Santa Carona

Notas sobre a leitura de “Os Demônios” de Dostoiévski

Iniciei 2018 com um texto inspirado no meu escritor preferido, e nada mais justo encerrar também com ele. Dostoiévski foi o autor que me acompanhou por esse ano com a obra “Os Demônios”, o romance que faz a profecia do que seria a ação dos movimentos revolucionários, o quão devastador é o niilismo e a desgraça que é a ação dos socialistas. Foi uma leitura lenta, por vezes lenta demais, mas foi muitíssimo proveitosa, considerando a densidade do livro e a quantidade de notas feitas (além do aproveitamento das ideias em aulas, palestras e conversas cotidianas com amigos). Como sempre, para mim a leitura desse autor traz muitas páginas rabiscadas, minutos de reflexão e alguns rascunhos redigidos. É uma “leitura de aprofundamento”. Costumo comentar com alguns amigos que não leio Dostoiévski como simples literatura, mas como um tratado filosófico/teológico devido ao quão profundas são as situações descritas no contexto de seus personagens. Considerando isso, pouco importa a discussão homérica que esteticistas lançam ao discorrer páginas e mais páginas sobre como a escrita dele é ruim se comparada a Tolstói, por exemplo. Prefiro-me fixar na leitura feita por Otto Maria Carpeaux que diz:

Dostoiévski não expõe nunca o exterior das suas personagens, das quais conhecemos tão perfeitamente os mais íntimos movimentos da alma; que ele não descreve nunca a paisagem russa, mas unicamente a paisagem urbana de São Petersburgo, e que este Petersburgo dostoievskiano é, principalmente, o fantasma de uma cidade visionária. O que ele fixa — e com que segurança! — são as paisagens da alma.

A ideia de manter essa espécie de “diário de leitura” veio após fazer comentários na internet sobre os capítulos e um dos amigos (o sr. Dk Bertelli, via facebook) comentar. Essa situação chamou a atenção e fui tecendo, inicialmente, comentários finais após cada capítulo, mas em alguns casos fiz outros comentários por achar os temas lidos em alguns trechos muito bons. A ideia perpassou todo o ano, e após cada leitura fiz um breve comentário (ou nem tão breve assim).

Muita coisa é tratada e em alguns momentos se tem uma ideia de certas coisas, mas que ao longo podem ser reviradas. Um dos prazeres na leitura desse livro é justamente ver o quão maleável é a mentalidade revolucionária, a sua forma de ação e tudo que são capazes para realizar sua louca ideia de destruição. Mas para além desse tema, que é o central e que tem uma ligação com um fato real acontecido na época, temas como religião, amor, intelectualidade, sociedade e suicídio são expostos e tratados por Dostoiévski.

Longe de ser um tratado sobre o livro, são notas. Tomadas para expressar uma reação ao fim de uma reflexão. Não há necessariamente uma descrição/resumo do livro, mas há a revelação de uma série de eventos importantes em meio a elas. Caso seja alguém preocupado em tomar revelações de enredo de um livro de mais de um século de publicação, então, não leia as notas. Agora, se isso pouco importa, fique à vontade e aproveite essas peripécias que deixo aqui.

As notas foram iniciadas no dia 27 de dezembro de 2017 e encerradas no dia 26 de dezembro de 2018. É um tempo considerável, ainda mais pensando que conversei com algumas pessoas que disseram ter lido o livro em um mês. Mas como mencionei acima, não consegui ler rápido.

Por fim, eis os comentários. Uns simples, outros nem tanto.


27/12/2017 Primeiras impressões – cap 1.

O retrato do revolucionário de poltrona que vive da “idéia comum”, de reuniões e, claro, ilusões, mas não conhecem nada além de algumas abstrações completamente distantes da realidade. Dostoievski é genial, senhores!!


03/01/2018

O capítulo 2 trouxe as observações mais atemporais sobre os progressistas revolucionários. Mesmo separados por mais de um século, a descrição sobre como são os engajados não mudou nada. Leiam:

[…] de todas as impressões colhidas por ele em todo o tempo que passou em nossa cidade, a que ficou gravada com mais nitidez em sua memória foi a produzida pela figurinha sem graça e quase abjeta de um funcionariozinho de província, ciumento e déspota familiar grosseiro, avarento e usurário, que trancava à chave os restos de comida e os tocos de vela e ao mesmo tempo era um sectário zeloso sabe Deus de que futura “harmonia universal”, que às noites se inebriava de êxtase diante dos quadros fantásticos do futuro falanstério em cuja realização imediata, na Rússia e na nossa província, ele acreditava como na própria existência. Isso no lugar em que ele mesmo juntara para comprar uma “casinha”, onde se casara pela segunda vez e recebera um dinheirinho como dote pela mulher, onde talvez, num raio de cem verstas, não houvesse uma única pessoa, a começar por ele mesmo, que tivesse sequer a aparência física de um futuro membro da “república social universal de todos os homens e da harmonia.

