Santa Carona

A Mística do Oxalá

Quando a gente se decide por seguir um percurso vocacional e visa a santidade, Jesus tem o péssimo hábito de carregar nosso caminho de cruzes. Não que Ele não tenha avisado que faria isso, mas me espanta que trate assim a seus amigos, talvez por isso o repreendeu Santa Teresa D’Ávila dizendo entender porque Ele tem tão poucos amigos.

Mas uma coisa deve ser dita, esse mundo não é uma maravilha e nunca vai ser, e a culpa não é da nobreza, da burguesia, da Igreja, dos homens, dos brancos, dos judeus ou do Batman. Esse mundo não é perfeito e também não são perfeitos os que aqui estamos, ou melhor, esse mundo é – segundo a Salve Regina – um “vale de lágrimas” e nós aqueles que estão “gemendo e chorando”.

Não estou dizendo que o mundo é horrível e que fomos jogados aqui para a morte, esse pessimismo existencialista é o outro extremo. Pretendo antes propor um justo equilíbrio entre as duas visões: um realismo que demonstre que esse mundo não é um paraíso, mas também não precisa cortar os pulsos por isso. Como o próprio São Thomas More – um sir! – demonstrou com o título da sua obra sobre uma ilha fantástica e perfeita, acreditar em uma realidade perfeita nessa terra é uma “Utopia”, do grego, υ-τοπός (υ é prefixo de negação e τοπός é lugar), isto é, lugar nenhum.

Se esse mundo por si só já não colabora, os sofrimentos enviados (ou simplesmente permitidos) por Deus parecem incompreensíveis, mas depois de muito tempo transcorrido, muitos homens e mulheres, já sábios, sabem olhar a própria história e ver que Deus os fortificava, preparava e purificava.

O problema é que antes que nos venha a sapiência, tendemos a ser idiotas. E como sabemos sermos idiotas na nossa juventude! E em meio as muitas estultices que fazemos nos anos da mocidade, está aquela que configura uma das maiores perdas de tempo útil da nossa vida, a imaginação de realidades paralelas.

Décadas atrás, as editoras Marvel e DC Comics descobriram o conceito físico de realidade paralela e decidiram explorá-lo, pois isso permitia uma gama imensa de possibilidades de criação de histórias para seus super-heróis, como por exemplo o Spider-verso onde reúnem-se todos os Homens-Aranhas de todas as realidades possíveis: Homem-Aranha Britânico, Homem-Aranha Punk, Homem-Aranha do Futuro, Homem-Aranha Negro, Homem-Aranha Indiano, Homem-Aranha com Megazord, Homem-Aranha Macaco, Homem-Aranha Cósmico, Mulher-Aranha, Garota-Aranha e até o simpático Porco-Aranha (Spider-Ham).

Em meio essa brincadeira editorial, surgiu o selo “What If?” em que eles recriavam seus heróis em um universo totalmente diferente só porque uma coisinha diferente aconteceu: E se… o Superman tivesse caído na União Soviética e não nos EUA, os pais de Bruce Wayne não tivessem morrido, Bruce Banner não tivesse ido salvar o jovem Rick Jones. Enfim, cada história cria um novo rumo e já saiu muita cosia boa no mercado dos quadrinhos.

A questão é que esse exercício, aparentemente incrível para escritores, é terrível para vocacionados (isto é, qualquer pessoa que se sente chamada por Deus a realizar algo em um determinado estado de vida – até casados –, e não só aqueles que almejam o sacerdócio). Porque eu posso contar e recontar quantas histórias eu quiser no papel com personagens fantásticos, mas minha vida, história e vocação, essa eu só tenho uma.

Deus chamou a cada um a ocupar um determinado estado de vida e, neste local, a buscar a santidade que é nada mais do que unir-se a Ele e amá-Lo, bem como aos irmãos. Porém, como eu dizia acima, Ele faz isso com cruzes e dificuldades, que devem ser superadas na amizade e confiança com Ele.

