Santa Carona

Ideias e Realidade

Nassim Nicholas Taleb tem um trecho muito interessante no seu livro Arriscando a Própria Pele que faz pensar no peso das ideias contra a força da realidade. Ele diz:

“Você jamais convencerá completamente uma pessoa de que ela está errada; somente a realidade é capaz disso.”

Essa magistral comprovação fixada em um aforismo faz pensar quantas vezes tentamos persuadir alguém de alguma intenção errada, procurando impedir uma ação que traria problemas, mas mesmo com a melhor das argumentações não conseguimos fazer a pessoa mudar de ideia. Mas depois de uma experiência ruim, com o confronto com a realidade, na qual ideias desconexas com ela não tem espaço de sobrevivência, o que resta para aquele a quem advertimos o estado de choque por estarem erradas.

Podemos aqui constatar três pontos interessantes sobre a temática:

1- o peso das ideias e suas consequências;

2- ideias/ideologias contra a realidade;

3- o choque com a realidade e o impacto nas convicções: a “metanoia” ou a negação e a danação.

A primeira questão vemos levantadas por Richard M. Weaver em seu livro As Idéias Têm Consequências. A perspectiva é que, em frente ao desenrolar da vida humana, no contexto da realidade, as ideias distintas da mesma acabam por mostrar uma consequência avassaladora nas relações entre as pessoas. Considerando as crises das ideias, seu afastamento da constatação com o mundo real, Weaver não mede palavras para mostrar a tragédia humana que está sendo desenvolvida, principalmente em frente aos que visão o controle tendo como ferramenta conjuntos ideológicos. O próprio Taleb, junto a outro intelectual de peso, o Thomas Sowell, sempre lembram o que os acadêmicos atuais tendem a fazer: transformar ideias de gabinete em panaceias universais. A salvação pelas ideologias, pelas formas de pensamento que de tão bem estruturadas passam como verídicas, não são, na prova, mais que formas de destruição do ser humano que não mais consegue lidar com a vida concreta, com o mundo real no qual as ideologias disfarçam e obnubilam a compreensão.

Para seguirmos, a segunda questão é confirmação da destruição de ideias distintas da possibilidade da realidade. Todas as ideologias que foram colocadas em prática, todas as ideias de formulação de um mundo perfeito tornaram-se grotescas tragédias ao fazer parte da vida humana.

Perante a loucura ideológica da destruição do mundo real, sempre acontecia como muito bem colocou Chesterton lembrando do conjunto de pessoas que, ao lutar pela abolição da moral, reclamavam da falta de moral. Colocação essa igual a de C. S. Lewis, que dizia formarmos homens sem peito e depois cobrarmos deles coragem, de castramos pessoas e cobrar delas a fertilidade.

Exemplos disso são comuns nos delírios pedagógicos contemporâneos e seus resultados pífios, ou nas inúmeras tentativas de aplicação de ideias socialistas mundo afora. Somemos a isso todos os resultados do materialismo, do cientificismo, da catástrofe niilista e o que ela trouxe para a pessoa humana: a amputação do seu lado espiritual e a perda do sentido da própria existência.

Toda ideologia colocada frente a realidade morre. Como bem lembra o Olavo de Carvalho:

“Pegue um ideólogo e jogue-o no meio do mato, sozinho, entre lobos e ursos. Quero ver quanto tempo dura a ideologia dele.”

Com a terceira observação, retornamos ao Taleb. O enfrentamento com o real pode ser o “caminho de Damasco”, “o ventre da baleia” pelo qual a pessoa abandona um mundo ingênuo e passa a encarar a realidade em si. Tomemos aqui uma observação rápida, mas precisa, do que é realidade, como exposta por Juan Manuel Burgos:

“realidade é aquilo que encontro, tal como encontro”,

ou seja, é a situação na qual sou inserido e que me é dada, já formada e com as potências de ação determinadas pela sua própria condição.

A realidade é imperiosa e não tem meio termo ao atuar sobre nossas vontades e aspirações. Não respeitar o mundo concreto e real, não saber agir segundo nossas circunstâncias de pessoas instaladas na realidade é um erro inenarrável.

Ao deparamos com essa condição, podemos reagir de duas formas:

A– Mudança completa da perspectiva sobre a ideologia e reordenação da vida considerando o aspecto da realidade apreendido. Isso quer dizer que, em frente ao desajuste do sistema de ideias utópicas e que não podem ser impostas no mundo concreto sem causar a autodestruição do ser humano, aquele que se deu conta da inadequação da ideologia ao mundo concreto, passará por um doloroso, mas satisfatório processo de reordenação da sua própria vida. Abandonar a ideologia e seguir a diante sem uma pretensão de moldar a realidade segundo suas ideias, mas viver tendo em consideração as circunstâncias e a necessidade de agir a partir do que lhe é dado e das potências que a própria realidade oferece.

B– Completa negação da realidade e a aceitação da ideologia como centro da vida. É o esquema no qual muitos ainda vivem, mesmo com tantas exposições das falhas ideológicas que ainda sustentam. É a questão da “deturpação” da ideia central, da adaptação dialética para uma nova “leitura” daquele conjunto de ideias, ou da simples utilização de uma venda para não enxergar o mundo, mas viver como alguém que está instalado em um mundo alternativo, fechado em sua própria cabeça, e acredita que todo o universo deve se adequar a isso.

Assim sendo, há momentos que devemos lembrar da observação de que não vale a pena jogar xadrez com pombos. Há casos que só a realidade, dura, crua e inegociável pode convencer. Em outros, nos mais complicados, nem mesmo ela…


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Tobias Goulao

Natural de Pirenópolis, professor, mestre em História, sobrevivente de duas universidades, amante daquelas coisas boas da vida: meus livros, meus filmes, cerveja artesanal e café.