Santa Carona

Camus e Sade

Albert Camus faz uma análise da revolta do Marquês de Sade que foi expressa em sua literatura. Nesse comentário ele nos oferece algo que pode ser entendido como uma “perspectiva hedonista” do controle da criação. Vejamos duas partes desse tema da revolta de um homem contra a criação.

A“A lógica das paixões”: ela leva a cabo a aceitação de tudo que o desejo pede. Ela vive de sofismas que inverte o mundo, colocam suas questões de pernas para o ar apenas para justificar a realização de qualquer vontade. No seu desenvolver ela chega, como aponta Camus, a uma aceitação universal do crime (que é a realização de atos da vontade, do desejo do criminoso que não está se importando com qualquer ordem que venha limitar a ação do indivíduo, da satisfação de seu desejo). E, dessa forma, tudo que o desejo requisita está justificado como algo lícito. Retira-se então a conclusão de que essa é uma liberdade infinita, que não possui ou pode possuir limites, a não ser quando este se impõe pela força, quando uns dizem poder enquanto outros devem obedecer. Com esse raciocínio pautado na necessidade de uns destruírem outros e se satisfazerem com isso, na obrigação de tornar uma parcela objeto de massacre em nome do desejo, temos a criação de um grupo de privilegiados que podem destruir tudo por terem poder.

B“O amigo do crime”: Camus mostra como Sade constrói um artifício para poupar uma pequena parcela de pessoas do desejo das outras. Isso é necessário para as leis da satisfação do desejo, porque ele mesmo constatou que “a licença para destruir pressupõe que se possa também ser destruído. Logo, será preciso lutar e dominar. A lei deste mundo é a lei da força; sua força motriz, a vontade de poder”. Os que possuem meios de impor pela força colocam-se acima, usam do poder, oprimem e fazem dessa força que possuem uma ferramenta para a perversão do mundo segundo a sua vontade. Eles são a casta superior frente a um mundo de escravos que devem satisfazê-los. Organizam-se com o intuito de planejar os “direitos” de uns sobre outros. Ora, eis aqui, nada mais nada menos, que o princípio do totalitarismo que pretende, mesmo que em microcosmos (algo que também é composição do mundo literário de Sade – vide os castelos onde toda desgraça de perversidades é praticada), criam uma unidade de compreensão da realidade que destruiu o ser humano e fez dele objeto de experimentos desse desejo de posse e de destruição do outro, procurando dar uma unidade particular para criação que, na ótica de Sade, é inexistente. Ainda em seu texto, Camus comenta que: “A liberdade ilimitada do desejo significa a negação do outro e a supressão da piedade. É preciso matar o coração, esse “ponto fraco do espírito” […] é preciso impedir que o gozo se degenere e se transforme em apego […]. É necessário ainda que os objetos de gozo nunca apareçam como pessoas”. Nesse microcosmos, nesse mundo fechado, está a célula inicial do que veremos nas nações onde a manipulação por conta do desejo será regra, todo mal e crimes poderão acontecer (e aconteceram) sem nenhuma restrição. Havia liberdade para destruir a humanidade em nome de “deuses” que a organizavam. Sem nenhum medo e das maneiras mais degradantes. Sade fez escola com sua revolta metafísica e com o seu império do desejo.

Ao fim da observação sobre Sade, Camus completa lembrando que em Sade vemos

a reivindicação da liberdade total e a desumanização friamente executada por uma inteligência. A redução do homem a objeto de experimento, o regulamento que determina as relações entre a vontade de poder e o homem objeto, o campo fechado dessa monstruosa experiência são lições que os teóricos do poder voltarão a encontrar quando tiverem que organizar a era dos escravos”. […] “Sade exaltou as sociedades totalitárias em nome da liberdade frenética que a revolta, na verdade, não exige. Com ele realmente começa a história e a tragédia contemporânea.

A história da tragédia humana que transcorre pelo século XX, a era dos genocídios, o século dos totalitarismos e das depravações e da desumanização pode receber mais um adjetivo: tempos sádicos.


 

Mais um tema interessante é o do poder exercido por uma pequena casta que não pode criar, apensa destruir. Segundo vemos na análise de Camus dos textos de Sade, os libertinos que formam seus personagens concordam em realizar os massacres com aqueles que são presos em seus castelos. A prisão é geral. Aquele lugar será o mundo deles, onde todos os prazeres, todas as vontades, toda a sede de posse e destruição irão ser realizadas. Mas não criando, logo aquilo tudo será destruído. Por fim, a sede insaciável do desejo que não conhece limites vê sua fonte de satisfação seca. É hora de as potências voltarem sua atenção para a regra inicial: dominar pela força, realizar os desejos sem a humanização de ninguém, todos devem ser subjugados e feitos objetos de deleite sádico. Então, sem saberem dar a eles próprios nenhum controle, a destruição agora instala-se entre os “guias” daquele mundo. Impera a destruição daqueles que eram as potências superiores. O que acontece é que “todo o poder tende a ser único e solitário. É preciso matar mais; por sua vez, os senhores irão se destruir”.

Todo o desenvolver da análise de Camus até aqui mostra a necessidade de haver controle, bondade e amor para haver uma atmosfera que favoreça vida humana. Se é dominado pelo desejo, pela vontade, haverá a destruição de tudo, e ficará o último homem só e sem a realização de si. Porque não foi criado para a solidão, nem para o gozo perpétuo e irrestrito, mas para a magnanimidade. A consequência de esquecer essa necessidade do conhecer-se e de deixar ser dominado pelas vontades é, para usarmos ainda dos termos de Camus, “a totalidade fechada, o crime universal, a aristocracia do cinismo e a vontade do apocalipse”.

Ao fim, ou o homem aprende a realizar um controle sobre si, ou então, no ato de satisfazer tudo, de controlar tudo ele apenas destruirá tudo. E ele faz parte dessa totalidade a ser destruída.

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.