Santa Carona

Estórias do casebre

Em meio à poeira da longa estrada de terra, José andava rumando sua casa. Casa? Chamemos assim a tapera onde dormia o infeliz com sua esposa e seus quatro filhos, todos homens. Um dormia no estreito e apertado quarto do casal, era o mais novo, dois anos de idade. Os outros três revezavam no sofá único da casa, que tinha dois lugares, desta forma podemos imaginar os moleques magros e pardos, encolhidos no velho sofá.

Apenas por curiosidade, o mais velho dos filhos tinha nove anos, era o chefe do trabalho com os irmãos na pequena plantação da família, o segundo sete anos além de trabalhar com o mais velho, acompanhava o pai em serviços que este operava como pedreiro, o bacuri servia de servente. Era fraquinho, franzino não ajudava muito. O terceiro tinha quatro anos também trabalhava com o primogênito e acumulava o serviço de doméstico. Arrumava, varria, mantinha a ordem na casa.

A mãe era toda amor, tanto com os filhos, quanto com o marido, Ana Bárbara não tinha preguiça, acordava antes de todos, fazia para o café da manhã, pelo menos um café preto e um sorriso aos que saiam para trabalhar. O lanche matutino, almoço e jantar eram proporcionais aos recursos adquiridos com o trabalho do marido e dos filhos. Algo era certo, o café, o tomate e o alface não faltavam. O primeiro porque o marido dava prioridade a ele nas compras, os outros dois porque eram frutos da terra que os filhos cultivavam. Plantavam outras coisas, mas sempre variavam conforme a estação do ano, a justificativa era o tempo favorável de cada tipo de plantação, mas os filhos se aplicavam mais em variar a cultura de plantio para ter um gosto diferente no prato.

No quintal haviam galinhas, mais de dez, a maioria despenadas, comiam os vegetais ao redor da casa, vez ou outra o filho doméstico tinha que tocar as galinhas que se aventuravam na horta de alface. O dia era calado na casa, os grandes silêncios eram interrompidos grosseiramente pelo choro do caçula. Chorava por tudo, especialmente por fome. No cultivo os filhos conversavam sobre todos os assuntos interessantes à idade. Sei lá quais eram os assuntos que os três miseráveis conversavam, fato é que falavam e riam muito. O sorriso amarelo dos meninos escondiam as suas necessidades, pareciam ter tudo.

Dois moleques estavam sentados na porta do casebre, os outros dois ficavam deitados no colo da mãe na sala. Um negro aparece no horizonte, José chegava em casa. Os dois da porta o recebiam como se recebessem um herói. O pai brincava com a família toda e do bolso da camisa, suja e com rasgados nas mangas, tirava uma pequena flor amarelada que achara no caminho e a oferece numa ar de galanteio à sua esposa.

Pouco a pouco, um negrinho ia buscar no poço da casa, um balde com água para o banho, Ana Bárbara ficava no fogão, à lenha, esquentando a água para os filhos e José no sofá da casa brincava com o menino mais moço. Terminado os banhos dos três primeiros filhos o pai sai de casa com dois baldes, para que a mãe dê banho no pequeno. Depois torna a buscar dois outros baldes, para o banho da sua esposa, em seguida repete o ritual para que também ele, pelo menos jogue uma água no corpo.

Todos, já limpos, se juntavam entre o sofá e o degrau da entrada da casa sentados, os pais no sofá com o caçula no braço e os outros espalhados no chão. Isso já era depois de terem jantado, esqueci de descrever este momento, entretanto que se fique anotado que eram uma sopa feita com um dos frangos do quintal. Voltando à reunião familiar, as feições negras e cansadas iam ficando amareladas pelas chamas dos lampiões e dos candeeiros.

O pai contava estórias diversas de sua época de moço, era interrompido aleatoriamente pelo pequeno moleque que hora estava em seus braços, hora nos braços da mãe. Tratava de pequenos e estridentes gritos e sorrisinhos. Este parecia o que menos se importava com a miséria que viviam, também não é para menos, nem sabia o que estavam vivendo. Nem compreendia que para ser respeitado precisava de dinheiro, na verdade nem sabia o que era dinheiro. Não precisava disso.

A conversa ia e vinha, sorrisos frouxos e carinhos entre pais e filhos e esposo e esposa marcavam a noite. Todos já bem cansados, decidem em consenso ir dormir, para no outro dia refazer a jornada quase escrava que se propunham todos os dias. Ouvia-se o arrastar do sofá da casa, dois guris esticavam um colchonete, bem fininho no chão o que arrastara o móvel se deita nele agora. Essa noite era a do segundo filho se aproveitar do sofá. No pequeno quarto numa cama dura, com colchão bem marcado pelos corpos que ali dormiam, se ajeitavam os outros três.

Enquanto o filho que se encolhia no sofá ficava arrancando pedacinhos de tecidos que iam se soltando do móvel, começa um festival de apostas, quem seria o último a apagar o lampião. O primeiro palpite vinha do pai, apontara como perdedor o mais velho e assim por diante. Essa brincadeira não era ritual, faziam esporadicamente. Intercalavam com apagar todas e de uma vez e assustar um dos filhos, ou eleger um para apagar todas os candeeiros e voltar sem tropeçar em nada para a cama.

Aos poucos o resultado da brincadeira ia ficando de lado, estavam cansados e um a um iam ficando calados, até que por fim só ouviam o som que o vento faz ao balançar as árvores. Iam dormindo, meio amontoados, mas sem achar ruim, ou se sentirem miseráveis. Dormiam em paz.

Do lado de fora, as galinhas e frangos estavam empoleiravam nas duas árvores que ficavam na frente da casa, a lua, que naquele dia era crescente, iluminava aquele lar paupérrimo.

O silêncio era tranquilizador, o que os velhos colchões não conseguiam fazer descansar, a calmaria compensava. Até o cantar dos frangos, e demais pássaros ao amanhecer, sem preguiça iam levantando. Primeiro a mãe, depois os outros. Todos se cumprimentavam e sorrindo iam se refazendo. Todos cercavam o fogão à lenha e seguravam suas canecas coloridas de alumínio.

Após a pequena reunião matutina, saiam para trabalhar, puxados pelo pai. E mais uma vez iam repetir suas jornadas exaustivas de trabalho. Aguardavam ansiosos a pausa do almoço, cada um com sua bóia, feita por Ana Bárbara cedinho iam matando a fome em meio a lavoura.

Contínua…

Thiago Lima

Direto de Vila Boa. Interessado em tudo que o mundo moderno desconhece. Aceito um café. Cum gaudium et Pace!