Santa Carona

Como ler livros literários?

A Literatura é sem dúvidas um dos mais valiosos tesouros de cada civilização. Por meio dela é possível conhecer tudo que é próprio do povo que a concebeu: sua língua, sua cultura, sua religião, seus costumes, sua moral e o que aspiram de mais nobre. Ela é o ápice da evolução cultural de um povo, afinal, somente com uma organização política, a criação de uma língua unificada, o desenvolvimento da escrita desta mesma língua e a típica vivência que servirá de fundo para a retratação é que se torna possível a produção literária. Com isso, já se tem muito para defender a prática da leitura literária por parte de todos os indivíduos.

Mas como ler livros literários? Talvez a questão mais prática de todas seja: “Com qual livro começo?”. Ora, é preciso começar com uma obra que esteja à altura do leitor, começar com algo muito superficial pode desestimular o leitor experiente e dar de cara com um livro muito denso pode travar o leitor iniciante. Por isso, é um crime hediondo jogar nas mãos de alunos do ensino médio, praticamente todos leitores despreparados, uma obra de Machado de Assis. Os textos machadianos são os de maior importância para a cultura nacional, seu sarcasmo e sua forma de brincar com a língua só podem ser apreciadas por um leitor mais maduro. Se alguém acha que Machado de Assis é chato, é porque não está pronto para lê-lo ainda. Cabe, portanto, uma reflexão sobre as próprias capacidades do leitor. Assim, saberá qual é o alimento ideal para a “faixa etária de leitura”: leitores mais novos precisam de livros mais leves e leitores mais experientes precisam de livros mais densos.

É claro que não se deve buscar sempre o mais confortável, vivendo eternamente como um meninão que lê apenas romances gráficos (àqueles que possuem, em geral, leitura mais fácil). Apesar de não se recomendar que busque algo que seja muito difícil, recomenda-se que procure sempre algo um pouquinho mais difícil, afim de ir desenvolvendo as capacidades de leitura, pois crescemos como leitores quando somos desafiados por leituras progressivamente mais complexas. Ao homem sempre se deve buscar exigir um pouquinho mais do que ele é capaz de suportar, para que não se atraiçoe, mas antes se desenvolva.

Mas por que as obras mais difíceis são melhores? Por que seguir às recomendações da Academia? Por que o que é antigo é melhor? Não é que tudo que é antigo é melhor, é que tudo que é bom de verdade é preservado pelo tempo e não é descartado pela história, assim, chega aos dias de hoje. Por isso, desafiar-se em uma leitura mais sofisticada faz toda a diferença. Por isso disse Mortimer Adler: “É verdade, mas ninguém disse que ler é fácil. Ler é muito difícil. Se não fosse, não valeria a pena. Quanto melhor o livro, mais difícil a leitura”.

Deve-se, portanto, aconselhar-se sempre com um leitor mais experiente. Assim, o leitor poderá organizar um caminho progressivo de leitura, podendo fazer metas de leitura ou empregando outros meios humanos que o estimule.

Existem vários títulos e milhares particularidades. O que o leitor deve fazer é sempre informar-se sobre a obra que vai ler, seja por meio de uma conversa com alguém que já leu tal obra ou pela leitura de resumos e resenhas que se encontram disponíveis na internet.

Agora, selecionado o livro, como lê-lo? Aos mais dedicados e pragmáticos, talvez seja tentadora a ideia de tomar um livro literário e estudá-lo como se estuda um manual de filosofia ou teologia, com o velho hábito de ler com um lápis à mão, fazendo riscos e anotações. Ora, esse é sem dúvidas a forma correta de ler os manuais e outros livros de estudo, mas a Literatura não é para ser lida de forma analítica. É muito triste fazer anotações em um livro literário. Ler procurando aprender ao invés de curtir a leitura é a pior forma possível de ler. Torna-se mecânico e estrutural algo que deveria ser uma vivência.

Ao escolher um livro literário, o leitor deve deixar-se arrastar pela história. Em outras palavras, deve “entrar na vibe”. Deve se perder em meio às páginas e se ver como mais um em meio às personagens. Deve ser mais um cidadão de Antares, mais uma alma atormentada no inferno dantesco, mais um homem batalhando contra os orcs em defesa de Gondor, mais um tripulante da nave Coração de Ouro. O ideal seria nem mesmo utilizar um marcador de páginas, mas perder-se nas páginas e orientar-se nelas como um ermitão em uma grande cidade.

Quando relacionar-se com as personagens, deve se envolver com eles por completo. Romance, conto, ou poema, por exemplo, um leitor pode, e deve, compartilhar os triunfos e os sucessos dos personagens. Uma forma que talvez possa chocar alguns seminaristas puristas é a recomendada pelo literata Charles Van Doren: “Apaixonar-se pela heroína é somente uma das formas pelas quais o leitor pode, e deve, participar do livro que está lendo”. Essa sugestão choca àqueles que pensam a paixão como adversária da castidade, mas não é o caso. Não há desejo sexual ao se apaixonar pelas heroínas, pois trata-se de um amor platônico, puro e ideal. Não é possível não amar de forma casta e honrosa a donzela Dulcineia del Tobozo; de Galadriel, a senhora de Lothlórien, não se espera mais do que ganhar um fio de seus cabelos dourados; deixa-se arrastar pelos seus olhos de cigana oblíqua e dissimulada de Capitu, como ondas do mar de ressaca, sem mesmo saber o que é oblíqua; de Ceci só se espera servi-la e amá-la puramente como Peri; mesmo se prostituindo nas sarjetas, sofre-se de amor por Fantine sem nunca desejá-la.

Mas é preciso mais do que se apaixonar pela heroína. É preciso envolver-se com as personagens de tal forma que leitor e personagem se tornem melhores amigos, ou melhor, cúmplices. É preciso ser cúmplice da vingança de Hamlet; esforçar-se ao máximo para solucionar o mistério com Sherlock Holmes; receber a comunhão no Santo Graal junto do Rei Arthur, antes de partir para a Demanda; sujar as mãos de sangue com o casal Macbeth; chorar a mítica morte de Reepicheep.

Só a partir desse envolvimento completo de imersão é que se garante uma boa leitura literária, pois degusta-se a obra sem pressas e sem esquemas, por isso é possível ter uma vivência da realidade literária. Deve ser uma leitura desinteressada, pois a Literatura é inútil, como toda arte, sobre isso já diria C. S. Lewis, comparando com a amizade: “A Amizade é desnecessária, assim como a filosofia, a arte, o próprio Universo (pois Deus não tinha necessidade de criá-lo)”. Nos dizeres joviais, para ler Literatura é preciso “entrar na onda” do autor e deixar-se levar. Ou como disse Fernando Pessoa: “Quem lê deixa de viver. Fazei agora o que façais. Deixai de viver e lede. O que é a vida?”.

 

Texto extraído do meu trabalho intitulado “A Importância da Literatura na Formação Sacerdotal”, apresentado à Academia Literária Imaculado Coração de Maria em 25 de Maio de 2018.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. É seminarista da Diocese de Anápolis. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.