Santa Carona

o Tradicionalista Toddynho

A história da humanidade sempre foi marcada por estupidez. Cada geração pode tentar reivindicar para si o título de maior geração de imbecis. As coisas não estão ficando ruins, sempre foram. O problema é que nossa geração tem exclusividades das quais as gerações passadas não desfrutaram, uma delas é o elevado padrão de vida.

Nossa sociedade gerou comodidades que geraram o fenômeno “Toddynho”, isso é, facilidades que não permitiram aos nossos homens crescerem e amadurecerem com o sofrimento, mas que fizeram dos nossos homens eternos meninões. Estudos científicos apontam que a adolescência estendeu-se por mais uma década da vida adulta. Temos literalmente homens com cabeça de moleque.

Outro problema que essa comodidade gerou foi, ainda ligado ao fenômeno “Toddynho” é que nossos moleques decidiram ter voz de homens sérios e experimentados, e infelizmente não houveram muitos homens realmente experimentados para darem umas boas palmadas nesses moleques e botá-los de castigo. Eles cresceram e tomaram voz, e uma voz que narra experiências vazias de vidas ainda não vividas.

Um terceiro fator que ainda se faz digno mencionar é a acessibilidade. Antigamente o sujeito tinha que ler uma boa pilha de livros, fazer pesquisa na biblioteca e memorizar muita coisa antes de opinar no pouco espaço que tinha. Hoje não é bem, assim, qualquer um pode ler uns artiguinhos em um blog mequetrefe como esse e sentir-se conhecedor profundo, daí ele abre uma página no Facebook e verborreia toda sua asnice.

Esses fatores precisam ser levados em conta no fenômeno “Toddynho”: homens amolecados e moleques que desejam se passar por homens, superficialidade intelectual e espaço aberto para opinar.

O resultado é patético e se pode constatar em uma rápida navegação pela internet, sejam blogs, vlogs ou redes sociais. São várias as divisões desse gênero: ateus toddynhos que formulam argumentos ridículos para renegar um Deus que para eles não existem, mas eles precisam combater veemente; marxistas toddynhos que nunca leram “O Capital”; satanistas toddynhos que desmaiam ao ver sangue; revolucionários toddynhos que recebem mesada do papai ou da mamãe.

Mas há um tipo que merece menção e sobre o qual se quer tratar nesse texto: o tradicionalista toddynho. Ora, entendamos o movimento. O Concílio Vaticano II foi um período realmente turbulento, a Igreja foi dividida em alas, os progressistas que queriam fazer da fé católica o seu playground, aqueles que acreditavam que qualquer mudança significaria ruptura com a tradição e aqueles que mantiveram-se com o Papa. Como é que dizia Aristóteles mesmo? Ah, sim! A virtude está no meio.

Enfim, o Vaticano II aconteceu e deixou as diretrizes do que deve ser feito: muito se fez e muito se tem para fazer. Não foi somente um Concílio de caráter pastoral, foi dogmático, afinal, emitiu a Constituição Dogmática Dei Verbum. O Sacrossanto Concílio propôs uma reforma no Missal, no Código de Direito Canônico e no Catecismo. Todas aconteceram posteriormente, mas os ideais apresentados, sobretudo nos documentos Lumen Gentium e Gaudium et Spes ainda precisam ser trabalhados por toda a Igreja, e é o que os pontífices vêm fazendo muito bem.

Naquela época houveram contendas e rupturas, mas passou. Os que disputaram foram gigantes, coisa de cachorro grande. O problema é que esses gigantes envelheceram e morreram. É aí que surgiram os tradicionalistas toddynhos, centenas de moleques, nenhum que tenha vivido antes do Concílio ou muito menos antes de que João Paulo II usasse o anel do pescador.

Do que eles lembram dos tempos áureos de Trento? Nada! Do que eles entendem do que se passou em Roma de 1962 a 1965? Nada! Quais documentos deste concílio eles leram? Nenhum! Que noção eles têm de teologia? Pouca ou nenhuma! Quão abrangente é a visão de Igreja destes? Capoeira! O quanto julgam saber? Têm a si mesmos em conta de esclarecidos. O quanto de espaço tem para falar? Total espaço na internet.

E assim surgem os tradicionalistas toddynhos: jovens puristas aficionados por belas vestes; jovens com um gosto por música e arquitetura que são um certo pedantismo disfarçado de requinte e piedade; jovens que dizem gostar de latim, mas tremeriam na base com as cinco declinações, seus neutros, as conjugações e os verbos depoentes e semi-depoentes; jovens prontos e lutar para defender a tradição dentro de um princípio de contradição; uma piedade exposta em longas cadeias que mais parecem o Motoqueiro Fantasma, mas que no fundo traz um radicalismo juvenil. Acusam tudo de “TL”, mas não tem ideia do que é realmente a Teologia da Libertação, o que é algo muito pior, muitas vezes o que chamam disso é só burrice no outro extremo.

