Santa Carona

Sobre cartas, ou um exercício de missivista

Em nossos dias não são muito comuns a redação de missivas. As cartas, objetos de comunicação por vários séculos, hoje são relegadas a saudosistas que mantêm viva essa prática por simples paixão no ato de ter que dedicar tempo e cuidado escrevendo algo único e extremante pessoal. A correspondência era um ato corriqueiro, mas mesmo assim único. Era um segundo dedicado àquela pessoa, traçando no papel algo para ela. Fossem rápidas ou longas, felizes ou tristes, as cartas sempre possuíam uma atmosfera peculiar. Em nossos dias de mensagens instantâneas a espera por uma correspondência nunca será tão intensa como fora anteriormente. Até porque, mesmo as cartas de amor entre namorados, ou as de confidências entre amigos, são entregues pelos redatores e resta apenas a ansiedade para lê-las. O sentimento de escrever, enviar, esperar que seja lida e aguardar um possível retorno ficou perdido nas brumas do tempo, mesmo que existam alguns adeptos nostálgicos dessa prática que ainda, acabam funcionando como exceções que confirmam a regra.

Livros compostos a partir das correspondências de pessoas ilustres sempre surgem. São obras que não foram pensadas, mas mesmo assim acabam por possuir uma ordenação interna tão interessante que cativam o leitor. Esse tipo de publicação traz exemplos da forma mais simples, nua e crua de uma pessoa, as respostas mais afetuosas ou raivosas, o amor mais intenso e a sinceridade em assuntos que não seriam tratados em uma conversação pública. As cartas de santos trazem desafios, exortações, pesos na alma; as de poetas e literatos, nos levam a expressões de sua literatura que fogem daquilo que estamos acostumados a ver nos seus livros devido a intensidade, à pessoalidade e à intimidade que eles expõem para seu correspondente; pensadores se fazem claros até nas suas dúvidas, pois esses homens de raciocínio e almas nobres e que muitas vezes apresentam-se já lapidados, revelam que há dor, angústias, dúvidas e ao mesmo tempo certezas inabaláveis em seu ser que até em seus medos conseguem orientar quem os procura. Pessoas de alta envergadura tem cartas a nossa disposição, e outras não menos altas também. Tenho as correspondências de Santa Catarina de Sena, do poeta libanês Gibran Khalil, do americano Charles Bukowski, do intelectual inglês C. S. Lewis e do mestre russo Fiódor Dostoiévski. Cada uma dessas personalidades consegue trazer grandes reflexões em suas missivas, sejam direcionadas a pessoas próximas, sejam a alguém que aparecem desesperadas em busca de ajuda. A santa quer colocar fogo no mundo pelo clamor à vida próxima a Deus; o libanês não mede palavras e expressa o amor sincero e recluso pela sua correspondente; o americano revela sua personalidade forte, com momentos de raiva, júbilo, solidão e suas críticas; o intelectual inglês auxilia uma senhora do outro lado do Atlântico em questões sobre a vida e sobre a fé; o titã russo traça o caminho de sua vida, os abismos e cumes de uma alma que vivia procurando Aquele que fazia a vida de qualquer um ter sentido nessa terra.

A leitura de obras como essas auxiliam na aproximação da vida de pessoas conhecidas, aclamadas e tidas como referência, com a nossa vida. A vida simples e cotidiana que levamos era aquela vida que está expressa nas cartas: complicações da vida ordinária, sentimentos de dificuldade frente a provações, auxílio aos que não mais podem suportar sozinhos alguma catástrofe pessoal, expor alguma condição pessoal que não podia mais ficar oculta apenas para si. Tão íntimo, ou mais, quanto cartas, apenas os diários, que são outra forma de revelar o mais profundo da alma de alguém. Até porque, na carta, outra pessoa é correspondente e, quem escreve, mesmo na sinceridade de um para com outro, ainda pode silenciar certos detalhes e sentimentos, mas em um diário, quando o interlocutor é o escritor e si mesmo, nada escapa. Tudo fica exposto claramente. E, ao final, quem lucra são aqueles que ao passar do tempo terão a testemunha de almas abertas perante outros e perante si mesmos como referência e exemplos. Por essas e outras os tempos idos eram superiores, até porque ainda não temos históricos de conversas publicados (e espero que não tenhamos esse tipo de coisa, dado o quão efêmero são as trocas de informações hoje).

