Santa Carona

Algumas orações que você faz errado

Orar é imprescindível para ser feliz, orar é imprescindível para desenvolver uma relação com Deus, orar é imprescindível para alguém que quer ser santo. Se você não reza, nunca crescerá na vida espiritual; se você não reza, não se salvará; se você não reza, não precisa nem do demônio para se tentar e se perder. A oração é o único meio de unir-se a Deus e é indispensável para a vida. Devemos orar sem cessar e fazer de todas as demais atividades uma constante oração.

Porém, qual a diferença entre rezar e orar? Como o leitor pode notar, utilizei-as de forma análoga no último parágrafo, porque de fato o são. Ao contrário do que muito pastorzinho zé mané diz por aí, orar e rezar são palavras cujo radical dize a mesma coisa: falar, e cujo sentido expressa mesma ideia, falar com Deus, basta abrir qualquer dicionário de português para confirmar, nenhum filólogo minimamente sério vai fazer polêmica com isso.

Porém, há de fato uma diferença entre orações com palavras nossas, espontâneas, e palavras decoradas, repetidas. Mas não fazemos essa diferenciação com termos “orar” e “rezar”. A diferenciação é “oração mental” e “oração vocal”.

Oração mental é toda aquela que surge na sua mente e você a expressa livremente, seja só de pensamento ou seja de voz alta, o importante é que você fale com Deus com seus termos próprios. Esse meio de oração é fundamental para crescer em intimidade com Deus e pode manifestar-se de muitas formas, desde um “louvorzão carismático” com palavras belas e efusivas até um simples pensar em Deus (mesmo sem palavras, apenas ideias). Toda essa oração espontânea é oração mental e, ao contrário do que protestam os protestantes (com o perdão do trocadilho), o católico faz sim esse tipo de oração: a meditação é oração mental, pensar em Deus ao olha ruma imagem é oração mental, a ação de graças da comunhão pode ser feita com oração mental, toda vez que você chega ao sacrário e fala com Jesus (ou apena O olha) está fazendo oração mental. E digo mais, quando você pede pelos seus e conta suas dificuldades, mesmo que na sua cabeça, sem dizer com a boca, está fazendo uma oração mental.

Vemos com isso que a oração mental é muito importante e deve permear nosso dia, mas a oração vocal não é de valor menor. A oração vocal é aquela que tem uma fórmula estabelecida e você a repete, sendo em voz alta ou não. Esse tipo de oração existe porque não sabemos orar como convém e pedimos mal, daí fazem-se necessárias orações compostas por quem sabia pedir: o Pai-Nosso foi dado por Cristo; a Ave-Maria são palavras de São Gabriel Arcanjo e Santa Isabel; o Credo é uma fórmula composta pelos apóstolos e desenvolvida nos concílios de Nicéia e Constantinopla; o Magnificat foi dito por Maria e está no evangelho de Lucas; o Tantum Ergo foi composto pelo grande Santo Tomás de Aquino, e a lista é longa. O próprio Jesus fazia oração vocal, pois os salmos nada mais são que isso, preces estabelecidas para o culto judaico. A Santa Missa é um rito de orações vocais. Há inclusive orações da tradição popular, que o povo (voxpopuli, vox Dei) expressou a fé, como a oração do Santo Anjo.

Por que fórmulas prontas? Por que não sabemos rezar com as palavras certas, porque pedimos mal, porque utilizar-se das palavras de pessoas mais dignas pode nos valer, porque essas fórmulas comprovam sua eficácia. Enfim, a lista de motivos é longa.

Mas o objetivo desse texto é lembrar de que se deve ter muita atenção ao que se reza. Repetir uma fórmula sem pensar no que se está dizendo é sinal de que se está rezando mal. Repetir erros de português também demonstram uma certa falta de percepção do que se reza. Vamos a alguns casos.

Há aquela história, não sei se piada ou não, de que a senhorinha piedosa, ao fim de cada mistério, elevava a mão com o rosário e dizia ao Senhor no ostensório: “Levanto esse terço, intercedendo a bem-aventurada e sempre Virgem Maria, São Miguel Arcanjo e toda a milícia celeste. Que sejam espertos os seus inimigos e fujam da sua face todos os que vos odeiam!”. Não ria, eu vou provar que muitas vezes demonstramos mais ignorância que essa piedosa anciã.

