Santa Carona

Meu novo Amigo!

“Os olhos percorriam atentamente as linhas do texto e, de quando em quando, mais uma página era virada. Em torno reinava o silêncio, entrecortado às vezes por algum som típico de uma cidade do interior, no início do século passado. Estamos em 1917. Uma jovem, com seus 17 anos, tranquila, estuda numa sala próxima à entrada de casa. Era mais uma quente noite de verão em Jaguarão, no Rio Grande do Sul, na fronteira com o Uruguai.

A porta da rua se encontrava aberta, talvez com a finalidade de arejar um pouco o ambiente, castigado pelo abafamento característico dessa época do ano. Os criados estavam ocupados nos afazeres domésticos, longe daquela parte da casa. Concentrada na leitura, nem mesmo percebeu a entrada de um estanho na dependência, o qual se postou do outro lado da mesa diante da qual estava. A surpresa foi tão grande, ao levantar os olhos do livro, divisou um homem, com sinais de embriaguez, que agarrava com as duas mãos a borda da mesa. Era forte e alto, mal-encarado e olhar covarde. Envolvendo a cintura com uma faixa, ali levava presa uma faca, como é costume usar nessa região.

O forasteiro permaneceu algum tempo a observar a moça, meio aturdida por tal visão, e depois foi rodeando a mesa na direção dela, sem deixar de se apoiar. Quebrou o silencio reinante e disse em espanhol: “Tú hablas, yo te estrangulo”.

O terror se apoderou da moça, que nada pode dizer, a não ser umas poucas palavras a meia voz: “Meu novo amigo!”. No mesmo instante sentiu pousar sobre o ombro uma mão, aquela mesma que, por vezes, sentira em outras ocasiões de desalento. Era seu fiel Anjo da Guarda que, ao lhe tocar no ombro, lhe restituía como que por encanto a tranquilidade, dissipando com incrível rapidez o terror que sentia. Teve, com isso, forças para se levantar e correr ao encontro de Acácia, uma das empregadas da casa, enquanto o temido homem fugia, derrubando na fuga uma cadeira, com grande barulho.”

Decidi começar o texto de hoje com um dos acontecimentos na vida de Cecy Cony, uma brasileira que recebeu a graça especial de ver o seu Anjo da Guarda desde os cinco anos de idade. Cecy nasceu no ano de 1900 na cidade de Santa Vitória do Palmar, no sul do Brasil. Anos depois ela ingressou na Congregação das Irmãs Franciscanas da Penitência e da Caridade Cristã, recebendo o nome de Maria Antônia. Há alguns anos atrás li sua autobiografia intitulada “Vi o meu Anjo”, e através dessa leitura me encantei ainda mais pela devoção ao Santo Anjo da Guarda e mais tive vontade de saber sobre os Santos Anjos. É um livro pequeno, de leitura simples, mas encantador.

De acordo com o Catecismo da Igreja Católica, desde o início da vida até a morte, cada ser humano é cercado por um anjo, que o protege e intercede por ele, sendo seu pastor para conduzi-lo na vida, até o Céu. A existência dos anjos, como seres espirituais, é uma verdade de fé. Nas próprias Sagradas Escrituras encontramos grandes testemunhos de sua existência e ação. Os Anjos da Guarda são chamados de “ministros”, pois eles foram colocados pelo próprio Deus a nosso serviço, inspirando-nos, iluminando-nos e também realizando milagres e lutando contra os demônios.

É importante saber que existe uma Hierarquia dos Anjos, seguido o critério tradicional, sendo eles nove os Coros ou Ordens Angélicas (Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Potestades, Virtudes, Principados, Arcanjos e Anjos). Estes estão divididos em três hierarquias. A primeira hierarquia envolve o Coro dos Serafins, Querubins e Tronos. Os Serafins, nome que deriva do termo hebraico “seraph” que significa “queimar completamente”, são anjos que se “consomem” no amor a Deus. Eles aparecem uma vez na Bíblia em Isaías 6, 1-3

“No ano da morte do rei Ozias, eu vi o Senhor sentado num trono muito elevado; as franjas do seu manto enchiam o templo. Os serafins se mantinham junto dele. Cada um deles tinha seis asas; com um par de asas velavam a face; com outro cobriam os pés; e, com o terceiro, voavam. Suas vozes se revezavam e diziam: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus do Universo! A terra inteira proclama a sua glória”. “

Os querubins são conhecedores dos Mistérios Divinos, sendo guardas e mensageiros destes Mistérios. Isso pode ser atestado pela própria Bíblia, no qual os Querubins são os mais citados, aparecendo em cerca de 80 vezes em vários livros. Os Tronos, são anjos que transmite aos Coros Inferiores o esplendor da Divina Onipotência, e eles são chamados também de “Sede Dei”.  Em síntese a primeira hierarquia é formada por anjos que estão em íntimo contado com Deus, amando-O, adorando-O e glorificando-O em constante e permanente frequência e em grau bem mais elevado que o outros Coros.