A ideia das cartas (e também diários) como forma de fazer literatura, intencionalmente, surge entre alguns autores como forma de elaborar sua narrativa literária. Um bom exemplo seria o Drácula do irlandês Bram Stoker, que conta em uma série de diários e correspondências o desenvolver da viagem aos Cárpatos e o enfrentamento com a criatura noturna. É uma forma interessante que leva a mente a elaborar as situações. Faz-nos pensar nas possibilidades que escapam nas descrições nesse tipo de escrita e aproximar um pouco mais com a realidade.

A última obra que li assim foram as cartas de Lewis a uma senhora americana que entrou em contato com ele e logo deram início a uma longa correspondência que duraria até a morte do autor. Eram desde comentários cotidianos aos afazeres, dificuldades em conseguir emprego e depender de outras pessoas, aos assuntos ligados à fé, mistérios da entrega a Deus e da oração. Belíssimas correspondências estão ali, mesmo que algumas sejam bilhetes para não deixar nada passar em branco, mas é visível uma preocupação do autor em fazer aquilo (mesmo detestando abertamente ter que escrever cartas).

Estive a pensar com seria escrever uma carta assim para alguém e deixar transparecer mais do que é costume, falar abertamente sem receios e de coisas ímpares. Talvez respondendo perguntas sobre questões do trabalho, da alma e da vida de modo geral. Ao menos isso seria um exercício interessante da capacidade de ordenar sensações e sentimentos. Acredito ser  interessante realizar esse exercício agora. Então deixarei aqui uma carta nunca endereçada a alguém, falando sobre coisas que ninguém perguntou, mas que saíram na medida que os dedos percorreram o teclado.

E o exercício de missivista resultou em algo mais ou menos assim:


 

Anápolis, 22 de outubro de 2018

 

Cara senhorita,

 

Pois bem, venho tentar responder às inquirições lançadas, procurando da melhor forma possível tornar essa correspondência curta, não tanto quanto um bilhete do Lewis, mas também não tão longa quanto aquelas cartas (que eram quase contos) feitas por Dostoiévski. Talvez falte alguma precisão, mas considere a alma sincera que aqui colocou minúcias do seu mais íntimo.

A principal pergunta, sobre para quem eu escreveria eu respondo: para vós, mas também para todos. Digo isso porque aproveito a circunstância para realizar uma privada “carta aberta” sobre questões da alma. Principalmente questões ligadas aos percalços da vida ordinária, pois esses sim são assuntos interessantes. Discutir política, governos, estados e nações são coisas secundárias. As melhores coisas dessa vida acontecem em escala pessoal, até porque as decisões governamentais são tomadas em escalas tão distantes que lembram explosões de bombas: sabemos que aconteceu, mas a medida da sua distância do ponto de impacto da explosão, o efeito é sentido de forma menos agressiva. Por outro lado, nossas decisões pessoais e cotidianas, são imediatas: seja o conversar ou não com alguém, seja dar ou não aquela carona, falar ou não aquilo que está saltando da garganta. As pessoas esqueceram desses detalhes da vida e perdem toda ela em assuntos muito distantes, como a briga eterna entre partidos que faz sentido imediato apenas para os militantes que transformaram a sua vida em uma extensão da vida daqueles encarcerados. Pobres, aquelas pessoas que perdem a capacidade de sentar com alguém importante e falar sobre alguma coisa do seu dia sem entrar em “trivialidades”. E com isso eu acho que já conseguiu a resposta desejada.

A essas questões de ordem pessoal imediata estão ligados os livros. Nenhum objeto é tão interessante de ser discutido, comentado, manuseado que eles. Estar no meio deles tem uma mística que é difícil de ser descrita. Vicente Ferreira da Silva tentou elucidar o peso dos nossos livros, Nassim Nicholas Taleb também, mas ainda parece faltar algo. Fiquemos apenas com a constatação de que eles são um pouco de tudo que já falaram e que ainda não falaram. O motivo é simples: podem levar as pessoas à sabedoria (e também à loucura). Sabendo usar, ter contato com os bons, agregam em nós sensações que mudam a forma com que olhamos as coisas. Após um bom livro nós mudamos, somos tomados por novas perspectivas e novas formas de olhar para o mundo. E um bom livro também é novo sempre. Não dá para divagar muito, porque cada um deles tem precisão em trazer alguma novidade para nós. E por isso disse que eles são tão importantes: são coisas sobre as quais devemos parar na vida e conversar sobre. Há livros que valeriam um dia, um mês ou até anos de discussões, mas a verdade é que estamos distantes demais da capacidade para tamanha empreitada. Contentemo-nos em lê-los e apreciá-los nas estantes e saber que podemos nos servir deles quando quisermos (e pudermos, considerando as obrigações da vida).

