. O mundo com suas mudanças rápidas e desafiadoras, sendo em sua maioria mudanças negativas, faz com que a busca pelas virtudes seja visto como algo desnecessário e até mesmo sem sentido, já que o que importa é a fama, o dinheiro, os aplausos e o destaque. Pouco se preocupa com Deus, com o próximo e inclusive consigo mesmo, apesar de muitos acharem que seguindo as doutrinas que o mundo ensina é um modo de “elevar-se a si mesmo”, dando uma falsa impressão de força individual. Repare: analisando coletivamente, a prudência, tanto requisitada, é pouco colocada em prática. Justo ela, que vai dirigir todas as outras virtudes, pois a mesma distingue o essencial do secundário, ajuda a definir boas metas e inclusive quem quer ter uma boa vida, deve saber o que é o “bem” e conhecer seus valores.

Quando falamos sobre o conhecimento do “bem”, lembramos da formação de consciência, na qual o ser humano deve faze-la. Uma formação correta da consciência vai conduzir o ser humano à liberdade de fazer o bem, de modo corretamente discernido. Conforme o Catecismo da Igreja Católica, a consciência, inata a todo o ser humano, dotado de razão,  pode ser mal orientada e anestesiada, portanto ela deve ser formada para que seja um instrumento cada vez mais fino de comportamento reto.

“Levar uma vida boa não é mais que amar Deus de todo coração, com toda a alma e todo o espirito. Reservamos-lhe (através da temperança) um grande amor, que nenhuma infelicidade pode sacudir (fato que está relacionado com a fortaleza), que só lhe obedece (isto é a justiça) e está disposto a observar tudo com medo de ser surpreendido pela astucia e a mentira (e isto é a prudência).” Santo Agostinho

Quando trabalhamos na construção de nossa própria personalidade, estamos nos moldando para que realizemos o bem livre, de forma alegre e ágil. E a vivencia das virtudes e a fé firme em Deus contribuem nessa construção. Quando falamos na construção de nossa própria personalidade não vai consistir basicamente em completar-se em si mesmo, mas em desenvolver nossa abertura aos outros. O amadurecimento é uma tarefa para a vida toda, e por isso formar-se é aprender a viver.

O nosso moldar exige também muitas renuncias e sacrifícios, sendo isso parte de nosso amadurecimento, pois como está escrito em Provérbios 17,3 “como a prata é testada no fogo e o ouro, no crisol, assim o Senhor prova os corações”. Quando o ouro é encontrado em seu estado bruto ele é irregular e irreconhecível por grande parte das pessoas, por conter sujeiras e ter um brilho mínimo ou ausente. Mas um especialista o reconhece e o valoriza, pois, a aparência não invalida sua essência. Quando ele o encontra, se alegra e o recolhe com todo o cuidado, lavando-o e removendo a sujeira exterior. Em seguida ele leva o ouro a temperaturas altíssimas e o derrete, tendo assim a separação do metal de outras substancias que estavam incrustadas no mesmo. Então, após a purificação, ele se torna flexível e maleável, podendo ser moldado. O resultado é um ouro puro, com muito valor, utilidade e maior beleza. Quando há um encontro com Deus, de início nos encontramos como o ouro no seu estado bruto, Ele se alegra ao nos ver e quer nos purificar e nos moldar, para que aumente o nosso valor e beleza interior.  E nesse nosso processo de purificação, inclui-se às renuncias e essas renuncias consistem basicamente em um abandono às propostas que o mundo oferece para obedecer às propostas vindas de Deus, sabendo que teremos uma eternidade feliz ao lado Dele.

Já observou as aves do céu? Como é a composição de seu corpo, a quantidade de penas que possuem? Tão leves e delicadas, mas em conjunto tem seu peso. Quanto mais penas o pássaro tem, melhor para seu voo, lembrando que cada pássaro tem a quantidade e tamanho de penas adequadas para seu tipo e para o que foi criado. Caso as penas sejam arrancadas, o pobre pássaro não voa. Independente se seja uma águia ou canarinho, se as penas forem arrancadas com a “intenção de deixa-lo mais leve para voar”, acontecerá o contrário, ele não voará mais e não enxergará o horizonte que o aguarda. As penas podem possuir o seu peso, mas um peso leve, porém importante e forte o suficiente para ajudar o pássaro alcançar longos voos.

Já reparou que o mesmo acontece com nossas vidas? Nós temos fardos, mas o fardo vindo de Deus é leve, embora pensemos de início que não vamos suportar, com o tempo vemos que ele é leve porque o próprio Deus está conosco, e então temos forças para prosseguir a caminhada. No livro Amor sem medidas: Crônicas de uma Família, do padre M. Raymond (1964), beata Umbelina questiona seu irmão São Bernardo sobre seu aspecto cansado que adquirira com o passar dos anos em Cister:

“- Bernardo, meu querido Bernardo, diga-me a verdade, não é excessivamente pesada essa sua vida? O ideal é elevado, não há dúvida, e as frases piedosas que o senhor emprega são inspiradoras. Mas não é monótona e aborrecida essa existência cotidiana? Não cansa?”.

E então Bernardo responde após observar por um tempo Umbelina:

“-As mulheres são intuitivas! Você Umbelina, divisou numa hora muito mais profundamente que centenas de monges em muitos anos. Com efeito, nossa vida é pesada. Mas, paradoxalmente, quanto mais pesada é, mais leve se torna. Não estou brincando, Cristo disse: “meu peso é leve…” E Cristo não engana, seu peso é leve.”

Evidentemente nós todos temos fardos a carregar, porém esses fardos nos suportam muito mais do que nós os suportamos. Se abandonarmos nossa cruz, assim como arrancam as penas dos pássaros com a falsa ilusão de que ficaremos mais leves, não conseguiremos mais voar.

Quando o cristão opta e se esforça para se afastar do pecado, resiste com força às tentações e busca alcançar a santidade que Deus pede, ele torna-se cada vez mais consciente que esta vida lhe exige o desenvolvimento das virtudes. Necessitamos então de um grande esforço pessoal, juntamente com a graça, para que a prática das virtudes seja autentica.

São João Crisóstomo orienta que devemos agir como as crianças na escola, aprendendo uma parte de cada vez, “ dividindo a virtude em partes, aprendamos primeiro, por exemplo, a não falar mal; depois, passando para outra letra, a não invejar ninguém, a não ser escravos do corpo em nenhuma situação, a não nos deixarmos arrastar pela gula… Depois, passando daí para as letras espirituais, estudemos a continência, a mortificação dos sentidos, a castidade, a justiça, o desprezo da glória vã; procuremos ser modestos, contritos de coração. Entrelaçando umas virtudes nas outras, escrevamo-las na nossa alma. E temos que exercitar-nos nisto na nossa própria casa: com os amigos, com a mulher, com os filhos.”

Que a Virgem Maria nos ensine e nos ajude a crescermos a cada dia mais, em graça e santidade!

 

 

Pabline Gasparoti

Goiana, graduada em farmácia, catequista, gosto de uma boa leitura e sou apaixonada por Deus.