A segunda hierarquia é formada pelos Coros denominados de Dominações, Potestades e Virtudes. São Gregório escreveu assim sobre as Dominações: “Algumas fileiras do exército angélico chamam-se Dominações, porque os restantes lhe são submissos, ou seja, lhe são obedientes”.  Eles são enviados por Deus a missões mais relevantes.

As Potestades cuidam da forma como deve ser feita as coisas, sendo também os condutores da ordem sagrada. São espíritos de alta concentração, alcançando um grau elevado de contemplação a Deus. Já os de Virtudes, possuem atribuições semelhantes aos de Potestades, e eles também removem obstáculos que podem interferir no perfeito cumprimento das ordens do Criador. São Anjos fortes e viris. De acordo com o professor Felipe Aquino, quem sofre de fraquezas, sejam elas físicas ou espirituais, devem invocar o auxílio e proteção de um Santo Anjo do Coro das Virtudes.

Na Terceira Hierarquia temos os Coros: Principados, Arcanjos e Anjos. Estes são os que além de executar as ordens de Deus são os que estão mais próximos a nós, conhecendo a fundo a natureza de quem devem assistir. Os Principados não são enviados a missões modestas, sendo guias dos mensageiros Divinos, podem ser enviados a príncipes, reis, províncias, Dioceses, e são também protetores dos povos, levando instruções e avisos de Deus. Quando o povo que recebeu a instrução a recusa propositalmente, os Principados se transformam em Anjos Vingadores e derramam a ira Divina sobre eles, para que se voltem a Deus.

A ordem tradicional, de acordo ainda com o professor Felipe Aquino, coloca os Arcanjos entre os Principados e os Anjos. Mas pelas funções que desempenham, acredita-se que ele deve estar colocado no mais alto Coro dos Santos Anjos. Conhece-se o nome de três Arcanjos: Gabriel, Miguel e Rafael. Há diversas passagens bíblicas falando sobre estes três Arcanjos, inclusive há uma passagem do livro de Tobias que merece um destaque:

“Eu sou Rafael, um dos sete Anjos que estão sempre presentes e tem acesso junto à Glória do Senhor”. (Tobias 12,15).

E por fim chegamos no Coro dos Anjos. Eles recebem ordens dos Coros superiores, e estão mais próximos da humanidade, prestando um serviço silencioso mas de valor incomensurável à cada pessoa.

“Vou enviar um anjo diante de ti para te proteger no caminho e para te conduzir ao lugar que te preparei. Está de sobreaviso em sua presença, e ouve o que ele te diz. Não lhe resistas, pois ele não te perdoaria tua falta, porque o Meu Nome está nele. Mas se lhe obedeceres pontualmente, se fizeres tudo o que eu te disser, serei o inimigo de teus inimigos, e o adversário de teus adversários.” (Êxodo 23,20-22).

Cada pessoa tem seu próprio Anjo da Guarda e é importante desenvolvermos uma boa amizade com nosso Anjo, pois é ele que nos guia e nos guarda de todos os perigos. Quando cito perigos, não me refiro somente a perigos físicos, mas a perigos espirituais principalmente, pois nosso Anjo tem a missão de proteger e ensinar a nossa alma para que alcancemos o Céu. Para isso devemos aprender a ouvir e a obedecer a voz de nosso Anjo. É necessário antes tomar consciência de sua existência, apreciar e compreender aquilo que a fé Católica apresenta, inclusive sobre os Santos Anjos. Depois desenvolver a capacidade de ouvi-lo e saber que ele está ao nosso lado e não podemos desagradá-lo. Nosso Anjo da Guarda é nosso amigo e não há segredo entre nós e eles, ao contrário dos demônios que não podem saber o que pensamos, nosso Anjo da Guarda sabe, pois eles veem Deus face a face. São João Bosco dizia que o Anjo da Guarda “deseja ajudar você mais do que você deseja ser ajudado por ele”. Por isso devemos pedir o auxilio do nosso Anjo, inclusive nos momentos de tentações.

Podemos pedir conselhos ao nosso Anjo da Guarda, pois eles conhecem as coisas muito melhor do que nós. É interessante também saudar o Anjo da Guarda de outras pessoas, pois isso ajuda no relacionamento com ela, inclusive podendo fazer com que seja solucionada qualquer questão e com isso nós também honramos o Anjo dela. E por fim, podemos imitar nossos Anjos, podendo ajudar outras pessoas a encontrarem o caminho de Deus, para que todos nos encontremos um dia no Paraíso.

“Ó tu que cruzas o espaço

Mais veloz do que os relâmpagos,

Peço-te, em meu lugar,

Voa até aqueles que amo!

Com as assas seca seu pranto,

Canta que Jesus é bom

E que a dor tem seus encantos

E sussurra-lhes meu nome…”

(Santa Teresinha do Menino Jesus, A meu Anjo da Guarda).

Pabline Gasparoti

Goiana, graduada em farmácia, catequista, gosto de uma boa leitura e sou apaixonada por Deus.