Santa Carona

Nem puritanismo, nem permissivismo

Sabemos que o pecado original trouxe inúmeras consequências para o coração humano. Uma dessas consequências é a concupiscência, uma propensão ao mal que ameaça a relação original de amor e doação querida por Deus. Conforme a tradição católica, o nono mandamento proíbe a concupiscência carnal e o décimo proíbe a concupiscência de bens alheios. Através da concupiscência carnal, a visão pelo outro torna-se modificada, não sendo aquela visão desejada por Deus. Enxerga-se o outro como objeto de obtenção de prazer. Pode-se dizer que o atestado de existência da concupiscência é a vergonha, que funciona como um meio de proteção contra este mal.

Jesus chama constantemente a todos para viverem uma purificação das intenções mais profundas do coração. Os últimos séculos foram acompanhados de grandes progressos, porém parte deste progresso foi seguido de uma desconstrução do senso de identidade pessoal e da compreensão sobre a pessoa humana. Esse tipo de consequência é sentida no âmbito da sexualidade, afetividade, família e na vida espiritual. Vale ressaltar que o pecado da luxuria surgiu em decorrência do pecado original, mas que foi se agravando com o passar dos séculos.

Há modos do ser humano lidar com a concupiscência, mas é preciso estar atentos às duas formas errôneas de vivenciar nosso proceder, e que podem conduzir a um caminho falso: o puritanismo e o permissivismo. Essas duas formas de pensamento podem ser colocadas com dois extremos, dois pólos, no qual parte da sociedade oscila entre eles.

O puritanismo é uma vertente que traz uma visão distorcida da moral católica. Creem que tudo o que se refere ao corpo e à sexualidade é pecado. Esta forma de pensar deriva do maniqueísmo, que de acordo com a TdC 44, “ via a fonte do mal na matéria, no corpo, e proclamava a condenação de tudo o que no homem é corpóreo. Como no homem a corporeidade se manifesta acima de tudo através do sexo, a condenação era estendida ao matrimonio e à convivência conjugal, e a todas as outras esferas do ser”.   Muitos dos adeptos a esse pensamento, costumam interpretar o Evangelho de forma rigorosa, “obcecados por regras”, e inclusive como se Jesus condenasse o corpo, pois este pertence ao mundo material, logo é mau. Tudo o que pertence ao mundo material, na visão destes adeptos, é produto de uma decadência, sendo assim objeto de repúdio ou superação (gnose).

“Evidentemente, formas de rigorismo tem, nitidamente, ganhado força no Cristianismo, e a tendência para a apreciação negativa da sexualidade…também encontrou caminho dentro da Igreja. A influência dessas distorções tem “desvirtuado e intimidado as pessoas.” ( Benedict XVI, LM,P.103).

A segunda postura errônea que muitos assumem é a do permissivismo, que é totalmente contrária ao maniqueísmo. Como o próprio nome diz, é a idéia de que “tudo é permitido e me convém”, “nada é pecado”. Essa forma de pensamento entende que é impossível ao ser humano viver a pureza, que o coração humano estará sempre “manchado”. Este é um modo de pensar também errado, extremista, é como se o coração humano fosse estar sempre submetido à uma “suspeita contínua”. Por isso que o puritanismo e o permissivismo são colocados como dois extremos. A TdC 46 faz uma explicação sobre o trecho de Mateus 5,27-28,

“ Ouviste o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Ora, eu vos digo: todo aquele que olhar para uma mulher com o desejo (luxurioso) de possui-la, já cometeu adultério com ela em seu coração”.

Essas palavras de Cristo, não permitem parar na acusação contra o coração humano e coloca-lo em estado de suspeita contínua, mas deve ser entendida e interpretada como um apelo dirigido ao coração. Isto vem da própria natureza do ethos da redenção, e esta redenção é uma verdade, uma realidade em cujo nome o homem deve se sentir chamado, e chamado com eficácia.

É importante entendermos que quando Deus nos ensina a buscarmos constantemente pela pureza, Ele não nos pede para voltarmos ao estado de inocência que havia antes do pecado original, pois a humanidade deixou-a irrevogavelmente atrás de si, mas nós podemos buscar a pureza de modo que alcancemos um nível de um “homem novo”, para chegarmos ao nosso destino final, o paraíso.

O que São João Paulo II vem nos ensinar com a Teologia do Corpo, está muito distante do puritanismo e do permissivismo. Ele nos ensina sobre o respeito de si próprio e o respeito ao outro, ensina também a reverencia e a santidade com relação a tudo que é corporal. Quando estas questões são vividas do modo correto, sem os extremismos apresentados anteriormente, nosso coração vai passando por um processo de purificação das intenções, que não se deixa abalar facilmente conforme o tempo vai passando, pois vai entendendo que este caminho é o que realmente nos faz aproximar daquilo que Deus havia planejado desde o início. A diferença entre a forma de pensar que São João Paulo II apresenta e os extremismos está nesta questão, no entender, e consequentemente no praticar. Tudo isso leva a um resgate da dignidade humana, tão abalada nos nossos tempos.

Nossa Senhora, Rainha  e exemplo de pureza, rogai por nós!

 

Pabline Gasparoti

Goiana, graduada em farmácia, catequista, gosto de uma boa leitura e sou apaixonada por Deus.