Santa Carona

Cristã e feminista?!

Observando como o feminismo atua hoje, quais ferramentas utilizam para propagarem seu discurso e quais pautas defendem, fica praticamente impossível se declarar feminista e católica ao mesmo tempo. Há alguns grupos que já fazem esse tipo de declaração, mas adotam as mesmas pautas feministas, apenas trocam o discurso, utilizando-se de uma linguagem do tipo acolhedora: “faça o que quiser pois o que importa é seu coração” e se esquecem do lado justo de Deus, no qual Ele avalia também a intenção, o esforço e as lutas. Poucos querem lutar para estarem realmente em paz consigo mesmos e com Deus, e grupos que dizem “defender a causa das mulheres”, por exemplo, se aproveitam dessa fragilidade.

Sei que muitas pessoas que procuram estudar sobre o que pensam as autoras feministas e também as anti-feministas, já se depararam com a autora Jutta Burggraf. Esta grande mulher nasceu em Hildesheim, Alemanha, em 11 de julho de 1952 e faleceu em Pamplona no dia 5 de novembro de 2010. Ela era uma teóloga católica, professora na Universidade de Navarra. Ela publicou 20 livros e foi co-autora em mais de 70 publicações. Dentre suas publicações estão: “Per un Feminismo Cristiano. Reflesioni sulla Lettera apostólica Mulieris Dignitatem” e “Hacia un nuevo feminimo para el sigilo XXI”.

 Quando Burggraf menciona “feminismo cristão” em seus textos, em momento algum ela se simpatiza com todas as bandeiras feministas atuais. Muito pelo contrário. Ela apresenta uma visão nova, uma mudança total do feminismo e como deveria ser realmente o feminismo.

Burggraf, juntamente com os ensinamentos de São Josemaria Escrivá, traça um novo modelo de feminismo, que vai totalmente contra as deturpações do feminismo atual. Nesse novo caminho há a valorização da família tradicional, é contra o aborto, trata do papel da mulher em diferentes âmbitos da sociedade e valoriza tanto o homem quanto a mulher. A seguir serão apresentadas algumas pautas essenciais, que Burggraf defendia com tanta clareza e precisão.

“ Deus criou o homem à sua imagem ;criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher.” Genesis 1,27.

A posição da mulher não é inferior ao homem e nem tampouco superior a ele, mas sim ao lado dele. O feminismo trouxe um paradoxo de que a mulher em toda a história viveu como inferior ao homem. Não podemos negar que em vários momentos da história a mulher foi vista como ser inferior, privada de vários direitos. Mas não foi em todos. A mulher não foi apenas maltratada, mas também honrada. Tivemos grandes nomes femininos que marcaram a história, assim como também tivemos vários nomes femininos que marcaram de forma vergonhosa a história. Há sempre um balanço, no qual não podemos generalizar. Quando lemos essa passagem do Genesis, vemos que a mulher tem a mesma origem e dignidade que o homem, pois ambos vieram de Deus. Um não é melhor que o outro, mas se completam, pois ambos possuem uma interioridade e uma profundidade que são próprias. Homens e mulheres são chamados a existirem de forma recíproca um para o outro, tendo qualidades espirituais especificas. Homens e mulheres podem ter direitos iguais, mas há diferenças entre os sexos.

“Diferenças não significam incapacidade.” Jutta Burggraf

No livro Hacia un nuevo feminismo para el siglio XXI, de Jutta Burggraf, a autora cita que a diferença sexual, portanto, não é uma realidade que pode ser limitada apenas ao plano corporal O masculino e o feminino se complementam em sua natureza corpórea, psíquica e espiritual correspondente e específica. Ambos tem qualidades valiosas próprias e cada um está em seu campo superior ao outro. Não há comprovações cientificas que dizem que determinado comportamento é tipicamente feminino ou tipicamente masculino, com precisão cientifica, pois há interferência da natureza e da cultura. Mas as diferenças com que homens e mulheres reagem a determinadas situações, realizam tarefas, a forma de sentir, planejar, dentre outras, podem ser reconhecidas por qualquer pessoa.