Sabe Deus como são feitos esses homens!” — pensava Nicolas perplexo, lembrando-se aqui e ali do inesperado fourierista. […]

Porque tenho notado — murmurou-me Stiepan Trofímovitch naquela ocasião — que todos esses socialistas e comunistas desesperados são ao mesmo tempo incríveis unhas de fome, compradores, proprietários, e a coisa chega a tal ponto que quanto mais socialistas, quanto mais avançados, mais intensa é a sua postura de proprietários… Por que isso? Será que isso também vem do sentimentalismo?

Benesses para mim, mas a “harmonia universal” para os outros; só que não toquem no que é meu, socializem o de outros… Nada mudou.


15/01/2018

Cap. III – Comentário 1

Uma das coisas que mais incomodam na forma como Stiepan Trofímovitch vive é ter que deixar sua mecenas controlar tudo na vida dele. Por não ter rendimento e ser bancado (sendo alguém com mais de cinquenta anos) por outra pessoa, é sofrível. Recebe ultrajes, zombarias, ordens até mesmo sobre a organização da sua casa. O ponto máximo foi a obrigação de um casamento.

A independência, a capacidade de decidir por si é algo que esse personagem não possui. Deixa-nos com angústia por ele.


Cap. III – Comentário 2

Ao comentar sobre um literato famoso, mas raso e de pouco talento para além do imediato, há uma descrição sobre nossos best-sellers no livro. Uma ânsia profunda de fazer aquilo que é medíocre e que atingirá justamente medíocres. São escritores fúteis que buscam a fama e regalias sem nada mais a oferecer senão migalhas sobre as coisas.

O que pretendem é mostrar o quanto são bons, benevolentes, atentos e importantes por se mostrarem preocupados em escrever sobre aquilo (uma relação com a ideia de sentimentalismo barato do Dalrymple cabe muito bem aqui). O alinhamento ao que pode ser chamado “pensamento dominante” para conseguir mais visibilidade está lá. Longe de realizar a grandes obras, ficam as voltas em mesquinharias apenas para serem notados.

Gastam o pouco talento de forma certeira: ao ludibriar os simples que deixam-se enganar por tão pouco. Mostrarem-se interessados com o tema dominante do lado que mais gera visibilidade. Conseguir ser bem quisto e importante.

Vejam o trecho:

Todo esse artigo é bastante longo e prolixo, e ele o escreveu com a única finalidade de autopromover-se por algum motivo. Lê-se nas entrelinhas: “Interessem-se por mim, vejam como eu me portei naquele instante. De que lhes valem esse mar, essa tempestade, os rochedos, as lascas do navio? Ora, eu lhes descrevi suficientemente tudo isso com a minha vigorosa pena. Por que ficam olhando para essa afogada com a criança morta nos braços mortos? É melhor que observem a mim, a maneira como não suportei esse espetáculo e lhe dei as costas. Aqui estou de costas; aqui estou tomado de horror e sem forças para olhar para trás; apertando os olhos; não é verdade que isso é interessante?”. Quando transmiti minha opinião sobre o artigo de Karmazínov a Stiepan Trofímovitch, ele concordou comigo.


Cap. III – Comentário 3

Enfim Kiríllov. Digo isso porque estava ansioso por ler os trechos em que ele aparecia. Camus coloca-o como um personagem absurdo em sua análise no livro “O mito de Sísifo” e por isso estava com muita curiosidade.

Kiríllovo tem interesse sobre o suicídio (mesma questão que inicia a obra de Camus). É um niilista, acredita no princípio da destruição universal e quer entender o que faz as pessoas não se matarem. Segundo constatou é por medo da dor e do outro mundo. Vencidos esses dois fatores, a pessoa seria deus e poderia de fato fazer o ato supremo de colocar fim aos seus dias.

