Santa Carona

Os mandos de um diretor

Na calçada caiam grossos pingos d’água, era uma tarde cinzenta e chuviscava. Crianças, de todo tipo, baixas, altas, feias, bonitas, mas todas elas animadas e sorridentes corriam e gritavam. O moleque de cabelos negros e pés descalços, pés sujos, sujos, gritou empurrando um bacuri pequenino de camisa branca e shorts coloridos:

-Você é o pego!

Todos gritavam ainda mais e as meninas sorrindo, corriam balançando seus vestidos. Um guri mulato, tropeçou em uma das pedras que compunham a rua, sim leitor, era uma cidade histórica dessas que serve de cenário a romances e serenatas nas noites de lua cheia. Mas voltemos a queda do negrinho, o coitado ao cair acabou rebentando seu chinelo e pior ainda abrindo uma pequena ferida no joelho direito. Os pingos de chuva agora se tinham multiplicado, de maneira que lavavam cuidadosamente o pequeno machucado do pequenino. As crianças todas começaram a rir do pobre menino e tudo seguia normalmente.

Na rua ainda transitavam umas senhoras com pequenos guarda-chuvas e sacolas com produtos que provavelmente tinham sido comprados no mercado municipal. Uma das senhoras, com cabelos claros e cacheados ouvindo o barulho das crianças, franzia a testa e torcia o nariz, chegou a murmurar para um pequeno que a assustou com a correria:

-Ai pobre diabo! Não basta a chuva e vocês ainda nos atrapalham! Os culpados são os pais que soltam essas pestes.

Tratava-se de uma dessas beatas, que por serem insuportáveis não conseguiram pretendes e que não os tendo, também não têm filhos e por isso consideram as crianças como diabos. Os meninos nem ligaram, gritavam ainda mais e riam do senhora, que já tinha as bochechas coradas de raiva.

Haviam cavalheiros com guarda-chuvas longos e pretos, trajavam ternos, deveriam estar saindo de algum trabalho ou reunião, coisa de adultos. Estes não se importavam com as crianças, um ou outro ainda sorria das brincadeiras.

Ali ainda tinha um botequim, suas mesas espalhadas em um amplo salão abrigavam cavalheiros com seus suéteres e boinas, gargalhavam liderados por um velhinho que estava de pé apoiado em uma bengala com calça cinza e camisa branca, usava um suspensório e seus cabelos eram penteados para trás.

O bom senhor contava casos de sua mocidade e fazia graça às raparigas que entravam no bar ou passavam na porta. Num momento propôs uma aposta, animou todos os outros a investirem dinheiro na brincadeira. Dizia que acertaria um guardanapo, enrolado por ele mesmo, numa lixeira que ficava do outro lado do balcão. O dono do bar com um pano de prato no ombro enxugava a mão e ria. Como parecia muito simples aos presentes o ancião argumentou:

-Eu já tenho oitenta e sete anos, não é nada fácil fazer algo subir nessa idade.

Todos riam desesperadamente e aceitaram a proposta do velhinho.

Este encostou a bengala no balcão, ergue o braço num movimento de quem arremessaria, deu um passo atrás com o pé direito e jogou a bolinha de papel.

-Uooouu -Gritou um bigodudo com uma camisa amarela- acertou mesmo!

Todos gritavam e aplaudiam o velhinho, que agora tinha o semblante de um medalhista olímpico. De um lado para o outro os garçons corriam, com cervejas e petiscos nas bandejas.

Aquela era a Rua do comércio, ali várias lojas, antiquários, barbearias e bares dividam espaço culminando no imponente Mercado Municipal. Era por causa dele que as outras lojas estavam ali, consequentemente por isso ganhou este apelido de “Rua do Comércio”. Raios faziam o céu ficar mais claro e as nuvens se amontoavam escurecendo o dia.

-Se vier com a força desses trovões estamos perdidos -falou o dono de um antiquário olhando para o céu com expressão preocupada.

De todos os lados os comerciantes se preocupavam com a chuva, puxavam toldos, fechavam portas, arrastavam cadeiras para o lado de dentro das lojas e faziam caretas com os trovões. As crianças e os que estavam no bar pareciam não se importar com nada.

Até que um homem com roupas imponentes e medalhas militares aparece na rua em cima de um belo cavalo branco, outros quatro homens com capas azuis e também montados o seguiam. As crianças correram para as calçadas assustadas. O chefe da comitiva olhou com cara de bravo para dentro do bar. Parecia procurar alguém, não achando seguiu viagem vagarosamente.

No botequim apenas o proprietário percebeu a cena, puxando o pano dos ombros, o passou no balcão e encarou o militar. Como estes saíram, ele suspirou aliviado e sorriu.

Até que toda a movimentação cessou, os comerciantes pararam, assim como os garçons e as crianças. Gritos no bar foram silenciados, quem corria parou e o velho bigodudo de alívio sorriu. Tudo isso porque um homem com coletes bege gritou:


-Corta!

Thiago Lima

Direto de Vila Boa. Interessado em tudo que o mundo moderno desconhece. Aceito um café. Cum gaudium et Pace!