Mas diante das cruzes, podemos cair em uma espécie de desejo de viver em outra realidade paralela ou, como apelidou São Josemaría Escrivá, entrarmos na “mística do oxalá”, estado de êxtase em que elevamos nosso espírito diante do exercício de uma meditação de probabilidades, podendo até passar horas calculando outras vidas e possibilidades. “Oxalá eu tivesse escolhido aquela faculdade e não essa!”, “Oxalá eu tivesse sido padre e não casado!”, “Oxalá eu tivesse namorado antes de ir para o convento!”, “Oxalá fosse amanhã e não hoje!”.

Esse é um exercício perigoso, pois construímos realidades como castelos de areia sobre o ar, ou seja, partimos de um ponto que deveria ter acontecido, mas não aconteceu, logo, partimos da impossibilidade, mas sonhamos como se fosse possível. É como no caso do “What If?” dos quadrinhos. “O que aconteceria se o Superman tivesse caído na União Soviética?” Não interessa! Ele não caiu! Para que formular toda uma realidade Entre a Foice e o Martelo se, ao contrário do Mark Millar com essa historieta, vice não vai ganhar mais que frustração.

Aliás, essa é a pergunta preferida do demônio para nos colocar no metrô errado: “E se…?”. Com isso, perdemos toda a viagem e damos uma volta enorme, sem progresso espiritual: tudo que ele quer. Por isso, ao invés de deixar que você avance na sua vocação, que você seja santo no estado que se encontra e que tenha seu encontro com Deus, o diabo planta a semente da dúvida: “E se essa não for minha vocação?”, “E se eu tivesse namorado aquela pessoa?”, “E se eu tivesse este ou aquele cargo?”, “E se eu não tivesse essa limitação?”. São horas e horas imaginando um você alternativo, sem dificuldades, onde tudo dá certo, e o eu real (dessa dimensão) fica à míngua das ilusões, sem planos de ação para o agora.

Não podemos entrar nessa “mística do oxalá”, não podemos meditar sobre futuros hipotéticos ou realidades alternativas em que as coisas são mais fáceis e lá pormos nosso propósito. “Se eu fosse concursado, pagaria o dízimo corretamente”, “Se eu tivesse tempo, rezaria”, “Se eu não tivesse essa dificuldade, seria um modelo de virtudes”, “Se eu não tivesse feito isso, seguiria outra vocação”. Não podemos entrar nesses “êxtases” que, definitivamente, não são de origem divina.

“Nunca saberemos o que teria sido”, diria Aslam. “Tudo que nos cabe é decidir o que fazer com aquilo que nos foi dado”, diria Gandalf. É preciso repelir todo e qualquer devaneio desse tipo e abraçar o hoje, o agora, que temos. Trilhar metas para alcançar o futuro almejado, mas não esperar o futuro almejado para agir, sobretudo no que toca a nossa vocação à santidade dentro do nosso próprio estado de vida. E mais: nunca desejar um futuro em que não haja essa ou aquela cruz, essa ou aquela dificuldade, pois estas são – aqui e agora – uma oportunidade de ouro dada a nós por Jesus para que sejamos mais unidos a Ele na sua paixão redentora.

Até porque, se fosse possível viajar entre dimensões paralelas, o você de uma realidade alternativa com certeza poderia desejar estar na sua dimensão e não na dele, pois temos a mania de querer outras cruzes, porque todas as outras parecem mais fácies que a nossa, mas basta trocar de cruz e logo se percebe que não adianta: porque cruz é para abraçar e levar com o auxílio divino e não comparar e fantasiar. Agir diferente disso é viver em um mundo extremamente cruel, refugiando-se em um mundo mental, extremamente falso.

Assim, sugiro que você não seja uma pessoa da “mística do oxalá”, mas um cristão decidido do seu estado de vida ao qual Deus te colocou, consciente dessa realidade e disposto a abraçá-la com amor, sabendo que ela é o seu local de encontro com Cristo e os irmãos, amando a todos sem esperar nada em troca. Aqui, encerro não com um devaneio, mas um desejo de fundo do meu coração “Oxalá, todos pudessem entender e viver isso!”.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. É seminarista da Diocese de Anápolis. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.