 

  • Terço da Misericórdia

Na recitação do terço da misericórdia, Santa Faustina nos passa a fórmula que ouviu do próprio Cristo em uma aparição privada (Diário de Santa Faustina, Caderno I, § 475), mas não é bem assim que rezamos:

 

Errado: Pela Vossa dolorosa paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro!

Certo: Pela Sua dolorosa paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro!

 

Sabemos que dá muita vontade de usarmos o plural majestoso ao falar com Deus. O comediante Afonso Padilha disse que acha que a Bíblia parece ter sido escrita pelo Mussum, porque está tudo no plural. Tirando a piada, é verdade que a Deus, Rei Supremo, devemos usar esse plural majestoso, como se fala com a Rainha da Inglaterra ou com o Imperador do Brasil. Porém, aqui não é uma questão de plural, mas de pessoa. “Sua” é terceira pessoa (de quem se fala) e “Vossa” é segunda pessoa (com quem se fala). Essa oração é dirigida a Deus Pai, a quem oferecemos o sacrifício de Deus Filho. Veja o início da dezena: “Eterno Pai, nós vos oferecemos o corpo e o sangue…”. E é a Deus que oferecemos a paixão de Cristo. Usar “vossa”, neste caso, é incorrer em heresia de paterpassionismo, isto é, dizer que o Pai sofreu a paixão.

 

  • Oração sobre as Oferendas

Na Santa Missa, que já vimos que seu rito é também oração vocal, o sacerdote faz um convite à oração sobre as oferendas logo após o ofertório e antes da oração própria do dia. Essa oração a qual me refiro nunca muda, é assim: “Orai irmãos e irmãs para que nosso sacrifício seja aceito por Deus Pai todo-poderoso”. É na resposta que o povo se embanana:

 

Errado: Receba, ó Senhor, por tuas mãos esse sacrifício, para a glória do Seu Nome, para o nosso bem e o de toda a Santa Igreja.

Certo: Receba o Senhor por tuas mãos esse sacrifício, para a glória do Seu Nome, para o nosso bem e o de toda a Santa Igreja.

 

É mais uma vez uma questão de pessoas. A resposta não é dirigida a Deus, ao qual ainda será invocado na oração do sacerdote que segue essa resposta. Aqui, o sacerdote convida a rezarmos “orai irmãos e irmãs” e nós manifestamos o desejo desse pedido, que Deus receba através das mãos do sacerdote a quem respondemos (portanto, segunda pessoa “tuas mãos”) o sacrifício para a glória do nome Dele, de Deus (por isso, terceira pessoa, “Seu Nome”). Não estamos falando com Deus ainda, mas dizendo ao padre que queremos que ele fale com Deus por nós e ofereça o sacrifício do pão e do vinho que está na mão dele, do padre. Usar o vocativo “ó Senhor” aqui é dizer que Deus Pai oferece o sacrifício para si mesmo na pessoa do padre, que passa a agir “in persona Patris”, outra heresia.

 

  • Oração do Santo Anjo

Essa é uma oração popular muito querida pela nossa Mãe Igreja, pois é uma oração que as mamães ensinam aos seus filhinhos. Apesar desse embasamento infantil, é uma oração recitada por todos adultos que se colocam sobre a proteção dos seus anjos da guarda, mas nem todos acertam a fórmula:

 

Errado:Santo Anjo do Senhor, meu zeloso e guardador, se a ti me confiou a Piedade Divina…

Certo:Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a Piedade Divina…

 

Essa pequena conjunção pode fazer um estrago na oração. Não usá-la, nesse caso, demonstra que o anjo é um guardador (alguém que guarda) que possui a característica de ser zeloso, de guardar com zelo. Porém, colocar esse “e” onde não deveria faz com que você refira-se ao anjo como o seu zeloso. Meu zeloso o que? O que é um zeloso? Substantivar esse adjetivo gera uma confusão na oração.

