Santa Carona

Sobre deixar o outro quebrar a cara

Ouvi certa vez em um filme uma frase genial, de que a vida é uma professora injusta, que dá primeiro a prova e só depois ensina a lição. Simplesmente magnífico! Realmente, na nossa vida os anos vão sendo carregados de experiências dolorosas, fracassos e decepções, mas em tudo isso temos um sábio mestre que nos ensina a sermos melhores. O normal e vermos no eu de ontem alguém menos sábio, mais tolo e inexperiente que o eu de hoje, machucado sim, porém mais sábio.

Graças a Deus não precisamos sofrer todas as derrotas para aprendermos, às vezes basta vermos o erro de alguém ou aprender da sabedoria diretamente, de forma positiva, sem deduzi-la do negativo. Isso é muito mais interessante, pois nos garante sermos mais sábios e menos feridos. É por isso que a humanidade está abarrotada de livros, são páginas e páginas de experiências vividas e sofridas das quais podemos simplesmente aprender sem ter que passar pelas mesmas dores.

Mas há outro porém, quando a vida nos foi severa, bateu e puniu-nos várias vezes até que nos tornássemos tão sábios quando marcados por cicatrizes de um passado que se foi, observamos outros tantos que caem naquele mesmo erro. Como dói saber que outros passam pelo mesmo, uma vez que sofremos na pele e sabemos o que é.

Não somos maus, o tempo nos fez prevenidos, mas não amargurados. Estamos em paz com nosso passado, mas não podemos negar o fato de que não nos agrada ver o outro sofrer. Mas ali estão nossos próximos, aquele ou aquela em específico, que insistem em se meter no mesmo espinheiro em que nos metemos. Sabemos como a história termina, as cicatrizes ainda se fazem visíveis e pode ser até que doam ainda. O ímpeto que nos impele é o de agarrar este néscio antes que o primeiro espinho lhe machuque gritando “Não faça isso!”.

Na melhor das hipóteses, o sujeito nos ouve, aprende a lição sem que a vida lhe deixe marcas e segue feliz. Se assim foi, louvado seja Deus! Porém, muitas vezes não é o que acontece. Afinal, se bastasse a sabedoria dos antigos, os posteriores não continuariam escrevendo livros, mas esse é o problema da humanidade, eternamente condenada a redescobrir a roda. O pobre néscio é arrogante e não se julga desconhecedor, acredita que suas marcas são inexperiência sua, que não soube passar pelo espinheiro e não culpa dos belos cardos do arbusto.

O problema é que somos bons. Oxalá fôssemos completos escroques que não dão a mínima! Mas o pior é que nos importamos, e muito. Então no ímpeto de desejar que o outro sinta aquelas dores, agarramo-lo a força e exigimos que se afaste dos espinhos. Exigimos que não faça nosso caminho e que entenda a lição, forçamo-lo à sabedoria.

Infelizmente, não é assim que funciona. Daí nos tornamos mais sábios ao aprender que essa é uma péssima atitude, pois o néscio não sente raiva dos cardos que lhe iriam ferir, mas do velho arrogante que não o deixou conduzir sua própria vida. Diante do ato desesperador de compaixão, o pagamento é raiva, ingratidão, desprezo e sentimentos semelhantes. É difícil não ser finalmente o velho marcado e ressentido depois disso.

Mas há uma lição que pode ser aprendida com essa experiência, afinal, aprendemos que toda experiência negativa é uma aplicação de prova da injusta mestra vida que quer ensinar uma lição. A lição é talvez a mais dura que podíamos aprender: é preciso deixar que o outro quebre a cara.

Pense nos erros do seu passado, nas suas quedas e nos seus pecados, se existe um Deus, e a vida ensinou que há, por que ele deixou você passar por isso? Por que Deus não impede que façamos tolices? Por que não lança um raio e frita de uma vez os desgraçados que o ofendem? Por que deixa que seus filhos amados se machuquem? Seja Deus bom ou mau, sua omissão não faz sentido. Mas é aqui que está a chave da sabedoria que nós também aprendemos: é preciso deixar que o outro quebre a cara, por mais doloroso que seja.

Há um ditado muito usado nos filmes e desenhos animados: “Isto vai doer mas em mim do que em você”. É verdade! O néscio só vai sentir a pancada dada pela vida quando chegar o momento, mas nós não – “Gato escaldado tem medo de água fria”, disse algum sábio experimentado –, nós sofreremos todo o processo com a ansiedade de quem sabe o doloroso desfecho. É uma dor muito maior, mas importante.

A vida trata a todos igualmente, alguns parecem ter sorte, mas a vida não está nem aí para a sorte, ela a contorna mais cedo ou mais tarde. Só o homem de fibra testado no ferro e no fogo pode com ela. Se o néscio não quer tornar-se sábio pelas palavras do sábio, a vida fará com que se torne sábio pela dor, marcado de cicatrizes. Este novo sábio, como o primeiro, verá outro néscio aproximar-se dos cardos, e o ciclo da vida se repete.

Muitas vezes a atitude que nos cabe é como a de Deus, o maior dos sábios, e deixar que o outro quebre a cara, e perceba que os espinhos rasgam a carne. Quando esse momento chegar, o sábio pode dizer em um júbilo de contentamento ou dor: “Eu te avisei!”. Mas de que adianta contar vitória? Talvez no máximo para que a vida ensine o néscio a ouvir o sábio da próxima vez, mas se bem que o néscio agora também é sábio e tem suas próprias cicatrizes para alertá-lo “da próxima vez”.

Talvez pareça um tanto cruel, mas insisto que o leitor aprenda com esse texto e não adentre esses cardos. Não que eu seja mais sábio que você, mas posso garantir que sou mais experiente nesse assunto do que o Carlos que insistia com os néscios que não fossem pelo caminho mais curto da floresta.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. É seminarista da Diocese de Anápolis. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.