Como a mulher alcançou diversos direitos, e possui inúmeras capacidades e também suas próprias particularidades, vem o seguinte questionamento sobre o que escolher: ingressar no mercado de trabalho ou ficar em casa e cuidar do lar? Bem, Deus dá a cada pessoa particularidades diferentes e cada pessoa pode se santificar dentro dessa realidade que Deus colocou, seja no lar ou no mercado de trabalho. É preciso ter o coração no alto e os pés no chão. Aos que já são casados, vale ressaltar que a dinâmica do seio familiar cabe ao casal e este deve ter Deus no centro de suas decisões. Não se deve desperdiçar energias para se colocar em formatos pré-determinados ou ser medíocres e fazer aquilo que se custa.

Para São Josemaria Escrivá, a mulher está chamada a levar à família, a sociedade, a Igreja, algo característico, que é próprio e que só ela pode dar: sua delicada ternura, sua incansável generosidade, seu amor pelo concreto, sua sagacidade, sua piedade profunda e sincera, sua capacidade de intuição…

Falando sobre a mulher no mercado de trabalho, devemos deixar claro que não foi graças ao feminismo que isso hoje é uma realidade. As mulheres ingressaram no mercado de trabalho por necessidade. Com as guerras os homens tinham que ingressar nas frentes de batalha e então as mulheres tiveram que assumir os negócios da família e a posição dos homens no trabalho. Quando as guerras terminaram, principalmente  a II Guerra Mundial, o cenário se modificou muito, pois muitos dos homens que conseguiram regressar, após lutarem pelo seu país, estavam mutilados, com problemas psicológicos e muitos foram excluídos da vida social, resultando em uma diferente tomada de atitude por parte das mulheres, que tiveram que deixar sua casas e filhos para trabalharem e tomarem frente em projetos. Mas veja, a inserção da mulher no mercado de trabalho se deu início por necessidade, não foi graças ao feminismo.

Jutta Burggraf faz uma citação interessante ao explicar sobre uma diferença importante entre homens e mulheres. Ela afirma que o homem e a mulher não se distinguem, é claro, no nível de qualidades intelectuais ou morais, mas em um outro aspecto muito fundamental e ontológico: na possibilidade de ser pai ou mãe, sendo esta indiscutivelmente, a razão última da diferença entre os sexos. Jutta ainda conta que São Josémaria acreditava, assim como todo cristão, que a paternidade humana é uma colaboração direta com a criação divina e as mulheres são chamadas a serem “lugares” de uma intervenção divina é muito direta, sendo o novo ser confiado primeiramente para ela, que o recebe, abriga e nutre. Muitas vezes a gravidez é marcada por fadiga e esforço. O momento do nascimento, para algumas mulheres, se tornam um “fardo”, devido à incompreensão do meio e estruturas socias injustas. Mas, um ser humano não pode ser privado da vida devido a essas dificuldades, mas são essas dificuldades que devem ser suprimidas, diz São Josémaria. Sabemos que nem todas as mulheres são chamadas a gerarem um filho, de se tornarem mães. Mas há um outro chamado à maternidade que é a maternidade espiritual, no qual inclui a dimensão psíquica-espiritual da feminilidade, onde essa maternidade é traduzida como uma sensibilidade às necessidades e exigências dos outros, percebendo seus conflitos internos e os compreendendo.

Quero salientar que a Igreja Católica não é feminista, nem defende os ideais feministas atuais. Mas é uma instituição que respeita os direitos das mulheres em todos os âmbitos da sociedade e que com frequência pede para que respeitem as mulheres e inclusive as protejam. Não é preciso ser uma “feminista de plantão” para concordar com isso. Entendamos e tenhamos como modelo o relacionamento de Cristo com a Igreja: Cristo é o esposo da Igreja, que é submissa a Cristo. Mas esta submissão não implica abuso por parte de Cristo sobre a Igreja, pois Ele dá a Ela um tratamento santo e digno.

Salve Maria!

 

 

Pabline Gasparoti

Goiana, graduada em farmácia, catequista, gosto de uma boa leitura e sou apaixonada por Deus.