Ele pode muito bem representar aqueles que não conseguem ver sentido no mundo, não encontram nada na vida a não ser a satisfação imedia e que nessa busca perpétua pelo desejo realizado, independente de qualquer que seja, poderiam chegar ao status de deus. Soa também similar ao super-homem de Nietzsche que criaria uma nova moralidade para si. Kiríllov só enxerga os antagonismos no mundo, só vê separação. Não compreende que ao separar-se de um lado, há uma junção em outra situação (diácrise e síncrise). Esvaziou-se de maneira tal que não só a si próprio deixou sem nada, mas passam a refletir esse vazio pessoal no mundo. Ele está fechado dentro dessa perspectiva terrível do mundo, da sua inutilidade e da incapacidade de ter sentido. Mostra-se indiferente a tudo que lhe é mencionado (mas toda a indiferença sempre tem um motivo…). Nesse isolamento, sem compreender a crise e o drama da existência em plenitude com a relação não só da separação, mas também como união e descoberta do sentido de existir, seu caminho é entregar-se, logo mais, ao seu objeto de curiosidade e tentar, em vão, ser o seu deus isolado e extinto.


Achei esse aforismo do Gómez Dávila e vai de encontro com o que anotei sobre Kirillov nas margens de “Os Demônios”: “Para desafiar a Dios el hombre infla su vacío.”


Cap. IV

A- o bando

Esse trecho têm passagens interessantes sobre a ação em bando, visível nas imposições de um agente da revolução sobre outro. As falas coercitivas, os imperativos em nome do ideal surgem e mostram o quanto a pressão coletivista age sobre um indivíduo. Parece que há relutância interne deste, mas a força da manada tende a superá-la.

(A teoria de Ortega y Gasset ressoa aqui estampada em literatura bem antes da sua formalização)

B- a lacaiagem de pensamento

Uma passagem memorável, de uma página, que sintetiza muito da ação dos pensadores revolucionários. A lacaiagem do pensamento é a condição influenciável e de entrega ao mais novo que aparece no papel. Aquilo que é tomado como progressista e iluminado, que vem de países/pensadores livres e comprometidos com a humanidade, tudo isso é recebido com o maior entusiasmo. Dostoiévski havia comentado que “o niilista é lacaio do pensamento” e apresenta da mesma maneira aqueles que compram o ateísmo militante dos meios revolucionários. Sem o ser realmente, passam a bradar esse ateísmo de boutique para todos os lados.

(Em um autor moderno, o Nassim Nicholas Taleb, encontramos o termo neomania que muito ilustra essa loucura pelo novo, independente do que a análise pela via negativa possa trazer)

C- o ÓDIO

Na mesma página que temos a ideia de lacaiagem de pensamento, o combustível revolucionário é exposto: o ódio. É da boa de um dos entusiastas com a nova sociedade que temos isso expresso. O ódio é o combustível dessas utopias sociais. Sempre a vontade de destruição cria um inimigo a ser destruído e com base nisso tudo deve ser feito para que isso ocorre. Com o fim desse objeto que recebe todo o ódio, o utopista revolucionário perde seu mundo. Aqui temos uma observação interessante. Após toda a implantação de uma revolução, a instauração da “forma de governo que transformara a Terra em Paraíso” sempre surgirão grandes inimigos, internos ou externos, para receber esse ódio. O revolucionário quer a destruição de tudo. Vive para isso. Não há nada que ame, apenas o que odeia. Essa é sua vida. P.s: a personagem Lebiádkina, até então, despertou curiosidade. Com todas as características que poderiam extrair de alguém sentimentos de repugnância, consegue ser alguém agradável e que desperta compaixão. Ela é quase um “anti-Funes”, para lembra de Borges. Vive de poucas lembranças, presa em um mundo de poucos momentos. Até mesmo situações presentes ela esquece. E da mesma maneira que Funes, está doente e fadada a limitar-se a poucas reações…


Cap. V

A sapientíssima serpente.

Quatro coisas marcantes no capítulo:

A- a figura que clama a piedade no lugar mais impressão, na situação mais adversa e que passa a ser um eixo de sanidade para a pessoa que se compadece de um necessitado.

B- o teatro social e o quanto existe a necessidade de ser apresentável em sociedade. Precisam mostra uma coisa, esconder outras, falsificar aquelas. Mascarar-se.

C- o pai que abandona o filho e perde qualquer vínculo, mas mesmo assim tenta de forma quase humilhante retomar seu lugar uns vinte anos depois. Pede humildemente, conversa dispondo da sua ação de enviar o filho para outros criarem, mas mostra que lá no fundo conseguia alguma forma de sentimento pelo filho. Não sei dizer o quanto isso é estranho. O sentimento que pode trazer tem um quê de triste, de revoltante e de benevolente.

D- a liberdade de Stiepan frente a Varvara. Esta, descobrindo que não aceitava de prontidão suas últimas ordens, pois aquele teve seus pensamentos revelados pelo filho, pede o afastamento do intelectual de sua casa. Não haverá discussão, não teremos um homem perdido em sentimentos negativos. Retirá-las e segue o seu caminho. Esse é o capítulo que encerra a primeira parte do livro.


