Santa Carona

Fui difamado, e agora?

Já comentei aqui em um outro texto dos perigos da língua, seja por calúnia ou difamação (CONFIRA), mas agora convido a outra reflexão. E se mesmo depois de me colocar em atitude de discrição e nunca mais ter soltado em calúnia a minha língua, e se mesmo depois dessa “conversão” eu for caluniado, acusado de coisas que não fiz ou fiz mal? Como reagir? Por que isso aconteceu? E agora, José?

Existem dois tipos de difamação, calúnia e maledicência, este último provém da junção das palavras “mal” e “dizer”, o que significa que é, literalmente, dizer mal de alguém. Ou seja, o sujeito fofoca para Deus e o mundo algo que você fez. Ele não está mentindo, mas não devia estar falando mal de você. Já “calúnia” é exatamente quando é mentira, quando dizem algo de você que não procede, é uma fofoca mentirosa.

Apesar de ser possível distinguir objetivamente essas duas realidades, na prática é bem complicado. É bem raro que uma fofoca conte algo como realmente foi e é impossível que uma mentira, no caso da calúnia, não esteja baseada em um princípio verdadeiro. É o que diz a sabedoria popular “O povo aumenta, mas não inventa”. Assim, se mentem, mentem a partir de um motivo real, e nunca vão contar a realidade sem fantasiá-la com mentiras. Então vamos deixar a distinção “calúnia” e “maledicência” só para os estudos e vamos trabalhar com o conceito genérico de “difamação”.

Difamação é atacar a fama de alguém, isto é, o seu bom nome, sua boa reputação. É colocar a pessoa no SERASA das comadres, é queimar o seu filme na praça. Isso é algo gravíssimo, pois todos temos direito a um bom nome e uma boa reputação (cf. CEC 2477-2479). Mas mesmo sabendo disso tudo e tentando seguir isso, eu fui vítima de tão grave pecado, e agora?

O primeiro passo é: eu dei motivo para que falassem? Todos temos dever de zelar pela boa reputação do outro, mas também somos obrigados a zelar pela própria. Se você foi difamado, certamente por que deu motivos, nesse caso, o “karma” só está retribuindo sua atitude. Então bem feito!

Não estou dizendo que você deve se preocupar com o que dizem de você, esse é outro caso. Em geral, você não deve se preocupar com o que os outros pensam e deve viver a sua vida tranquilamente. Mas isso não é o mesmo que ser um irresponsável que saí batendo tudo contra o peito. Você não deve se importar com o que dizem, mas deve ter prudência no agir para que não digam. É um ponto de equilíbrio muito sútil, a virtude tem esse hábito de se equilibrar no meio tênue.

Se você agiu mal, de forma escandalosa e gerou conteúdo para que falassem de você, então você buscou por essa difamação, então nada mais justo que ela tenha te pegado de jeito. Digo mais, se você agiu mal, então deve estar contente com a justiça sendo feita, pois agora Deus te pune por seus crimes. Bendita seja essa perseguição! Já pensou em quantas pessoas sofreram por sua língua? Agora é a hora da justiça.

Mas e se você não deu motivos e vasculharam sua vida até encontrar algo, isto é, você vivia sua vida de boa e buscaram uma forma de te difamar, seja com algo real, com uma realidade ampliada ou mesmo com uma mentira. O que fazer? Em primeiro lugar, não retribua na mesma moeda, não dessa no nível das comadres, seja o homem honrado da história. Depois, defenda-se com os meios honrados.

E mais, não odeie aqueles que fizeram isso, tenha pena deles, afinal, o que fez com que atacassem alguém que agia tão bem? Com certeza foi ciúme, sofrimentos pessoais por se sentirem inferiorizados com a sua presença, vontade de ser como você, inveja. Essa pessoa agiu de forma tão patética porque ela é patética e sente-se mal porque você não é. Por isso, insisto com a ideia de não entrar no joguinho de comadres, fazendo fofoquinhas dela enquanto ela faz fofoquinhas de você, pois se torna um pingue-pongue de patetas, algo extremamente patético de se assistir.

Porém, é possível ver tudo isso de uma forma sobrenatural. Ora, se existe um Deus que é Pai, ele deve me proteger, então não devo temer meus inimigos. Ninguém vai me fazer mal algum, pois Deus é meu protetor. Mas e se dessas injúrias vier no peito o questionamento “Ué, mas Deus não estava comigo?”. Então podemos considerar algumas possíveis respostas. Talvez Deus esteja contigo, mas você não esteja com Ele. Do que adianta querer que Ele te defenda, mas se meter em veredas tortuosas? Acha que Deus é obrigado a defender o nome de quem não quis se defender? Se você não foi prudente, Deus vai deixar que colha os frutos do mau uso da sua liberdade.

Ou talvez você seja realmente justo, mas não de todo, então Deus permite essas humilhações para que você seja purificado e justificado. Ele permitiu isso a todos os grandes santos, foi assim com Pe. Pio, Santa Teresa, Santa Teresinha, São Francisco, São Josemaría e o beato John H. Newman. Então fique tranquilo pois não são pancadas, mas picadelas, vacinas que te farão mais forte.

Mas talvez Deus ainda o permita por outro motivo (se bem que ligado ao anterior), para que você entenda que Ele é o Senhor da sua vida, para que você entenda que, sem Ele, você não é nada. Enfim, para que você abandone sua causa a Ele e então Deus te defenderá. Humanamente falando, é questão de justiça que você se defenda dentro das normas da honra, mas sobrenaturalmente, então você deve permitir-se ser humilhado e guardar sua causa ao justo juiz que é Deus. É o que os Salmos narram, pessoas que reservaram a sua causa a Deus e foram defendidas.

Assim sendo, uma difamação pode ser uma oportunidade de ouro de se unir mais a Deus, um verdadeiro presente que Ele deu. Pensando assim, ser difamado é algo incrível, e é mesmo, Deus tem mania de permitir cosias ruins só para transformá-las em coisas maravilhosas.

E se já se vê a difamação de forma tão sobrenatural, agora o difamador parece não merecer só pena, mas o nosso amor. O sujeito não é só um coitado que merece compaixão, é um instrumento divino para me fazer mais ligado a Deus. Então não tenho mais que perdoá-lo, tenho que agradecê-lo. Bendita língua de ouro, flagelo ígneo que me livra do fogo eterno, que viva para sempre!

Quanta gente ferida pela língua de outros precisa ver esse mistério. Quanta gente precisa aprender a perdoar o perseguidor e nunca mais perder essas oportunidades divinas de perseguição. Quanta gente precisa retribuir o mal com o bem, a calúnia e maledicência com a “benedicência”.

Portanto, se você, caro leitor, sofreu uma difamação e sofre por ela no momento, pense se não fez por merecer, seja por sua falta de prudência ou por justiça pelas vezes que você difamou outro. Depois, leve isso para oração e veja o quanto pode se unir a Deus por isso. Por fim, não só perdoe e não pague na mesma moeda o perseguidor, como ame-o, e afogue todo o mal com uma torrente de bem.

Carlos Neiva

Um lorde inglês preso em um corpo brasileiro. Apaixonado por Literatura e, por isso, graduado em Letras. É seminarista da Diocese de Anápolis. Sente um desejo profundo de dominar o mundo e, enfim, instaurar a era da zoeira.