Santa Carona

RESENHA – Fátima: o último mistério

Fui ao cinema para ver ao filme Fátima: o último mistério. Eu, literalmente, não sabia o que esperar do filme, tinha apenas alguns preconceitos a partir dos últimos filmes católicos que tinha visto nos anos anteriores, mas foi exatamente esse fato de não se parecer em nada com as últimas produções religiosas que tanto me agradou.

Ainda estava na minha cabeça o fracasso do filme Paulo Apóstolo, dos mesmos produtores do tão ruim quanto Ressurreição. O filme mais parecia uma vida de São Lucas do que do apóstolo dos gentios, perdeu muito tempo com coisas banais e não deu uma conclusão cabível, fazendo o filme não ser só maçante, mas inconsistente. Sem contar o fato de que deu a entender que Lucas foi o verdadeiro ghostwriter por trás da genialidade de um Paulo bastante traumatizado, para não dizer tosquinho.

Quando o filme começou, fiquei me perguntando porque eu estava ali. Já tinha visto uma boa representação cinematográfica das aparições de Fátima e lido um livro melhor ainda (o relato de Thomas Walsh, cuja leitura foi uma experiência fantástica), mas ao ver que se tratava de um documentário, estremeci anteriormente. Eu temia que fosse algo como Terra de Maria.

Ora, Terra de Maria é um documentário com uma bela e rica teologia mariana apresentada nos primeiros minutos, mas com personagens toscos, para não dizer ridículos, tentando ligar as cenas dos testemunhos. Aquele “advogado do diabo” está mais para um Mr. Bean, só que sem graça alguma. O resto do filme é um a enorme e chatíssima propaganda de Medjugore, desses comerciais turísticos que passam na TV. Que me perdoem os devotos, mas não estou falando de Nossa Senhora, estou dizendo apenas que é um filme chatíssimo e ponto final.

O mesmo eu aguardava deste filme, sobretudo por que a atuação da editora de vídeos que liga a história é bem fraca, sem expressividade, quase mecânica, sem falar que dublar um vídeo espanhol sempre resulta em uma espécie de novela mexicana do SBT. Mas uma coisa me chamou a atenção, a história dos pastorinhos estava sendo contada rápida demais. O que haveria nos próximos minutos de filme? Talvez uma propaganda chata de peregrinação à Fátima.

Ano passado, eu refletia sobre Nossa Senhora de Fátima após ter lido o livro de Thomas Walsh quando comecei a conectar o ocorrido com a Revolução Russa, ambos os fatos eram de 1917. Logo deduzi que seria algo interessante, juntei alguns materiais e cheguei à conclusão e que a consagração tardia tinha feito com que os erros da Rússia, isto é, o marxismo cultural, tivessem sido espalhados pelo mundo. E que a destruição do comunismo viria pelo Imaculado Coração de Maria. Propus a realização de uma mesa redonda sobre o tema para a Academia Literária Imaculado Coração de Maria, agremiação dos seminaristas da diocese de Anápolis. Esse evento realizou-se em 10 de Novembro de 2017 (veja as fotos), cem anos depois, e contou com a presença dos palestrantes: Prof. Dr. Pe. Françoá Costa, Prof. Ms. Tobias Goulão e Sr. Felipe Melo. Foi um evento memorável!

Por que estou dizendo isso? Porque até o dia em que eu vi esse filme, pensava ser uma constatação só minha, uma vez que nunca vi comentários a respeito. Talvez o leitor tenha ouvido outros comentarem, mas eu não tinha ouvido falar. Quando começaram a fazer as relações, apontei o dedo para a tela empolgadamente e disse “Eles também viram o que eu vi!”.

O documentário trata de todas as problemáticas sociais que surgiram desde 1917 e propõe Nossa Senhora como solução: Revolução Russa, Alemanha Nazista, invasão da Polônia, 2ª Guerra Mundial, Guerra Fria, Guerra Civil Espanhola, Revolução dos Cravos, Estado Islâmico… o filme conta a história de um século, ligando todos os fatos, e mostrando em tudo as mãos de Nossa Senhora protegendo aqueles que sem põe sob a sua proteção.

O quanto fiquei satisfeito ao ver a história do último século toda interligada só foi superado por ver a quantidade de santos e santas que Deus nos enviou nessa época e, como todos os acontecimentos todos se interligam em Fátima: João Paulo II, Maximiliano Maria Kolbe, Lúcia, Francisco, Jacinta, Pe. Pio, Mons. Josemaría Escrivá, Madre Teresa de Calcutá. Esses santos conectam s diferentes conflitos do último século a Deus e Sua reposta de nunca ter tirado os olhos da gente.

No fim, tem toda aquela coisinha do acidente do filho da editora, que me deixou um gosto estranho de “Ih… vai ser igual aquele filme Aparecida, vai ter um super milagre para a mãe converter e vai terminar com ela em Fátima!”. Não, não foi, foi uma providência sutil, mas que deixou bem claro ter as mãos de mãe de Maria Santíssima por trás, bem como todo o século XX. Terminando o filme com uma mulher agradecida, que demonstra sua conversão em beijar uma estampinha e voltar a fazer o seu trabalho cotidiano. Magnífico!

O filme combateu todas as questões ideológicas (nazismo, fascismo, marxismo, maçonaria), apresentou verdades históricas e ainda tocou no assunto das questões de gênero, ataque às famílias e promiscuidade sexual. Foi uma aula de história e de religião sobre o século XX.

Algumas pessoas se pronunciaram contra o filme, dizendo que ele transmite a ideia de que a Rússia está convertida e que agora ela vai salvar o mundo com o Putin montado em um urso. Eles têm bons argumentos para tal e eu não tenho bagagem para discutir com esses super filósofos, eu sou só um católico que foi ver um filme e deixou-se ser surpreendido. Não assisti como um crítico que busca verdades históricas, mas como um devoto que queria ver milagres.

Por isso, pessoalmente, não concordo com eles. O filme não mostra Putin e nem dá tanto crédito à Rússia, antes a mostra como uma convertida por meio da consagração, diferente de Portugal e Polônia que nunca caíram em erro devido a consagração precoce. O filme foca-se nas figuras dos papas e nos seus pronunciamentos oficiais. O papa disse que a consagração foi feita, ela é tardia, mas foi feita. Não cabe a mim dizer se foi válida ou não, o papa disse que sim. Não sou eu, e penso que o diretor do filme pensou dessa forma, que pensará diferente do Sumo Pontífice. Se alguém tem poder para falar diretamente com o mundo dos espíritos, sem mediação papal, aí é outra história.

Assim sendo, não vi questões de política eurasiana, vi apenas – e acredito piamente ser essa a mensagem tanto de Fátima quanto do filme – que Nossa Senhora promete cuidar de nós se nos dispusermos a rezar com confiança o Santo Rosário e tomarmos os meios ao nosso alcance para agir, mas todo trabalho é inútil se não for regado por conversão, oração e penitência.

Com isso, quero declarar que sai surpreendido do cinema e dou toda a indicação para que vejam a esse filme. Vale a pena ir, mesmo que seja longe (uma vez que não são todos os cinemas que exibem), para assistir. Friso mais uma vez a síntese desse filme, que é a grande mensagem de Nossa Senhora de Fátima: nossa amada Mãe e Rainha sempre conduzirá as nossas vidas, conseguindo de Deus todos os favores que não merecemos, por mais difíceis que sejam os tempos, tenhamos confiança e rezemos o Santo Terço pedindo Seu auxílio maternal e no fim, depois de todas as tribulações, Seu Imaculado Coração triunfará!

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. É seminarista da Diocese de Anápolis. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.