Segunda Parte

Cap. I

A densidade das questões aumentam e as cortinas começam a cair. As visões daqueles que estão sob influência do pensamento revolucionário já ficam claras.

As discussões sobre temas transcendentes ficam mais intensas. O nível que temos é o de ver surgir um ateísmo que não é simplesmente não conseguir acreditar em uma divindade, mas sim buscar sua negação. Outro traço é a criação de ídolos por aqueles que não conseguem aderir à cartilha da militância: deus passa a ser para um o povo e a pátria, para outro é o homem-deus que assumirá a terra em uma inversão satânica das proporções. A busca de uma bondade inata nas ações humanas desde que sejam belas e prazerosas cravam um antropoteísmo na alma daqueles que esvaziaram-se de Deus e querem preencher o vazio com questões humanistas, políticas e ideológicas. O ato de adoração de si, da vida imediata e dos seus prazeres levou irremediavelmente ao compromisso com o suicídio. A eliminação de consciência de futuro e a ânsia na adoração de si termina no completo controle pela existência.

Ainda encontramos uma descrição sobre a maneira como os grupos revolucionários agem. O ódio e o ressentimento são marcas presentes. A bajulação feita pelos “intelectuais” aos niilistas revolucionários é expressa e nos mostra que não é nada novo no cenário das “cabeças pensantes”. Infiltrados em todos os lugares, sabendo sempre o que cada um está por fazer e que tomando nota para reportar o que quer que seja feito fora daquilo que é predicado pela organização. Vigilância essa que termina em acusações de espionagem e traição caso o membro não cumpra exatamente o que é previsto. E a espionagem sempre resulta na eliminação do indivíduo que não conseguiu se adequar à forma de vida do grupo revolucionário. É o resumo daquilo que o século XX mostrará em execução nos grandes sistemas ideológicos revolucionários que ganharão espaço pelo mundo.


Segunda Parte

Cap. II

Uma importante característica revelada nessa parte é o peso de certas personalidades sob outras pessoas. Nem sempre são aquelas grandes nomes carismáticos, que controlam e influenciam multidões. Mas, como Dostoiévski mostra, pode ser uma pessoa em um círculo específico que, para uns pode ser só mais um louco, mas para outros é um gênio, uma inspiração para as mais loucas tomadas de atitude. O peso que Nikolai Vsievolódovitch nas decisões de outras pessoas, o quanto ele as influencia ou até mesmo amedronta é algo marcante. Dá uma cadência para o pensar de uns, para as inquietudes de outros e nas decisões de todos. É o astro de um certo núcleo na história e é importante em outras regiões. Nikolai também pode ser um exemplo de impulsividade, devido aos atos cometidos e que não necessariamente são restritos apenas a ele, mas estão ligados diretamente com outros.

Outra questão levantada anteriormente e fixada aqui é a idolatria que surge em certos indivíduos que, ao perder toda a esperança, perder-se até mesmo de Deus, passa a criar ídolos para si. A nação, uma idealização da Rússia surge, uma religião local de um deus local também aparece (o que lembra a observação de Cioran sobre os cismas e heresias serem uma espécie de nacionalismo). O culto ao estado, ao ideal de nação, à perfeição do mundo pós-revolução nada mais é que o vazio querendo ser preenchido (sendo uma situação na qual voltamos a uma referência feita a Chesterton por muitos, de que ao parar de acreditar em Deus, as pessoas tendem a acreditar em qualquer outra coisa como se deus o fosse).


Segunda Parte

Cap.III

O capítulo que trata do duelo de Nikolai, mas que mostra muito do que é o mundo da honra, dos comportamentos e até que ponto pode ser levada uma ofensa. Aquilo que consideram ofensivo e os desdobramentos que ocorrem com relação a um ato dessa natureza são mostrados no exagerado opositor de Nikolai, que em tudo encontra motivo para ver sua condição de ofendido ainda mais ultrajada. Um mundo de aparências, de normas exteriores, onde até mesmo um cumprimento fora dos padrões pode ser motivo de ofensa para uns.

Ainda há espaço no curto capítulo para vermos o quanto Nikolai está devotado aos seus fardos e como atura algumas situações excessivamente desagradáveis para manter os seus planos. Os pesados fardos procurados que atualmente ele leva são motivo de suportar uma avalanche de atos que, fora essa sua postura de suportar em nome de algo que lhe toma a vida atual, seriam motivo para a morte do envolvido.