 

  • Oração de Nossa Senhora de Fátima

Essa não dá nem para dizer que é uma questão de tradução, pois Nossa Senhora ensinou na língua de Camões, esta mesma em que vós me ledes (Memórias da Irmã Lúcia, quarta memória, 13 de Julho de 1917):

 

Errado: Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo e do inferno; levai as almas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem.

Certo: Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno; levai as almas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem.

 

Mais uma vez é uma questão de conjunção posta onde não devia. Se o fogo é algo distinto do inferno, que fogo é esse? Essa é uma oração para bombeiros católicos? Não vou nem entrar nos detalhes sobre as milhares de firulas que aprontam com essa oração, pondo palavras que não têm: “Ó meu bom Jesus”, “Ó meu bom e amado Jesus”, “… e socorrei principalmente as que mais precisarem da Vossa misericórdia e proteção”, “… abençoai o Santo Padre…” e etc. A oração está na íntegra tal como copiei do relato da vidente, é isso e basta.

 

  • Salve Rainha

Essa é sem dúvidas uma das orações mais belas de toda cristandade. É bastante antiga, mas possui um conteúdo profundíssimo. Porém, parece que isso pode acarretar dificuldades em memorizar sua correta fórmula:

 

Errado: … a Vós bradamos, os degredados filhos de Eva, a Vós suspirando, gemendo e chorando nesse vale de lágrimas…

Certo: … a Vós bradamos, os degredados filhos de Eva, a Vós suspiramos, gemendo e chorando nesse vale de lágrimas…

 

O que é que você está fazendo nessa tristeza toda, homem? Tudo bem que esse mundo não é perfeito nem nunca vai ser (atenção adeptos de filosofias que pretendem fazer justiça completa nesse mundo!), mas o que é que você está fazendo? Se rezado corretamente, entendo que suspiras à Virgem enquanto gemes e choras, porém, se diz todos os três verbos no gerúndio, para ficar mais fácil de falar, então não dá para saber o que você faz de fato enquanto suspira, geme e chora.

 

  • Salve Rainha (de novo!)

Talvez essa oração seja realmente muito difícil (paciência!):

 

Errado: … e depois deste desterro, mostrai-nos Jesus. Bendito é o fruto do vosso ventre! Ó clemente…

Certo: … e depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre, ó clemente…

 

Esse verbo ser no meio do aposto cria uma nova sentença dentro dela. Explico: na oração certa, peço a Virgem para me mostrar Jesus ao fim da vida, e descrevo quem é esse Jesus entre vírgulas (o que em língua portuguesa chamamos “aposto”): bendito fruto do vosso ventre. Porém, ao inserir um verbo, essa sentença deixa de ser aposto e vira outra oração (aqui pode ter uma ambiguidade, mas “oração” também é, em língua portuguesa, uma sentença com um verbo), uma oração subordinada, mas outra oração. Mas vira uma frase que não faz sentido dentro do texto da fórmula, e ainda isola as invocações que virão “ó clemente, ó pia, ó doce Virgem Maria”. Acaba a oração chamando Nossa Senhora para nada. Ai, ai, como uma oração tão rica pode se perder por um errinho desses? Entendo a confusão: na Ave-Maria, tem o verbo “é” antes de “bendito fruto”: “… e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”, mas lá é outro caso, o sujeito da oração é o bendito fruto e Jesus é que é o aposto.

 

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Enfim, são coisinhas bobas, mas são coisas que mostram que estamos pensando naquilo que estamos dizendo, que estamos rezando com o coração e mente e não só com a boca. G. K. Chesterton disse que: “Se você escrever uma palavra errado, terá alguma tentação de entendê-la errado”. E isso também se aplica aqui, rezar sem prestar atenção e repetir esses erros vais acabar a impedi-lo de obter todas as graças que essa oração pode fazer em você. É como no caso daquela piada em que a professora perguntou aos alunos do que tinham mais medo e, entre respostas comuns, Joãozinho respondeu “Eu morro de medo do Malamém!”, ao que a professora ficou intrigada e perguntou o que era. Joãozinho não soube dizer, mas sabia que era terrível, pois sua mãe sempre pedia a Deus para se ver livre dele: “… e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Malamém”.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. É seminarista da Diocese de Anápolis. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.