Santa Carona

Liberalismo

Abrindo a serie de textos sobre ideologias, gostaria de falar do liberalismo, ideologia que surge com a Revolução Francesa e que abre as portas a todas as outras, afinal o desprendimento da verdade para ter sua própria ideia sobre a realidade só pode surgir depois que nos vendem a liberdade total.

No liberalismo, como o próprio nome evidencia, há uma exaltação da liberdade, liberdade essa que não se adéqua àquela proposta na ética aristotélica ou teológica, mas antes numa concepção moderna na qual a liberdade é precisamente a inexistência de regras.

Dante Alighieri na sua obra máxima “A Divina Comédia”, precisamente no livro do Paraíso, faz uma consideração a cerca da liberdade, chegando a classificar a mesma como o maior dom dado por Deus ao homem. Todavia como já pincelamos acima, há uma diferença entre essa liberdade a qual fala o poeta italiano e a proposta pelos modernos. Sem dúvidas Deus, como ser perfeitíssimo, não daria ao homem, sua melhor criação, algo que o fizesse se perder no caminho, daria antes presentes que o guiasse.

A liberdade defendida por Dante e pela filosofia aristotélica é velada por pequenas regras que orientam o homem, assim o indivíduo só é livre quando segue esses preceitos, pois sua felicidade só é completa a partir do cumprimento da lei moral, da lei natural.

O liberalismo se firma no fundamento rousseauniano de que o homem nasce livre e que por toda parte esta agrilhoado (Du contrat social: L’homme est né libre, et partout il est dans fers).

Nesta ideia percebemos em si mesma, alguns pontos de confusão. É óbvio que os homens nascem livres, entretanto esse fato não implica que o homem, apesar de livre, seja independente. Assim chegamos à conclusão que o homem sendo dependente não consegue executar somente as próprias vontades, mas cumpre também as objeções do outro indivíduo que lhe mantém. Outra contradição da afirmação de Rousseau é que a autoridade limita a liberdade, o que é absurdo, pois quem garante a liberdade e o direito é o poder.

Lacordaire (1802-1861) assinalou que se a liberdade não for ordenada para o bem, é uma aliada dos maus, pois na sua liberdade os grandes podem sujeitar os pequenos à sua vontade. Isso levaria ao fim da liberdade, pois o pequeno teria seu direito casado. Seguindo a linha de raciocínio, compreendemos claramente porque a maioria das políticas liberais, acabaram no totalitarismo. Como a França, Alemanha, Rússia e Itália.

O liberalismo, é na verdade, uma ideologia imanentista e secularizadora, como foi alcunhado por muitos: “Uma revolta contra Deus”, pois retoma o antropocentrismo naturalista, elevando o homem ao mais alto grau e sua vontade é agora sua arma, tanto de defesa, quanto de ataque. O homem, por essa ideologia, volta-se à raiz de todo mau. Homem moderno e Adão se encontam nos jardins do Éden, ambos se vêm na mesma situação: sua vontade os aprisionou.

O termo liberalismo aparece, para designar a ideologia, no século XIX e podemos destacar alguns ramos desta árvore liberalista, o liberalismo econômico, liberalismo político, liberalismo religioso e etc.

Em suma, a seiva deste é basicamente o principio do “governar-se a si próprio”, a tentação revolucionária de tentar derrubar todo e qualquer tipo de poder (ou de autoridade).

Para se entender essa ideologia, temos que ter em mente que seus membros são desgraçadamente individualistas, podemos observar claramente isso no liberalismo político e no econômico. Estes acreditam na existência de leis naturais que regem a vida econômica, energia o livre mercado e a livre concorrência partidária como principio inegociável.

Temos entre os principais economistas liberais Adam Smith, Malthus, David Ricardo e Staurt Mill. Todos ingleses que tinham pequenas diferenças de pensamento, entretanto todos eles saíram profundamente da concepção liberalista de crescimento econômico, que era baseado no trabalho da terra. Esses ingleses entenderam que as indústrias e demais trabalhos urbanos é que faziam a economia girar, desta forma até os capitalistas davam ouvidos às suas teorias. Talvez isso também explique por que ganharam tanta fama.

Quanto a esses economistas vale ressaltar que cada um desenvolveu suas ideias para um lado de maneira que alguns lançaram bases para o socialismo, outros para o capitalismo liberal e assim por diante.

No século XX observamos o neoliberalismo que traz como mudança a substituição do aspecto individualista para o corpo social, nesta fase a luta era em que os mais pobres recebessem uma renda mínima, como advogava Milton Friedman e por outro lado lutava por uma rede de segurança para os desvalidos, linha de Friedman Hayek. Todavia ambas as linhas do neoliberalismo rejeitavam o titulo de agentes da justiça social.

No Dicionário de Política de Galvão de Souza, assinala-se o desenvolvimento do liberalismo da seguinte forma: “começou a germinar com o humanismo renascentista, que pretendeu valorizar o homem, como principio e fim de si mesmo, encerrando-o num individualismo radical.” O saudoso jurista brasileiro consegue perceber uma afirmação que fizemos acima, que o liberalismo vez por outra cai no autoritarismo. É antiautoritario apenas se não estiver no poder.

O liberalismo teve muito espaço no campo filosófico, pensadores como Kant, Rousseau, Locke e Descartes trabalharam para que o homem moderno se visse “livre”, então lançaram bases subjetivistas, racionalistas e individualistas.

Assim, esses pensadores defenderam o poder mínimo ou quase inexistente ate que Montesquieu pensou na separação dos poderes o que desaguou na proclamação das liberdades individuais.

Em síntese podemos dizer que esta ideologia busca um Estado mínimo para que exista livre concorrência. Assim a economia eleva a qualidade da sociedade, que socorrerá aos mais necessitados garantindo liberdade a todos, mas na verdade o que acaba acontecendo é um esgotamento dos órgãos concorrentes, pois não existe uma corporação eficiente e responsável pela garantia da liberdade. Deste modo indivíduos e empresas são levados à exaustão, as leis trabalhistas serão cada vez mais frouxas, saturando o empregado. A economia cairá o Estado estará quebrado e atado por sua própria burocracia, os grandes empresários terão muito lucro e os pequenos empreendedores estarão falidos, tudo isso levará a uma insatisfação, que levará a uma revolta e na instalação de um regime totalitário, provavelmente uma ditadura que certamente terá os moldes socialistas, logo compreendemos que o liberalismo não é nada legal.

Espero que este trabalho tenha servido de luz para se discernir o que é o liberalismo e convido o leitor a continuar seguindo o nosso caminho de textos pelas ideologias.

Thiago Lima

Direto de Vila Boa. Interessado em tudo que o mundo moderno desconhece. Aceito um café. Cum gaudium et Pace!