Segunda Parte

Cap. IV

É marcante a forma como qualquer um é usado para atingir os fins. Não importa se é mãe ou pai, o que importa são como eles podem garantir a realização dos planos futuros.

As figuras carismáticas e de poder cativantes, Nikolai em primeiro plano, e seus satélites, movimentam-se em prol da realização do plano. O mais intrigante: ainda há seres ocultos, que maquinam pelas sombras. E ainda são apenas sussurros.


Segunda Parte

Cap. V

[Observação sobre o início do capítulo que não pode ser deixara apenas para o seu término]

Dostoiévski mostrando como os jovens são ferramentas para a desordem utilizados por velhos “ilustrados” é um ótimo retrato para os nossos dias.

Imputam desordem na mente da juventude e transformam a todos em uma turba de zombadores e galhofeiros que tem apenas a farra, a futilidade, o escândalo como meta. Tudo é motivo para que os “iluminados jovens” façam algazarra e transformem qualquer situação em condição de criar uma possibilidade de formar uma horda de arruaceiros.

A juventude sempre sendo utilizada como massa de manobra. Mas enquanto tem farra às custas dos outros, tudo bem. Eles fazem todo o trabalho sujo de espalhar o caos. E nada há de novidade nisso.


Segunda parte

Cap. VI

Primeiro ponto: os burgueses socialistas que sustentam a queda de seu mundo por um capricho e desconhecimento de que também serão destruídos com o processo revolucionário. Já naquele tempo a atração pela novidade revolucionária tomava a sociedade e muitos ilustres membros, ricos e em posição de destaque, faziam questão de se colocar junto aos revolucionários. Situação sustentada puramente de status, para ser visto como alguém ilustrado, para mostrar que era diferente dos demais, um distinto ungido.

Segundo: a manipulação. Piort Stiepánovitch é o exemplo do manipulador de pessoas que toda a causa revolucionária cria. Consegue usar a todos, de todas as posições sociais, em todas as condições que lhe oferece. Sabe usar da sede de poder que uns possuem; utiliza a força do sentimentalismo para alcançar quantos puderem ser usados. Tudo isso é realizado para que o indivíduo esqueça de si mesmo, para que tudo venha a se tornar apenas a causa. Não é mais a pessoa que existe, mas sim o líder ou o partido… Piort Stiepánovitch realizou a eliminação completa do indivíduo em nome da revolução.


Segunda Parte

Cap. VII

Voltamos a ver personagens moldados pelo espírito do tempo. Que se entregam como amantes em êxtase a qualquer novidade, tudo para serem bem vistos e serem tidos como pessoas modernas, adequadas ao mundo de novidades que deve ser tomada como porta de inovações. E estas não precisam passar por um crivo de coerência com a realidade. Qualquer coisa que seja excitante o suficiente é motivo de adequação ao novo. O crivo da experiência, da vida e do tempo não importam.

Tanto é que Dostoiévski apresenta duas noções revolucionárias de ordenação social que hoje são visíveis, e naquela altura chamou a atenção e dividia adeptos fervorosos. De um lado, uma ideia de formar uma aristocracia que controlaria nove décimos da sociedade, impediriam de conhecer, manipulariam suas vidas, sua reprodução. Parte do mundo seria a massa de manobra de uma elite que viveria cientificamente e coordenaria o mundo (o nosso globalismo atual). Mas ainda restava o ímpeto revolucionário clássico, aqueles que não andam como as tartarugas, mas que preferem mandar toda a discordância, todo o obstáculo para um paraíso na terra pelos ares. Diferente dos aristocratas, os revolucionários violentos preferem deixar o paraíso terrestre somente para os seus iluminados. Sem milhões de cabeças tomassem, nada haveria de ruim, preço baixo pelo mundo perfeito.

Eram os criadores de tais perspectivas de organização social que eram chamados de “humanistas”, de pessoas “preocupadas com o mundo” e eram vistos com bons olhos e admiração generalizada em um vasto círculo de camaradas. Para pessoas como essas os mortos nada são. As pessoas na mente revolucionária não existem, somente números e abstrações a serem controladas ou exterminadas.


Segunda Parte

Cap. VIII

Um curto capítulo, mas de peso singular, no qual Dostoiévski tira a máscara daqueles que orquestram a revolta russa.

A vigarice estampada nos personagens e o sonho de escravidão da humanidade por parte dos revolucionários.

O controle completo de grande parte das pessoas por uma elite que se julga acima de tudo, melhor que todos e capazes de dizer o que é o certo e o que é o errado e mudar isso de acordo com as circunstâncias. E o mais degradante: de eliminar a pessoa humana em prol do ideal da revolução, de fazer dela uma simples peça no jogo de dominação.