A Missa Tridentina é bonita? Sem dúvidas! Foi composta para ser um culto perpassado por cultura, em uma era em que a cultura era respirada nas ruas. Não sou contra um rito utilizado desde o século XVI e a Igreja também não, por isso Bento XVI permitiu que se celebrasse. Mas o grande cerne é esse? Para os teólogos e críticos do CVII não, mas os tradicionalistas toddynhos não tem profundidade teológica, quanto muito têm catequética. Assim, eles deixam a alta teologia para debater sobre ritos, panos e uma língua morta.

Entendam, o latim é e sempre será a língua da Igreja, mas dizer que a Missa em outra língua é inválida? Qual é o argumento? Cirilo e Metódio traduziram os textos litúrgicos para a língua dos eslavos no século IX, os católicos ortodoxos já usavam o grego bem antes do Cisma, os apóstolos celebraram em arameu e ainda assim celebram alguns orientais. Ora, a Missa em vernáculo vem bem a calhar quando ninguém mais sabe latim, mas ele não foi banido e pode ser posto livremente em algumas partes da missa, se assim o celebrante quiser. Pelo menos é o que indicou o documento Sacrossactum Concilium.

E o rito? O atual rito, que os tradicionalistas toddynhos dizem ser invenção e profanação de Paulo VI, foi composto em uma atitude de resgatar o que era no princípio. Textos antigos descrevem a Missa dos apóstolos exatamente semelhante a nossa, a diferença é que a nossa tem coisas da tradição que ela não quis tirar, o canto do Agnus Dei e do Sanctus, por exemplo. Olhando por esse viés, a Missa de Paulo VI é bem mais fiel à Tradição.

E as vestes? Não existiam até o Império Romano permitir a Igreja Católica e dar aos padres cargos públicos. As vestes sacerdotais são togas romanas adaptadas. A casula tridentina foi feita para ser vista de costas, mas imita um avental – pois o padre é servo. A casula gótica imita os antigos modelos góticos, é também um avental, mas para ser visto de ambos os lados.

E as músicas? Houve abertura para novas composições, os brasileiros é que deram mole. Alguns fizeram coisas açucaradas e sentimentais e outros preferiram reclamar ao invés de compor, mas basta ouvir um pouquinho das músicas litúrgicas contemporâneas estrangeiras, verá que aproximam-se do gregoriano, embora em seu caráter próprio, exatamente como pediu o documento conciliar.

E a ruptura com o Papa? Não foi o tão idolatrado Concílio de Trento que disse que sem a sucessão apostólica não há Igreja? Onde foi parar então a Igreja de Cristo depois de João XXIII. A Igreja Católica acabou? Os protestantes que Trento combatia venceram?

Mas há coisas que o CVII trouxe que os tradicionalistas toddynhos amam, mas ainda sim cospem no prato em que comem. Ora, os padres viviam sua espiritualidade e os leigos deviam fazer religiosos ou ao menos perderem a própria identidade se quisessem seguir a santidade. Os tradicionalistas toddynhos são leigos que adoram dizer que querem ser santos no seu estado, mas o concílio que bateu nessa tecla foi exatamente o que negam. Sabe o que mais? O breviário. A antiga Liturgia das Horas era muito extensa, pois passava por todos os cento e cinquenta salmos em uma única semana. O novo breviário percorre todo o saltério em um mês. Adivinha qual eles rezam?

Acredito que hajam exageros da parte dos progressistas, mas não são incoerência dos documentos do concílio. Esse é o outro extremo e a oposição de ambos só faz o movimento do pêndulo mais constante: progressistas fazem a próxima geração ser regressista, regressistas geram progressistas. Sempre foi assim e sempre será, felizmente o Concílio deixou-nos a síntese no ponto de equilíbrio da virtude. Mas os tradicionalistas toddynhos chamam de neo-conservatives, eu prefiro outro nome: católicos.

Se o sujeito quer continuar aficionado por pano, eu não proíbo. Não me apego a detalhes, mas sei que tem seu valor. Porém, se quer mesmo discutir seriamente sobre o CVII, que leia todos os documentos deste. E que conheça todos os documentos de Trento, que leia realmente os grandes opositores ao Concílio e os que debateram com eles.E é ler coisa de gente séria mesmo, e não sites e blogs de outros tradicionalistas toddynhos que verborreiam polêmicas. Enfim, se quer ser a droga de um herege, então estude para ser ao menos um herege digno de atenção e não a porcaria de um moleque criado a leite ninho que decidiu se fazer de entendido em um assunto que muita gente mas astuta se pôs a refletir.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. É seminarista da Diocese de Anápolis. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.