A parte mais complexa de suas perguntas talvez seja essa: sobre a solidão. Bom, assim como a melancolia, ela é para mim uma velha amiga. Sempre aparece, mesmo que por algum curto espaço de tempo saia a passeio, mas logo volta a ocupar seu lugar de destaque. Estar sozinho pode parecer estranho, tem horas que causa medo e desconforto, mas em outros momentos é o melhor que temos. Faz parte das circunstâncias da vida. Se não conseguimos ficar sozinhos, como vamos ficar com outras pessoas? Essa é uma questão interessante… A solidão nos ensina sobre nós, se soubermos aproveitar o que ela tem a nos oferecer (já escrevi sobre isso, deve estar disponível em algum lugar). Mas o fato é que, como qualquer outra circunstância da vida temos que encarar e saber lida com ela. Há momentos de ficarmos só, e momentos de procurarmos companhia – aquela sessão de contrapontos que encontramos no Eclesiastes reflete bem isso aqui. E ainda sobre as companhias, e sobre os amores, eles também aparecem. Há companhias e há amores… cada um com suas particularidades. Companhias são transitórias, aparecem, mexem com nossos dias, acrescentam (ou não) alguma coisa e logo partem; já os amores de fato, são bem mais complexos, a função deles é causar uma alteração real em nós como pessoas. Acredito piamente que isso seja verdade, até porque já aconteceu comigo. E como sei que vai perguntar “então por que não está com ela?”, já respondo: circunstâncias da vida. A melhor observação sobre isso é do Ortega y Gasset: «Yo soy yo y mi circunstancias», e isso leva à reflexão de que na vida existem mais coisas que atuam sobre nós que nossa vontade, e esta, pequena demais sobre o peso de todo o universo, não pode tudo. E então devemos ter a noção de que, sob determinadas situações, certas condições nas quais acreditamos estar enamorados, devem ser pensadas fora da nossa vontade, nós fazendo entender o que mais está em jogo. Tem amores que, realmente, a maior prova deles é deixá-los seguir, infelizmente… “Dolorem exprimit quia movit amorem”, lembrando uma referência feita por Camus. Mas não é à toa que o mundo recebe a alcunha de “vale de Lágrimas”. E se for realmente verdadeiro, deixará uma marca eterna.

Devemos pensar e agir em prol de coisas mais importantes. Pensar na Eternidade é o que sustenta qualquer adaptação a circunstâncias adversas, porque ao saber que a maior desilusão aqui é passageira perto do que é eterno, torna-se imprescindível saber lidar positivamente com isso. Nada te turbes, tudo passa (alguém importante diz algo assim). Inclusive, até mesmo a dor da queda pessoal pode e deve passar. Martirizar-se sem necessidade por algo que já se foi, que até recebeu o perdão sacramental é escrúpulo infundado, pois se o mais ofendido com sua queda deu a ti o perdão, não faz sentido remoer aquilo. Se o Amor nos perdoa, por que devemos manter em nós o remorso? Tomar o erro e fazer dele meio de sustentação para evitar novas falhas é o que nos resta. O melhor disso tudo é saber que temos limites assim como qualquer outra pessoa, portanto temos em mãos uma grande ferramenta que devemos usar até para lidar com as quedas alheias: antes de mais nada, tentar ajudar, porque também precisamos de ajuda.

Lewis disse que o melhor de procurar ser um cristão com excelência é a vantagem de que nossas orações pelos outros tenham mais efeito. Isso é algo importante a ser meditado. A procura pela constante oração não é apenas por nós e para nós exclusivamente. Ela é meio de união com toda a comunidade de fieis, e meio de pedir por eles. Peçamos um pelo outro, senhorita, e com isso a distância desta missiva, que já extrapolou o tamanho intencional, não será nada.

Que não seja algo chato de se ler, nem pedante e muito menos piegas. Espero que desfrute dessa carta aberta.

 

Com carinho,

 

Tobias Goulão.

 

 

P.s: Que um dia, como às vezes acontece comigo, você possa abrir uma gaveta de papeis velhos e, ao deparar-se com mais este exemplar de coisas do passado, reler umas linhas de sinceras palavras.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.