Um ponto importante da mentalidade dos niilistas russos que procuravam a realização da revolução social é a forma como eles propunham para alcançar as massas: através da depravação. Espalhar por todo o país essa condição, deixar todos sem o menor sentido de moralidade, zombar de tudo e todos, viver em uma inversão de moralidade impensável outrora. Corromper desde a mais tenra idade a imaginação das crianças e jovens, através das escolas e universidades, para que tudo que eles venham a querer e ser parte da manada de escravos que se imaginam livres sob o chicote dos idealizadores da sociedade nova que virá por abaixo o mundo.

Mas o bom é ver os próprios revolucionários afirmando que, o socialismo coloca abaixo um mundo, mas não consegue colocar outra coisa em seu lugar. O resta é a manutenção do ódio, para que assim, possam ter controle sobre os escombros e cinzas que eles criaram.


28/11/18

Segunda Parte

Cap. IX

Stiepan Trofímovitch é o personagem central e sob sua figura está depositada a condição de um espírito partido.

Entre o progresso que deseja e as desgraças que poderão surgir, o tormento toma conta de sua alma.

Angustiado não quer ver a tragédia, mas ele foi um dos ilustrados que construíram esse caminho. Ainda que esquecido e trocado pelos novos intelectuais que fazem encher os salões da alta sociedade, ele recebe uma chance para se mostrar em uma grande festividade. Talvez seja nessa ocasião que ele fará o peso de sua consciência se aliviar…


Cap. X

O capítulo que arremata a segunda parte do romance faz uma exposição das figuras que outrora ainda ficavam sob suspeita.

Em meio a possibilidades, agora as cartas estão na mesa e os demônios já dão sinal de que irão agir. Tudo está pronto para iniciar os planos de desordem social, para por abaixo a estrutura existente em prol da nova sociedade que eles visão criar.

A legião, os muitos, já está pronta para seu ato principal.


29/11

Terceira parte

Cap. I

Os momentos iniciais da festa são a constatação da calmaria antes da tempestade. E todos percebem isso na cidade. A tensão instalada, mesmo com a vida ainda seguindo, aparentemente, o curso normal é o prenúncio do caos.

Os espaços foram tomados, os personagens já estão em suas posições. Estão apenas esperando o tempo de iniciarem a peça.

Ao subir das cortinas a encenação iniciará e a tragédia anunciada tomará seu curso.


Terceira parte

Cap. II

Aqui encontramos uma comunidade já alvoroçada. Os ventos de desordem sopravam e todos estavam aguardando alguma tragédia. Era notório e poucos faziam vista grossa. Alguns cederam às condições apresentadas, outros mantiveram segura distância.

No baile oferecido com finalidade de beneficiar as preceptoras da província (uma espécie de evento social que apresenta jovens para possíveis enlaces matrimoniais futuros) tudo já começara mal. Tensão e espera pelo momento de causar problemas, pessoas especialmente colocadas para confirmar que a desordem aconteceria e que não seria um evento social comum, mas uma vergonha aos seus. Dito e feito.

Os revolucionários da localidade haviam preparado tudo. Um sentimento geral de que haveria algo mais grave, para além das quebras das convenções sociais, era o prenúncio de que a ordenação corriqueira deve ser abalada para que a ação dos niilistas revolucionários entre em ação. E veio como fogo.

O fogo mostrou que “o incêndio está nas mentes e não nos telhados das casas”, o que resume bem a condição daquela cidade em frente aos eventos criados pelos revolucionários.


Terceira parte

Cap. III

O mais chamativo foi o diálogo entre Stavróguin e Nikoláievna. Havia ali uma tensão muito grande. Na verdade, entre os dois personagens isso sempre existiu. Uma espécie de desejo/encanto mútuo que culminou em uma noite juntos. Poderia ser o prenúncio de uma união, da formulação de um caminho juntos, mas a história deles foi por outro caminho.

O diálogo entre os dois é a prova da morte do amor em frente ao amor-próprio. Ambos sentem algo, desejam um ao outro, mas o orgulho impediu o amor de tomar seu espaço. De um lado a ilustração aristocrática de Liza, do outro, Nikolai está convicto de tantos idéias, rendido aos seus pensamentos progressistas. E, sob ambos, paira o fantasma do niilismo.

Mais um detalhe importante: o desenvolvimento da relação entre os revolucionários após o incêndio. Tudo fazia parte dos planos, mas como rapidamente começaram a levantar suspeitas, Stiepánovitch começa a confundir os membros da organização. Levanta acusações de incompetência, de terem comprometido a “causa comum”, além de adiantar que seriam presos rapidamente. O caos instalado garante uma forma de manipulação e controle maior.


