Santa Carona

A mística da experiência e do sentido

Nós humanos somos seres de reflexão, envoltos em pensamentos, questões, palavras… São vários os modos em que as nossas experiências geram reflexões, sejam elas críticas, práticas ou não e emancipadoras; mas nunca podemos perder de vista, que as experiências carregam um ‘que’ de sentido para a condução da vida. As nossas ações são sempre cercadas de ‘palavras’; dizemos muito, comunicamos, e são as palavras que trazem consigo o que chamamos de força. Em nós humanos discorre a inteligência, esta diz da realidade e vem depois das palavras. Surge, porém a questão: Como nos colocamos, agimos ou respondemos aos desafios: calculando, raciocinando, argumentando? Á partir do que acontece e do que somos, em meio a estes movimentos, devemos buscar o sentido da vida: “[…] o homem é palavra, é enquanto palavra, tem a ver com a palavra, se dá em palavra, está tecida de palavra.” (p.21) Com as palavras nomeamos as nossas ações, as coisas, as situações, mas as palavras são mais do que meras letras reunidas: Somos seres de experiência!

A experiência embarca variedade, movimento. Vejamos bem: “A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca.” (p.21)

Enxergar aqui o ‘nos’ é perceber o convite desta palavra para fugirmos da impermeabilidade (nunca se molha, não se mistura), permitindo ser alcançado, acessado, indo para além das agilidades das informações, não deixando que as experiências sejam algo raro no decorrer da vida: Desde o primeiro respiro consciente a cada manhã, ao ouvir os pássaros, ao cântico na celebração, aos movimentos da vida, ao sorrir de uma criança, a fala prolongada de um idoso, ao degustar um alimento, ao contemplar o belo da criação. Em um era de agilidade, encher-se de informações é abrir lacuna para o cancelamento das possibilidades da vida, do embeber-se dos momentos, do compreender como as coisas chegam até mim e como elas me afetam. O convite é para irmos além das informações, da novidade que encanta por um momento, das palavras que perdem força ao longo do tempo, aprendendo rezar com a vida e não apenas saber ou descobrir dela, ir para além de meras opiniões, fugindo das obsceções acumulativas de informações.

Aexperiência está para além da informação, e por traz de cada experiência percebemos que há algo maior do que nós. Ao conformarmos a nossa consciência as opiniões e as informações, escondemo-nos e nos ausentamos do jogo da vida, fugimos das responsabilidades, das durezas dos enfrentamentos.

Dizia-nos Raul Seixas em uma de suas canções “Eu prefiro ser, essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo […]” Sabemos que um ser em metamorfose está aberto ao novo, aos moldes, sem pressa, descobrindo as conexões, não impedindo a memória com os imediatismos, mas reconhecendo os vestígios de cada experiência que estimula uma resposta, uma ação, ao silêncio que fala sem se por como inimigo da experiência: “[…] por seguir o curso acelerado do tempo, este sujeito já não tem tempo […] a experiência é cada vez mais rara por excesso de trabalho.” (p.23).

Falo de experiência, pois retirar-se, encontrar-se consigo e com Deus, é colocar o corpo e o espírito a adentrar o grande mistério do Criador da criação. Deus não é conceito, é vida, é Palavra encarnada, não se limita a razão, mas é experimentado pelos nossos sentidos: ouvimos,vimos, tocamos e testemunhamos nos diz São João (1Jo,1). Não somos fazedores do sagrado, não somos meros pronunciadores de palavras, não estamos no controle de tudo: a vida é graça, a experiência brota da fé. O Senhor nos convida a encontrar-se com Ele, a parar, deixar de ser apenas uma peça no jogo da vida, mas experimentar da sua graça, da beleza dos movimentos, focar na graça, permitir-se parar, tendo a capacidade de se questionar como estou agindo diante da vida, se a tenho dado sentido, se a minha missão tem sido uma verdadeira experiência com o sagrado, pois é o sagrado que nos escolhe, nos chama a testemunhar aquilo que experimentamos, tendo consciência do nosso limite, não podemos tudo, mas podemos um pouco, somos participantes do mistério da fé.

Referência: BONDÍA, Jorge Larrosa: Notas sobre a experiência e o saber da experiência (Universidade de Barcelona, Espanha). Tradução de João Wanderley UEC, Departamento de linguística. JAN/FEV/MAR/ABR, nº19: Campinas, 2002.


Thomas Éric da Cunha Carvalho
Seminarista da Diocese de Salgueiro-PE

Caroneiros

Aqui é o lugar que aparece o material enviado pelos caroneiros que acompanham e agora estão participando conosco do SC. Participe você também! Envie seu texto para blog.santacarona@gmailcom.