Terceira parte

Cap. IV

Stiepánovitch vai formulando e dando corpo ao seu ato de ordenação dos revolucionários e vai se dispor de todos os que pode. Kirílov é lembrado e será usado o mais rápido possível. A disposição do jovem pode ser um empecilho, mas mesmo assim é o melhor a ser feito. Somadas à manipulação de um maestro revolucionário, temos o seu acesso a informações e como ele usa delas para destruir reputações e tirar de si (mesmo que por pouco tempo) as atenções.

Mas o ponto de maior destaque está no encontro entre Stiepánovitch e Fiedka em casa de Kirílov. O manipulador fora tratar com o niilista sobre o “fim dos dias”, e descobre o criminoso na cozinha da residência. Vai ter com ele e tenta confrontá-lo. A cena desenvolve um diálogo no qual o assassino, home distante da Graça, explica a ordem do mundo, o caos revolucionário e o erro da idolatria para o revolucionário. O criminoso consegue ter o vislumbre de seus crimes, compreende seu pecado e ainda demostrou remorso, porque sabe que acima dele há Alguém, ele não é o padrão de nada. Já o revolucionário, idólatra da causa, de si mesmo e de suas capacidades, aboliu qualquer instância superior de si. Ao abandonar o Criador, tem a si mesmo como o reorganizador da criação e, portanto, livre de mal, de pecado. Estamos diante da idolatria que parte do amor desregrado de si, da impossibilidade de ver além de suas próprias vontades, e quem nos mostra isso é aquele homem que está com o peso da culpa pela morte de outras pessoas nos ombros e sente a carga da mesma forma que sente a falta da Graça em si e nos demais.


24/12

Terceira parte

Cap. V

O capítulo trata da mudança de perspectiva de um dos membros do grupo revolucionário. Ele já apresentava-se como um dissidente, como o delator que não via-se mais como um componente da ação revolucionária. Estava preparando uma delação dos responsáveis pelo incêndio e pelos assassinatos. Sua consciência condenava seus atos e queria ver-se livre daquelas questões.

Um evento faz com que mude de ideia: a chegada de sua mulher, de quem se separara há três anos. Grávida e em trabalho de parto, procura Chátov e se instala em sua casa. O homem que nunca deixara de amar aquela mulher passa a servi-la tal como sempre fez. Obedece seus ditos, e ao fim, com o parto já realizado, decide viver para aqueles dois seres, esquecendo a revolução, a causa comum, e até mesmo as denúncias. Nada disso, porém, é capaz de mudar a mente dos membros do grupo. A sentença de morte dele já estava decretada. Não é possível abandonar a causa comum, portanto, não haverá perdão ou possibilidade de distanciamento. Ele deverá pagar com a vida pelo envolvimento na revolução. A sua intenção de mudança de vida não será nada perto da execução da norma revolucionária.

Ou está aliado à causa comum, ou está fora da causa comum. E aqueles que estão fora devem ser plenamente descartados. Eis a mensagem que resta.


Terceira parte

Cap. VI

Esse é o capítulo da Morte.

A sentença de Chátov é executada. Ele é assassinado em uma emboscada e seu corpo oculto para atrasar qualquer investigação. No momento da morte Stiepánovitch faz questão de usar o sangue dele como laço de todos os demais revolucionário. Agora, pelo sangue derramado, todos tem o destino comum, todos seguiram com a mesma responsabilidade, seja pela vitória da causa comum, ou seja pelo fracasso. Desde o idiota útil clássico, representado na figura de que encarna completamente a idolatria pela causa, o personagem Erkel, ou seja pelos demais membros que até mesmo ficam em choque com a cena. Tudo está unido no sangue dos inocentes. E Stiepánovitch ainda é certeiro ao dizer que, para o avanço da causa comum, haverão ainda muitos Chátovs… Pavimentarão a causa, a revolução, com o cadáver dos dissidentes.

Havia agora a preocupação de Stiepánovitch com Kirílov. Este já havia dito que se mataria e, segundo os planos de Stiepánovitch, seu suicídio serviria à causa. Como Kirílov não tinha nenhuma preocupação a não ser tirar a própria vida e formular assim o seu arbítrio sob si mesmo, e transformar-se assim em um deus, havia deixado a possibilidade de assumir qualquer coisa que fosse pedida na intenção de ainda ser útil. Foi então que Stiepánovitch o fez assumir, com um bilhete que seria deixado como nota de suicídio, tudo que fora feito, desde os incêndios aos assassinatos. A data foi estabelecida e Stiepánovitch foi à casa de Kirílov acompanhar o evento (havia uma preocupação de que ele poderia negar-se ou a se matar ou a redigir o atestado falso de culpa). As divagações de Kirílov levara a discussões com Stiepánovitch, mas, depois de muita tensão e muita observação, o ressoar do disparo deu ao articulador da revolução o que ele queria: uma carta de suicida assumindo a culta e um cadáver que faria os rumos das investigações mudarem.

Restava a Stiepánovitch desaparecer e deixar a poeira baixar, mas claramente os demais membros da organização em prol da causa comum deveriam ficar, porque só cabe à liderança essas saídas estratégicas e pontuais para sobrevivência do ideal. Assim sendo, ele parte para Petersburgo enquanto o restante fica para “não levantar suspeitas”. Inegável que toda a forma de ação dos revolucionários estava aqui: assassinato e preservação do líder enquanto o restante da turba ficava largada à própria sorte.


26/12

Terceira parte

Cap. VII

O fim de Stiepan Trofímovitch acontece aqui. Depois de tanto atuar em meio a aristocracia, depois de ser aclamado como intelectual progressista, é descartado como antiquado em nome das novas ações e dos novos intelectuais. Além da mudança de rumo ele também percebe que já não há espaço para ele e que as coisas não seguiram um bom caminho. Toma a estrada, adoece, conhece uma nova mulher a quem quer se juntar. É tomado por uma doença grave. Logo Varvara Pietrovna descobre seu paradeiro e vai atrás dele. As revelações de Varvara Pietrovna sobre si e Stiepan são engraçadas. Sempre houve um clima entre eles, mas nada concretizados. Por fim Varvara vai lançando no home de cama às vezes que ela recordava de algo que ele fizera ao exibir-se para outra pessoa.

O ponto marcante do capítulo: a redenção ao último momento. Na cama, doente e sem muita perspectiva além do fim da vida, ele já demonstra um amor a Deus, uma necessidade Dele que dá todo um alívio à sua existência. Ele admite que necessita da figura divina, porque há um amor dentro dele que precisa de um direcionamento e que somente Deus pode ser referência disto. A comparação da ideia de Stiepan faz lembrar a forma como Unamuno chega até sua necessidade de Deus: por sentir algo que não está cabível nesse mundo, a pulsação para a vida, a outra vida tornar-se necessária, e nesse caso Deus existe e a alma imortal do homem quer ir até Ele.


Terceira parte

Conclusão

O desespero, mesmo diante das inúmeras preparações e a entrega dos crimes cometidos. No momento que tudo se forma, que as consequências dos planos são visíveis, temos membros do grupo que enlouquecem, que não esperavam que aconteceria aquilo tudo, de mortes e mais planos de mortes. A realidade da causa comum foi chocante e lidar com ela é algo que só os idiotas úteis ou os líderes, pois os fracos perecerão. A permanência dos idiotas úteis nos idéias da causa é independente da danação que está à mostra. Mesmo o líder de tudo fugiu e não se importava mais com seus capangas, mas o dedicado idiota ainda tem a visão mística do fim sagrado de toda a história da causa comum, de todo o processo revolucionário.

A exposição sem rodeios dos idéias de desgraça de todas as ordens dadas é interessante. Porque a partir dos interrogatórios nada mais fica oculto, ninguém mais fica distante de toda a maquinação demoníaca elaborada pela Legião. Tudo, em nome da causa, era para atingir os objetivos de desordem e desintegração da sociedade, tudo pela causa. Tudo alimentado pelo niilismo, mal que vais se instalando cada vez mais nos jovens que entregaram-se ao progressismo, e só viram nas perspectivas socialistas um meio de apaziguar esse vazio.

Por fim, a grande causa comum só trouxe o que o inferno poderia trazer: desordem, dor e sofrimento por meio de demônios que não mais conseguem ter sentimento por nada ou ninguém.


Apêndice

O apêndice é um capítulo não publicado que compõem as obras completas. Trata de um panfleto/confissão de Stavróguin.

Dois temas:

A- a mediocridade dos que não tem profundidade em suas vidas, e principalmente na fé. A discussão entre o ateu verdadeiro e o crente verdadeiro (baseada no trecho de Apocalipse 3).

B- uma observação moralista magnífica sobre o abismo quase intransponível do pecado e da desgraça que é contraposto pela excelsa magnanimidade da Misericórdia.

Um capítulo excluído, mas genial.


(Esse texto também está no Medium. Se você usa o app encontrará esse e outros texto por lá: https://medium.com/@tobiasgoulao)

Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.